Conteúdo XPTrês diplomas, uma carreira estável e a sensação de que tudo a que se dedicava costumava prosperar. Nada disso impediu um contabilista de perder R$16 mil em um único pregão, recuar de 30 contratos para apenas um e chegar ao ponto de travar o dedo sobre o mouse por medo de operar.Tiago Pontes expôs esse conflito no 3º episódio do programa O Conselho Trader, no canal GainCast. Diante de Gilberto Coelho (Giba), Alexandre Wolwacz (Stormer), Márcio Kieling, Nelson Lee e Mauro Botto, ele buscou entender se ainda poderia virar o jogo ou se 2026 marcaria sua despedida do day trade.Os cinco conselheiros do 3° episódio do programa O Conselho Trader. Gilberto Coelho (Giba), Alexandre Wolwacz (Stormer), Márcio Kieling, Nelson Lee e Mauro Botto.O cliente: três cursos superiores e busca por rendaPontes, contabilista de 50 anos, pai de Anthony e Arthur e morador de Monte Azul Paulista, no interior de São Paulo, comanda o próprio escritório. Antes do mercado, ele trabalhou com eventos por 15 anos, exerceu mandato de vereador e procurou outra possibilidade de renda depois do insucesso eleitoral de 2016, quando tentou se reeleger.A busca refletia uma inquietação presente em diferentes fases da vida. “Sempre busquei uma fonte complementar de renda durante toda a minha vida”, relata o contabilista, que também é formado em processamento de dados e direito.Pontes começou no swing trade com ações, em 2017, afastou-se dois anos depois e retornou ao day trade em 2021. Sem medo e com pouca preparação, fechou os três primeiros meses no positivo. Então, uma única sessão rompeu aquela confiança. “Tive o meu primeiro loss de R$16 mil num dia, operando o dólar”, recorda.Após o prejuízo, Pontes aderiu a um setup que buscava três pontos de ganho para uma perda de 12 pontos. A assimetria deteriorou seu psicológico e reduziu progressivamente a exposição que conseguia suportar. “De 30 contratos que eu operava, fui regredindo a ponto de não conseguir operar com um contrato”, revela.Tiago Fabrício Pontes no terceiro episódio do programa O Conselho TraderO medo de clicarCom o tempo, o medo passou a paralisá-lo antes da entrada, transformando o clique em uma barreira quase física. “Tinha dias de eu ficar com o dedo em cima do mouse e não conseguir clicar de tanto medo”, revela.A experiência também produziu mudanças fora do gráfico. Pontes diz ter amadurecido ao enfrentar medos, frustrações e cobranças que o mercado expôs. No resultado financeiro, porém, a sensação continua sendo de estagnação. “Na área pessoal o gain foi imenso, mas no mercado eu ainda não consigo sair da lama”, reconhece.Atualmente, o escritório sustenta a família e retira do day trade a obrigação de pagar as contas. Ainda assim, Pontes enxerga nas operações a possibilidade de oferecer mais conforto aos filhos e decidiu impor um limite à busca. “Eu me propus que esse seria o último ano de tentativa no day trade”, afirma.Ao ouvir o ultimato, Kieling evita prometer que esforço e formação serão suficientes. Para ele, persistir só faz sentido se Pontes aceitar que a atividade pode não combinar com todos os perfis. “A gente costuma falar que o day trade é para todo mundo, mas nem todo mundo é pro day trade”, pondera Kieling.Leia também: “Técnica é só 30%”: como um trader virou o jogo após perder o controleO casoPontes afirma possuir um plano operacional e usar o mesmo conjunto de ferramentas há três anos. Entretanto, o número de confirmações exigidas antes da entrada torna o processo lento, complexo e vulnerável à ansiedade. “As ferramentas são boas, funcionam. Só que às vezes você tem que ter aquele alinhamento planetário para tudo dar certo”, explica.Ao ouvir essa certeza, Stormer separa experiência de validação. Repetir um sistema por anos ou lembrar de operações bem-sucedidas não demonstra que ele possui expectativa matemática positiva. “Tudo que o você for operar, você tem que ter um teste, tem que saber se aquilo comprovadamente funciona”, explica.Mesmo assim, o próprio Pontes revela que raramente deixa o sistema mostrar o resultado para o qual foi desenhado. Embora programe alvo e stop na ordem OCO, estima que abandona cerca de 80% das operações antes do objetivo. “Muitas vezes eu não deixo chegar no meu alvo, saio na metade”, reconhece.Na prática, esse comportamento preserva perdas e comprime ganhos, destruindo o resultado que serviria para avaliar o setup. Botto identifica exatamente essa inversão na condução das posições. “Você está saindo antes da operação quando está ganhando e está puxando o loss quando você está perdendo”, observa.A dor da perdaNesse ponto, Lee desloca a discussão da técnica para a emoção que Pontes tenta encerrar. O objetivo real deixa de ser executado corretamente e passa a ser eliminar o desconforto de permanecer exposto. “Você sempre quis resolver a tua dor emocional por trás desse trade”, explica.Stormer aprofunda a contradição: quem tenta evitar toda perda acaba impedindo que os ganhos maiores compensem os stops inevitáveis. Para avançar, seria necessário aceitar que perder corretamente também faz parte do trabalho. “Enquanto você tiver com essa mentalidade de que ‘eu não quero perder’, você não vai conseguir ganhar”, alerta.Além disso, Giba ressalta que mover alvo ou stop impede qualquer conclusão confiável sobre o método. Sem uma amostra executada sob regras constantes, Pontes não sabe se o problema está na estratégia ou na interferência emocional. “Se você mexeu na sua estratégia durante o trade, você não pode mais medir se a estratégia é válida ou não”, adverte Giba.Por isso, Kieling deixa de tratar a autossabotagem como explicação completa. A dificuldade de executar pode ser consequência do excesso de regras, cores e