Pílula de R$ 2,4 mi por ano mostra “novo normal” dos preços de remédios contra câncer

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A Revolution Medicines definiu em cerca de US$ 480 mil (R$ 2,4 milhões) por ano, ou US$ 663 por comprimido, o preço de tabela de seu novo medicamento contra o câncer de pâncreas — um valor que, no passado, seria considerado inimaginavelmente alto.Hoje, preços desse nível são comuns entre os medicamentos contra o câncer.Uma das terapias CAR-T mais avançadas custa atualmente US$ 600 mil por uma única infusão. Uma concorrente, administrada da mesma forma, tem preço de tabela de US$ 550 mil. Um comprimido diário para tratar câncer gastrointestinal custa US$ 520 mil por ano. Um medicamento contra leucemia, tomado duas vezes ao dia, custa US$ 430 mil anuais.Somente em 2024, nove medicamentos contra o câncer foram aprovados e lançados nos Estados Unidos com preços de tabela superiores a US$ 400 mil por ano, segundo levantamento do Institute for Clinical and Economic Review (ICER), organização que avalia o custo-benefício de medicamentos.A normalização desses preços seria difícil de imaginar duas décadas atrás, quando até mesmo a possibilidade de um medicamento contra o câncer custar US$ 100 mil por ano provocava fortes críticas.Desde então, os preços dos medicamentos contra o câncer aumentaram de forma constante, com poucas limitações além do valor que as empresas acreditam que o mercado esteja disposto a pagar. A conta é arcada por programas governamentais como o Medicare, empregadores, pacientes e americanos que pagam impostos e planos de saúde.Brian Crawford, porta-voz da Revolution Medicines, afirmou que o preço do novo medicamento, Rasonque, “reflete sua diferenciação e o benefício significativo que proporciona aos pacientes”.Como ocorre com outros medicamentos contra o câncer, a maior parte do custo do Rasonque deve ser coberta pelos planos de saúde, com valores variados desembolsados diretamente pelos pacientes. Crawford disse que pessoas sem seguro ou com cobertura insuficiente que atendam a determinados critérios financeiros e médicos receberão o medicamento gratuitamente. O remédio, também conhecido como daraxonrasibe, é tomado na forma de dois comprimidos por dia.No meio médico, boa parte da indignação em relação aos preços dos medicamentos contra o câncer tem sido direcionada a remédios caros que fracassaram ou que não passaram por estudos clínicos capazes de avaliar se aumentavam a expectativa de vida. Esses medicamentos foram aprovados porque conseguiam reduzir tumores ou retardar seu crescimento.O medicamento da Revolution Medicines não é uma cura, mas demonstrou capacidade de prolongar a vida dos pacientes. Em um estudo clínico importante, pessoas com câncer de pâncreas avançado que receberam o comprimido tiveram sobrevida mediana de 13,2 meses, contra 6,7 meses entre aquelas tratadas com quimioterapia.Os resultados provocaram entusiasmo entre especialistas e pacientes com câncer de pâncreas porque foram obtidos em pessoas que não tinham boas opções de tratamento e dispunham de pouco tempo de vida.Nesse contexto, é difícil dizer se o preço definido pela Revolution Medicines é justo, afirmou Stacie Dusetzina, professora de política de saúde da Universidade Vanderbilt que pesquisa preços de medicamentos.“Esse medicamento tem benefícios clínicos substanciais em relação aos tratamentos existentes, o que nem sempre acontece com medicamentos contra o câncer de preço elevado”, disse.Pacientes com câncer costumam tomar um medicamento por apenas alguns meses, interrompendo o tratamento porque ele se torna tóxico demais ou porque a doença avança. No estudo clínico que levou à aprovação do Rasonque, por exemplo, os pacientes tomaram o medicamento por uma mediana de seis meses.Mesmo em alguns meses, porém, os custos podem se acumular. Além disso, pacientes que respondem bem ao tratamento podem permanecer usando um medicamento contra o câncer por anos.Ao longo dos anos, o público e parlamentares americanos demonstraram indignação com os altos custos da insulina e de medicamentos contra HIV, hepatite C e, mais recentemente, obesidade. Terapias administradas uma única vez para doenças genéticas raras agora frequentemente chegam a alguns milhões de dólares.O câncer, porém, ocupa uma posição singular nesse sistema porque tanto os tratamentos quanto os medicamentos são extremamente caros e afetam um número elevado de pessoas.Nos últimos cinco anos, empregadores têm apontado o câncer como a principal categoria de doenças responsável por seus gastos médicos, segundo uma pesquisa divulgada no fim de agosto pelo Business Group on Health, que representa grandes empresas que oferecem planos de saúde aos funcionários.O aumento dos custos é agravado pelo fato de que, em alguns tipos de câncer, como o mieloma múltiplo, os pacientes agora recebem rotineiramente três ou quatro terapias simultaneamente.Os preços elevados não se restringem a medicamentos destinados a um pequeno número de pacientes. O maior blockbuster da oncologia é o Keytruda, que tem preço de tabela de US$ 213 mil por ano. O medicamento é administrado por infusão ou injeção a cada poucas semanas e já foi usado no tratamento de vários milhões de pacientes.Para medicamentos mais antigos, a concorrência de genéricos e as negociações governamentais reduziram significativamente os custos. Para medicamentos recém-aprovados, porém, praticamente não há limites para a capacidade dos fabricantes de estabelecer preços elevados.