O que está acontecendo no mercado de venture capital globalmente?

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No final de semana passado, li um relatório do PitchBook com um título que ficou ecoando na minha cabeça: “A recuperação atual do venture capital é toda IRR, sem DPI”.Traduzindo para quem não vive o jargão do mercado: o venture capital parece ter se recuperado, mas boa parte dessa recuperação ainda existe mais no papel do que na conta bancária.Há muitos motivos para o otimismo. Rodadas de inteligência artificial continuam acontecendo em valuations impressionantes. A captação de recursos voltou a acelerar e os retornos reportados pelos fundos melhoraram significativamente nos últimos trimestres.Mas há um detalhe importante: Os fundos levantados em 2021 devolveram muito pouco dinheiro aos seus investidores até agora. Bem pouco mesmo. E isso nos leva a uma distinção importante.No mundo de venture capital, existe uma diferença entre aquilo que um investimento vale e aquilo que ele já devolveu. Uma startup pode valer bilhões de dólares em uma rodada recente. Um fundo pode mostrar retornos excelentes em seus relatórios. Mas, enquanto ninguém vender a empresa, fizer um IPO ou gerar liquidez de alguma forma, esse ganho continua sendo apenas uma marcação de valor. Por isso, o relatório traz uma provocação interessante: a recuperação atual do mercado parece ser mais uma recuperação de valuation no papel do que uma recuperação de liquidez.É verdade que essas duas coisas normalmente caminham juntas, mas não necessariamente no mesmo ritmo. O fenômeno fica ainda mais evidente quando olhamos para a inteligência artificial. Nunca vimos tantas empresas criando valor tão rapidamente. OpenAI, Anthropic, Cursor, Thinking Machines e tantas outras estão redefinindo indústrias. Mas uma pergunta permanece: quem está conseguindo transformar esse valor em caixa?O mercado de IPOs continua relativamente fechado. Empresas permanecem privadas por muito mais tempo do que há uma década. E investidores têm recorrido cada vez mais ao mercado secundário, comprando e vendendo participações em empresas privadas entre si, como forma de gerar liquidez sem precisar esperar uma abertura de capital.A grande pergunta da IA já não é se ela vai criar valor econômico. Quase ninguém duvida disso. A questão agora é outra: como esse valor será convertido em retornos efetivos para investidores? Porque criar valor e realizar valor são coisas diferentes. Uma empresa pode valer US$ 100 bilhões em uma apresentação para investidores,  outra coisa é existir um comprador disposto a pagar esse valor hoje.Talvez seja por isso que vemos tanta atenção voltada para mercados secundários, estruturas de liquidez e novas formas de monetização dos investimentos privados. À medida que as empresas permanecem fechadas por mais tempo, esses mecanismos deixam de ser exceções e passam a fazer parte da estrutura do mercado.No fundo, a discussão do relatório vai muito além do venture capital. Ela fala sobre algo bastante universal: a diferença entre expectativa e realização. Entre riqueza potencial e riqueza efetiva. Entre o valor que acreditamos ter criado e o valor que realmente conseguimos capturar.E essa talvez seja uma das perguntas mais importantes da era da inteligência artificial. Não se a tecnologia vai criar trilhões de dólares em valor, mas quem, quando e como conseguirá transformar esse valor em dinheiro de verdade.