sinais que formam o próprio ambiente operacional. “Acho que a autossabotagem já passa pelo sistema operacional dele”, avalia.Leia também: “Conselho Trader” expõe os erros que impedem Bertuzzo de avançar no day tradeO diagnósticoQuando o gráfico aparece na tela, a suspeita ganha forma: bandas, cores, indicadores e confirmações disputam a atenção de Pontes. Stormer compara a visualização a um cassino e recomenda eliminar a maior parte dos elementos. “Esse gráfico está muito poluído, esse gráfico está cheio de indicadores”, aponta.Segundo Stormer, o excesso não apenas dificulta a leitura do preço. A sobrecarga também enfraquece a parte do cérebro responsável por conter impulsos, o que ajudaria a explicar as saídas antecipadas. “Esse seu sistema está boicotando o seu cérebro e te impedindo de seguir o teu plano”, diagnóstica.O próprio Pontes confirma o efeito depois de passar horas entre o índice brasileiro, o mercado americano e as tarefas do escritório. A tentativa de processar todas as variáveis termina em cansaço, não em segurança. “É, no final da tarde, todo dia, eu saio esgotado exatamente pelo excesso de informações”, admite.Diante da tela, Giba abandona a ideia de um reparo pontual e propõe uma reengenharia. O plano exige simplificar o gráfico, revisar o tamanho da posição e testar o que permanecer antes de voltar à conta real. “Falta o backtest para você ter confiança e operar com tranquilidade”, sustenta.Tiago Pontes frente a frente com a bancada do conselho no terceiro episódio do programa O Conselho TraderCerteza contra o mercadoApesar das críticas, Stormer reconhece bases importantes: Pontes registra operações, mantêm um método por anos e demonstra persistência. Essas qualidades indicam que o problema não é falta de capacidade, mas a direção dada ao esforço. “Primeiro, eu acho que você tem um potencial muito bom para se tornar um excelente trader”, afirma.Por outro lado, Lee encontra uma incompatibilidade entre a necessidade de controle e a natureza probabilística do trading. Formado em áreas que valorizam precisão, Pontes tenta levar a mesma lógica para um ambiente sem garantias. “Dentro do contexto mercado, a única certeza que você tem é que você não tem certeza nenhuma”, enfatiza.Já Botto reúne o diagnóstico em técnica, gerenciamento e comportamento. O setup não possui risco, retorno e probabilidade validados; o valor exposto varia; e as decisões emocionais alteram a execução. “Vejo deficiência nos três pilares”, resume.Além da estratégia, Kieling identifica uma rotina incompatível com o foco integral. Pontes opera pela manhã e à tarde, enquanto permanece disponível aos clientes do escritório, dividindo atenção entre duas profissões. “Ou eu opero, ou eu opero. Eu não faço outra coisa ao mesmo tempo”, reforça.Leia também: Trader chega a fazer 200 operações por dia e expõe erros no day tradeO plano de açãoComo primeira medida, Giba propõe abandonar o conjunto de indicadores e manter o Renko de 16R, que Pontes já conhece. A entrada ocorreria pela mudança de cor, com limite rígido para impedir que uma sequência negativa se transforme em descontrole. “Na minha opinião, você pode usar o Renko 16R. Colocando sempre três stops no máximo, por dia”, orienta.Para tornar as operações comparáveis, Giba também recomenda variar o número de contratos conforme a distância técnica do stop. Assim, cada tentativa arriscaria a mesma quantia, independentemente do tamanho do movimento. “Você tem que ajustar o seu stop financeiro para todas as operações terem o mesmo stop financeiro. Isso é fundamental”, acrescenta.Stormer concorda com o Renko 16R, mas sugere marcar previamente suportes e resistências e procurar entradas próximas dessas regiões. A proposta reduziria sinais e permitiria buscar ganhos maiores do que as perdas. “Você vai fazer dois ou três trades por dia, no máximo”, projeta.Por cautela, a reconstrução começaria sem dinheiro. Pontes deveria testar as regras em conta demo, registrar cada execução e só retornar ao capital real com volume reduzido, depois de reunir evidências do método. “Eu não operaria com capital no início”, recomenda Stormer.Leia também: O que mudou no operacional de André Bertuzzo após se expor no Conselho TraderFamília como âncoraEm complemento, Botto oferece uma planilha para separar o capital do day trade e definir o risco como percentual do saldo. Dessa forma, a exposição cresceria apenas por mérito e diminuiria quando a conta recuasse. “Então você vai separar um valor do capital e vai usar um percentual por trade desse capital”, detalha.Na frente comportamental, Lee recomenda observar quais dias, sensações e acontecimentos aumentam a chance de uma decisão impulsiva. A descoberta não viria de um rótulo pronto, mas do acompanhamento honesto das próprias reações.“Só no dia a dia você vai de fato perceber o que que você realmente precisa melhorar”, assinala.Já Kieling transforma a família em lembrete e reduz a jornada ao período das 9h às 11h, sem clientes ou tarefas paralelas. A fotografia da família ficaria diante do gráfico para reforçar o motivo da mudança. “Pega uma janela operacional das 9 às 11 e só faça isso. Só opera das 9 às 11”, determina.Por fim, Pontes aceita a planilha, reconhece o excesso de informações e se dispõe a reconstruir o operacional. A despedida prevista para o fim do ano cede espaço a outra tentativa. “Tenho certeza que a virada de chave começa agora. A partir do momento que eu começar a operar amanhã, vocês vão estar junto comigo em cada operação”, conclui.Confira mais conteúdos sobre análise técnica no IM Trader. Diariamente, o InfoMoney publica o que esperar dos minicontratos de dólar e índice. 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