Há uma nova pergunta que os recrutadores talvez tenham de acrescentar aos formulários de candidatura: «Pretende trazer alguém consigo para a entrevista?»Pode parecer uma piada. Não é. Um estudo recente da Zety, realizado junto de 1.001 trabalhadores da Gen Z nos Estados Unidos, descobriu que 20% já levaram um dos pais para uma entrevista de emprego. Em 15% dos casos, a presença foi física; nos restantes 5%, aconteceu virtualmente.Mas os pais não ficam necessariamente à porta. Segundo o mesmo estudo, 44% dos jovens dizem ter recebido ajuda dos pais para escrever ou editar o currículo, 21% afirmam que um progenitor já contactou diretamente um potencial empregador ou recrutador e 28% receberam ajuda nas negociações de salário ou benefícios. Em 10% dos casos, o pai ou a mãe negociou mesmo diretamente com o empregador.É o chamado ‘career co-piloting’. Uma espécie de copiloto profissional. Só falta perceber quem está, afinal, a conduzir.A mãe no Zoom, o pai no salárioO fenómeno já chegou ao radar dos profissionais de recursos humanos. O Wall Street Journal descreveu recentemente casos de pais que contactam empresas em nome dos filhos, perguntam pelo estado de candidaturas, aparecem em entrevistas ou tentam intervir quando alguma coisa corre mal no trabalho.Num dos casos relatados pelo jornal, um responsável de uma empresa de recrutamento teve de despedir um trabalhador de 24 anos duas vezes: primeiro ao próprio funcionário, depois à mãe, que telefonou para pedir uma segunda oportunidade.A situação já é suficientemente comum para ter chegado à agenda da conferência nacional da Society for Human Resource Management (SHRM), onde profissionais de recursos humanos discutiram precisamente o aumento da intervenção parental na vida profissional dos jovens. (TO problema é que aquilo que em casa pode ser visto como ajuda, numa entrevista pode ser interpretado de maneira bastante diferente. Afinal, se a mãe responde por nós à pergunta «onde se vê daqui a cinco anos?», talvez o recrutador fique com uma dúvida legítima: onde se vê o candidato e onde se vê a mãe?Mas talvez não seja apenas falta de autonomiaÉ aqui que a história fica mais interessante. A Gen Z não entrou no mercado de trabalho num período particularmente simpático. A Deloitte, no seu estudo global de 2025, ouviu 23.482 pessoas em 44 países e encontrou uma geração profundamente preocupada com dinheiro, estabilidade e bem-estar.48% da Gen Z diz não se sentir financeiramente segura, enquanto 40% afirma sentir-se stressada ou ansiosa sempre ou na maior parte do tempo. Mais de metade vive de salário em salário. Em Portugal, os números não são propriamente tranquilizadores.Segundo a Deloitte Portugal, 54% da Gen Z portuguesa receia não conseguir poupar o suficiente para ter uma reforma financeiramente confortável e 54% diz viver de salário em salário. Além disso, 38% afirma ter dificuldades em fazer face às despesas básicas mensais.Neste contexto, procurar apoio familiar não parece assim tão absurdo. Os pais têm experiência, contactos, conhecimento do mercado e, em muitos casos, mais estabilidade financeira. Podem ajudar a preparar uma entrevista, rever um currículo ou explicar uma proposta salarial. O problema começa quando passam de conselheiros a representantes legais.Entre ajudar e fazer pelos filhosO próprio estudo da Zety mostra que a Gen Z parece reconhecer essa fronteira. 55% dos inquiridos dizem que ficariam embaraçados ou incomodados se os pais contactassem o chefe sem o seu conhecimento.Ou seja, querem ajuda. Mas não necessariamente uma procuração.E talvez essa seja a verdadeira discussão. Não é preciso transformar a Gen Z numa caricatura de jovens incapazes de funcionar sem assistência parental. Até porque os mesmos estudos mostram uma geração preocupada com aprendizagem, desenvolvimento e autonomia.Talvez os pais estejam apenas a tentar garantir que os filhos não ficam para trás. Mas há uma altura em que o copiloto tem de largar o volante. Porque levar a mãe para a entrevista pode ser estranho, levá-la para o primeiro dia de trabalho seria, provavelmente, pior. O conteúdo «Mãe, podes vir comigo à entrevista?» A Gen Z está a levar os pais para o recrutamento aparece primeiro em Revista Líder.