Dizem que o regime que o Brasil viveu sob Getúlio Vargas não pode ser chamado de fascista. Afinal, os pontos que caracterizam o fascismo seriam um ditador ((√)), uma autocracia (√), o militarismo (√), a supressão da oposição (√), crença numa hierarquia social (√), nacionalismo (√), desprezo pela democracia eleitoral (√) e pela liberdade política e econômica (√). É verdade que o Pai dos Pobres não teve um partido político central — até, durante o Estado Novo, pleiteava o contato direto com o povo —, como fizeram Stalin, Hitler e Mussolini, mas Franco só manteve a Falange ativa episodicamente, a União Nacional de Salazar era discreta (vivi em Lisboa durante o salazarismo e testemunhei) etc. É verdade também que ele tinha grande desprezo por tudo que não era poder pessoal, e, na undécima hora de 1945, foi capaz de fazer o grande acordo queremista com Prestes. Conheci Luís Carlos Prestes, o Cavalheiro da Esperança, quando ele voltou ao Brasil no final da década de 70. Os oitenta anos lhe davam talvez uma certa lentidão, mas parecia uma rocha. Não tinha o olhar que marcava em Giocondo Dias a sensibilidade pelo outro, pelos outros, mas olhava de frente o futuro. Prestes voltava para participar da vida política seguindo a maré, evitando conflitos. Mas, em março de 1936, Prestes fora preso, na grande rede que se lançara sobre o País desde a Intentona, enchendo as prisões. Sua mulher, Olga Benário, grávida, foi entregue à câmara de gás dos nazistas — nada mais trágico que o nascimento de Anita Leocádia em Barnimstrasse, a prisão da Gestapo. Para prender não era preciso razão e nem sempre havia processo judicial. Graciliano Ramos, preso e um ano depois libertado sem acusação ou julgamento, deixou o testemunho impactante das Memórias do Cárcere. Para Harry Berger, barbaramente torturado, Sobral Pinto pediu a aplicação da Lei de Proteção aos Animais; Berger (Arthur Ernest Ewert) enlouqueceu na prisão. Eles tiveram 35 mil companheiros. Afinal, não tinham nada que ser antifascistas, como os clandestinos da FUA – Frente Única Antifascista, depois reunidos na ANL – Aliança Nacional Libertadora. O passado e a imitação sempre voltam a cavalo. As tendências fascistas de Trump resultaram na reaparição dos antifa americanos, logo considerados terroristas — no ano passado o Orange King os declarou “oficialmente” terroristas — e combatidos com força. O governo genocida não poderia deixar de seguir o mesmo caminho. Uma Secretaria de Operações Integradas – Seopi foi criada por Sérgio Moro e mantida por André Mendonça. Seus operadores foram os policiais Gilson Libório de Oliveira Mendes e Thiago Marcantonio Ferreira. Centenas de pessoas — algumas tão ilustres como Paulo Sérgio Pinheiro — foram relacionadas como antifascistas. Era um rótulo de decência, mas acompanhado da invasão de suas privacidades e da evidência de que a lista se destinava à perseguição política. Os ministros da Justiça do regime fascista em formação formam uma quadrilha (3 pessoas, diz a lei) de depravados. Sérgio Moro fora o chefe da organização criminosa (4 ou mais, diz a lei) da Lava-Jato, podre e ignorante até à medula. O Advogado-Geral da União terrivelmente evangélico André Mendonça o substituiu para colocar a Polícia Federal sob os caprichos do “profeta” — assim chamou Bolsonaro ao afirmar devoção por seus “ideais” sobre segurança pública — e está na categoria dos retardados que acreditam em criacionismo, o que devia ser desqualificante para função pública. Finalmente foi a vez do foragido Anderson Torres, preso em flagrante delito de golpe de Estado. Os três continuam soltos: Moro é senador (!) e candidato a governador do Pará e, depois de demitido como vagabundo pelo cara que ajudara a eleger, voltou a lamber a cria; Anderson Torres, de seu refúgio na Disney, está pendurado em Dudu Bananinha; André Mendonça, ministro “do Bem”, depois de participar de ato eleitoral disfarçado com o pedinte do Master, não se considera impedido de julgá-lo. A aprovação de sua indicação ao Supremo pelo Senado é, aliás, espantosa. Era chefe da AGU quando Bolsonaro disse que não acataria mais decisões do STF; quando disse que usaria o 142 para intervir no Estado; era ministro da Justiça quando Bozo usou um helicóptero para apoiar manifestantes contra o STF; quando repetia que as urnas eram fraudadas. Aceitar qualquer dessas declarações, evidentemente, torna a pessoa inidônea para ser ministro da Corte (e/ou do TSE). Voltando à investigação sobre antifascistas, o Supremo de então, 2020, quase por unanimidade — divergiu Marco Aurélio — aprovou o relatório da ministra Carmem Lúcia afirmando que “a coleta de informações para mapear as posições políticas de determinado grupo ou identificar opositores ao governo configura desvio de finalidade das atividades de inteligência”. Pito que Mendonça não levou em conta: convocado pelo Senado, a requerimento de Randolfe Rodrigues e — olha que coincidência — Jacques Wagner, disse que o assunto era sigiloso e não poderia ser compartilhado com os senadores. A gracinha é agora o Thiago Anti-Antifa ser o chefe da Polícia Extrajudicial do Mendonça e por acaso o gabinete do ministro o maior plantador de notícias contra pessoas ligadas ao governo antifascista — especialmente o Lulinha —, enquanto toma todo o cuidado para não sair uma linha do que fez o Flavorcaro. Em suas novas funções, o chefão da Extrajudicial está comandando uma investigação sobre o chefe da Federal. Sabe aquela coisinha que está na Constituição: “art. 5º. XXXVII – não haverá juízo ou tribunal de exceção”? Já era, não vale quando se trata do ministro “do Bem”.E o evangélico Messias, hem?! Foi ao ministro da Justiça para bancar o amigo do peito terrivelmente evangélico, que história é essa de defender a Polícia Federal e o Estado de Direito? Pedro Costa, arquiteto e escritor.