Uma inteligência artificial (IA) utilizada por policiais brasileiros têm mostrado resultados promissores na elucidação de crimes e até reduzido os casos de violência. Apelidada informalmente de “ChatGPT da Segurança”, a tecnologia fez com que a cidade de Luziânia (Goiás) registrasse uma diminuição de 27% dos crimes violentos, de acordo com Secretaria de Segurança Pública de Goiás.Oficialmente chamado de Pax, o sistema tem sido utilizado no estado goiano em casos de homicídio, latrocínio, roubo e furto. Segundo a pasta de segurança, a nova tecnologia auxilia no processo investigativo, na elucidação dos casos já registrados e na prevenção. Além disso, há registros de uso no patrulhamento policial e em ocorrências em andamento.“A definição de prioridades e a condução das operações são das unidades policiais, já que a plataforma é um instrumento de apoio”, pontua Gustavo Carlos Ferreira, subsecretário de Segurança Pública de Goiás, ao TecMundo.Para o subsecretário, a plataforma está sendo um “divisor de águas” na segurança pública do estado do centro-oeste.Em um dos casos de uso, a polícia de Aparecida de Goiânia (GO) realizou a prisão de dois suspeitos de cometerem uma série de roubos. Segundo a ocorrência, a Ronda Tática Móvel (Rotam) recebeu a denúncia, neste mês de agosto, de que uma dupla em uma motocicleta vermelha havia acabado de realizar o assalto de um celular. Além de levarem o aparelho, eles exigiram que a vítima realizasse o desbloqueio.De acordo com a narração da ocorrência, um dos homens estava de camisa azul e outro com camisa vermelha. Na fuga, eles adulteraram a placa da moto com fitas e ainda trocaram de roupa.Com as informações em mãos, os policiais fizeram na Pax a chamada busca semântica, que entende o significado real e intenção de uma pergunta. A IA retornou imagens de câmeras públicas que filmaram motociclistas que batiam com a descrição. Alguns dos resultados mostraram duas coisas em comum: uma dupla em uma moto usando o mesmo modelo de capacete e botas, apesar de roupas diferentes. Por meio desses elementos, os policiais conseguiram encontrar os suspeitos e efetuar a prisão.Fonte: Pax/DivulgaçãoComo é a IA da Pax?A nova tecnologia brasileira utiliza um modelo open-weight, que basicamente funciona como uma plataforma de código aberto. Estes sistemas disponibilizam seus componentes para download gratuito para que a comunidade possa fazer IAs personalizadas. O modelo da Pax é de visão e linguagem, sendo treinado com aprendizado contrastivo (que agrupa itens parecidos e separa itens não relacionados) para alinhar imagens e texto. Depois disso, os dados são treinados em camadas próprias de identificação e ajustados com dados de sistemas brasileiros.A tecnologia nacional faz esse cruzamento de informações para oferecer aos policiais dados estruturados e correlaçõesDe maneira prática, a IA funciona em modo conversacional. Ou seja, é possível interagir com a tecnologia por meio de perguntas e comandos em texto, assim como os chatbots mais populares, casos do Gemini, Claude e o próprio ChatGPT.O banco de dados da IA é alimentado por informações vindas do sistema de boletins de ocorrência (BOs), imagens captadas por câmeras de segurança de vias públicas e depoimentos de testemunhas, por exemplo. Com o ferramental, um agente de segurança (policial militar ou civil) pode pedir para a ferramenta mostrar carros do tipo pickup que passaram por determinada rua em determinado horário, caso testemunhas relatem ter visto alguém em uma pickup cometendo um crime.Além da pesquisa por cor, categoria, marca, ano de fabricação e modelo dos veículos e vestimenta dos suspeitos, por exemplo, a Pax também realiza busca a partir de detalhes visuais como adesivos.“A Pax também pode criar um alerta que é direcionado à unidade de patrulhamento responsável. Se o veículo for detectado novamente por qualquer câmera da rede, a equipe é notificada imediatamente”, explica David Peixoto, CEO da Pax, em entrevista exclusiva ao TecMundo.O executivo afirma que a tecnologia nacional faz esse cruzamento de informações para oferecer aos policiais dados estruturados e correlações, que são fatores essenciais para se descobrir o autor (ou autores) de ações criminosas.“No fim ele é um agente assistente de investigação que torna o trabalho da polícia 100 vezes mais rápido. A IA consegue dar a capacidade investigativa da polícia de volta, permitindo que o policial possa atuar em mais casos ao mesmo tempo”, defende o executivo.Fonte: Pax/DivulgaçãoRedução de crimesComo citado por Peixoto, a Pax surge em um contexto em que além das altas taxas de criminalidade, o Brasil convive com médias baixíssimas de resolução de crimes.De acordo com o Instituto Sou da Paz, somente 36% dos homicídios dolosos cometidos em 2023 haviam sido esclarecidos até o final de 2024. O levantamento, chamado de “Onde Mora a Impunidade”, cuja edição mais recente é de 2025, considera um homicídio esclarecido quando pelo menos um autor é identificado e denunciado pelo Ministério Público.Esse número tende a ser ainda pior no caso de crimes patrimoniais. O país não tem um levantamento unificado que mostra a resolução desses casos, mas há evidências que apontam que dificilmente muito mais de 10% dos roubos e furtos são resolvidos com os culpados sendo encontrados.Diante desse cenário, o CEO da Pax afirma que a IA é a “alavanca tecnológica mais importante para ajudar a segurança”, já que consegue ajudar os