“Permitimos que as empresas farmacêuticas cobrem o que quiserem, sem uma justificativa clara além de quanto elas acreditam que conseguem cobrar”, afirmou Aaron Kesselheim, professor de medicina da Harvard University e do Brigham and Women’s Hospital que pesquisa preços de medicamentos.O preço de tabela de um medicamento não é o valor efetivamente pago pelos pacientes ou pelas seguradoras. Ele é apenas o ponto de partida para negociações que reduzem o preço final pago por empregadores ou pelo governo.Embora essa dinâmica reduza significativamente os preços efetivos de medicamentos para diabetes e doenças autoimunes, o valor final pago por medicamentos contra o câncer costuma ficar apenas um pouco abaixo do preço de tabela.Fabricantes de medicamentos contra o câncer e seus defensores afirmam que os preços refletem um ciclo de inovação que transformou doenças antes fatais em condições crônicas e, em alguns casos, levou a curas.No caso de empresas menores, também argumentam que é necessário recuperar os investimentos consideráveis feitos em pesquisas e estudos clínicos.Com sede na região de San Francisco, a Revolution Medicines acumulou US$ 4 bilhões em prejuízos desde sua fundação, em 2014. A maior parte desse valor está relacionada aos US$ 3,3 bilhões que a companhia afirma ter gasto em pesquisa e desenvolvimento nesta década.Impulsionada pelas expectativas dos investidores de que o Rasonque, seu primeiro produto aprovado, se torne um blockbuster, a Revolution alcançou valor de mercado de US$ 45 bilhões.A empresa criou um programa de acesso ampliado que, nos últimos meses, permitiu que mais de 2 mil pacientes tivessem acesso antecipado e gratuito ao medicamento. Agora, com a aprovação do remédio, a companhia está transferindo esses participantes para um modelo em que o tratamento será coberto pelos planos de saúde.Os gestores de benefícios farmacêuticos, conhecidos pela sigla PBMs, têm papel importante na definição de quais novos medicamentos, como o Rasonque, serão amplamente cobertos pelos planos. Eles recomendam aos empregadores clientes se devem pagar pelos tratamentos.Duas das maiores empresas desse segmento, a Caremark, da CVS Health, e a Optum Rx, da UnitedHealth Group, disseram ter iniciado um processo de avaliação do Rasonque.David Whitrap, porta-voz da CVS, afirmou que o Rasonque parece representar um avanço importante. “Ao mesmo tempo, é fundamental que os fabricantes de medicamentos percebam que preços proibitivos podem limitar severamente o número de pacientes capazes de ter acesso a esses avanços”, disse.Especialistas esperam que a maioria dos planos de saúde cubra o Rasonque, mesmo com o preço elevado, devido às fortes evidências de que o medicamento beneficia os pacientes e à falta de alternativas de tratamento.Ainda assim, os planos podem tentar restringir agressivamente a cobertura às pessoas que atendam aos critérios avaliados no estudo clínico e aprovados pelos reguladores: pacientes com câncer de pâncreas avançado que já tenham tentado ou não possam se submeter à quimioterapia.Isso pode deixar de fora muitos pacientes que buscam o tratamento e provocar disputas sobre se determinada pessoa realmente se enquadra nos critérios de elegibilidade.O câncer de pâncreas afeta de forma desproporcional pessoas mais velhas e, por isso, muitos dos pacientes que utilizarão o medicamento terão cobertura do Medicare. A legislação federal deve exigir que os planos de medicamentos do Medicare cubram o Rasonque porque o câncer é considerado uma categoria protegida.O medicamento também oferece um exemplo de como pacientes do Medicare se beneficiam de um teto anual para gastos com medicamentos criado pela Inflation Reduction Act, aprovada em 2022 pelos democratas sem nenhum voto republicano.O teto, que era de US$ 2.100 neste ano, subirá para US$ 2.400 no próximo ano. A regra cobre comprimidos e injeções obtidos pelos pacientes em farmácias — incluindo o Rasonque.Isso significa que um paciente do Medicare que já tome outros medicamentos caros pode desembolsar apenas algumas centenas de dólares por ano, ou até mesmo nada, ao iniciar o tratamento com Rasonque.Se o medicamento tivesse chegado ao mercado antes da entrada em vigor da lei, muitos pacientes teriam de arcar com mais de US$ 25 mil por ano pelo Rasonque, calculou Dusetzina.c.2026 The New York Times CompanyThe post Pílula de R$ 2,4 mi por ano mostra “novo normal” dos preços de remédios contra câncer appeared first on InfoMoney.