policiais a conectar os pontos.A empresa diz que por questões estratégicas e de segurança não revela as cidades onde há operação com a IA. Contudo, de maneira geral, forças policiais de mais de 50 cidades de Goiás e do Paraná já operam a tecnologia. Em Luziânia, cidade goiana onde a Pax realizou o projeto-piloto, houve uma redução de 27% na taxa de crimes de roubo, furto e homicídio. A Pax informa que os resultados foram alcançados em seis meses de atuação da plataforma.Gustavo Carlos Ferreira, o subsecretário de Segurança Pública de Goiás, confirma os números. “De forma geral, a efetividade policial praticamente dobrou nas unidades que operam com a plataforma”, revela.Ferreira comenta que mais de 2,2 mil casos já foram solucionados pelas forças de segurança de Goiás com apoio da Pax desde meados de abril de 2025.O subsecretário diz ainda que o balanço da Pax até agora é “extremamente positivo”. Ele cita que a novidade tecnológica representou um ganho de eficiência, que acabou se desdobrando como queda nos índices criminais.“Agora estamos disseminando a ferramenta para todo o interior do estado, para que 100% das unidades policiais de todas as forças de segurança tenham acesso a esse instrumento de trabalho”, relata ao TecMundo.Nos municípios do Paraná, foram mil casos resolvidos, segundo a Pax. O CEO da empresa comenta que o número pode ser considerado pequeno, já que não foram muitas as operações com o uso da tecnologia.Ainda de acordo com Peixoto, o NPS (métrica que mede o grau de satisfação do cliente) da PAX entre as polícias que utilizam o sistema é de 92%.Sobre o custo para os cofres públicos, o CEO afirma que é uma “escala viável para o estado financiar”. Ele diz que nessa primeira fase, a PAX custa cerca de R$ 1 milhão por ano para uma prefeitura como Luziânia, por exemplo. A título de comparação, o município goiano empenhou cerca de R$ 27 milhões em segurança pública, de acordo com a execução orçamentária de 2024. O TecMundo também entrou em contato com a secretaria de segurança do Paraná, para saber um balanço sobre a IA, mas até o fechamento da matéria a pasta não retornou com respostas.Fonte: Pax/DivulgaçãoPrivacidade dos dadosDavid Peixoto explica que os dados presentes na ferramenta não são armazenados e nem mantidos pela PAX. Segundo ele, a IA roda em um servidor em cloud do órgão de segurança, em que somente os agentes oficiais possuem acesso. Todo tráfego de dados é feito em criptografia de ponta a ponta.“Além disso, tudo o que é consultado e todas as ações realizadas são registradas e guardadas. Isso permite que até o próprio uso da plataforma seja auditável. Então o usuário que está operando sabe que aquilo ali pode ser revisto”, pontua.Segundo uma análise da companhia, apenas 0,02% de todos os dados que alimentam a IA são acessados pelos agentes. O CEO diz que isso acontece por causa das camadas de proteção, que acabam exigindo que o policial esteja cadastrado.Questionado sobre a questão da cadeia de custódia, que são as etapas para se resguardar indícios criminais, o fundador da Pax defende que a IA não produz provas jurídicas. Segundo ele, a prova é o dado original e a plataforma tem design para preservar o dado bruto. “No recebimento do dado pela plataforma, calcula-se um hash [um código único gerado a partir do conteúdo do arquivo, que muda se qualquer bit for alterado] registrado com data e hora. O arquivo bruto fica imutável e a IA só gera artefatos derivados, vinculados ao original, mas sem jamais alterá-lo. Todo acesso e operação ficam na trilha de auditoria por até 5 anos. Na exportação para uso judicial, calcula-se novo hash com novo registro temporal”, diz.De acordo com Peixoto, a autoridade pode recalcular o hash a qualquer momento e confirmar que a imagem é a mesma que entrou na plataforma, por exemplo. “A demonstração de integridade é matemática — não depende da palavra de ninguém. A cadeia de custódia formal cabe aos órgãos de persecução penal e a valoração da prova cabe ao Judiciário. À tecnologia cabe garantir que o dado chegue intacto e rastreável”, defende.Fonte: Pax/DivulgaçãoMirando altoDavid Peixoto é bastante otimista em relação ao futuro. De acordo com ele, nos próximos cinco anos os processos de investigação policial terão inteligência artificial em todas as frentes. Projetando um crescimento exponencial, o executivo revela que o objetivo da Pax é romper barreiras nacionais até o final de 2027.“É inegável que a gente vai ser um case global. Essa é a expectativa de todo mundo que embarcou nesse projeto desde o início”.E o otimismo do empreendedor não surge do nada. A Pax passou por um round seed, que é a primeira rodada de investimentos de uma startup, em que a empresa captou US$ 40 milhões (cerca de R$ 204 milhões na cotação atual).O valor foi investido pelo fundo de venture capital norte-americano Benchmark, que foi uma das investidoras pioneiras de marcas como a Uber, Twitter (atual X), Snapchat (atual Snap) e o estúdio de games brasileiro Wildlife.Uma das tarefas do projeto de crescimento da PAX é fazer um “brain drain inverso”. Peixoto comenta que quer repatriar brasileiros que saíram do país para se formar em Stanford, Harvard, MIT, Yale e que hoje atuam em big techs espalhadas pelo mundo.“Acho que esse talento, a qualidade dos investidores, o mercado e a tecnologia são os ingredientes que eu vejo aqui na Pax que me deixam otimista de que nós vamos ajudar o Brasil a acabar com o crime”, projeta.