Atenção: a matéria a seguir inclui uma discussão sobre suicídio. Se você ou alguém que você conhece precisar de ajuda, procure apoio especializado. O Centro de Valorização da Vida (CVV) funciona 24 horas por dia pelo telefone 188. Também é possível conversar por chat ou e-mail.A Advocacia-Geral da União (AGU) vai acionar a Justiça para pedir a suspensão do Discord no Brasil. O anúncio, feito pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, ocorreu após a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, defender, durante evento no Palácio do Planalto, a derrubada do aplicativo.No momento, a plataforma segue funcionando normalmente porque o bloqueio depende de uma futura decisão judicial. A reação do governo foi motivada por uma investigação policial sobre a morte de uma menina de 13 anos, induzida ao suicídio durante uma live no Discord. Segundo o governo federal, a empresa descumpre as leis brasileiras e não adota mecanismos eficazes para proteger crianças e adolescentes contra crimes digitais.O que é o Discord e como ele funcionaCriado em 2015, o Discord nasceu como um aplicativo voltado para gamers. A ideia inicial era permitir que os jogadores conversassem por voz e texto enquanto jogavam no computador ou no celular. Com o tempo, o serviço se popularizou e passou a abrigar comunidades dos mais diversos assuntos, como grupos de estudos, conversas entre amigos e equipes de trabalho.No começo, o Discord era voltado para gamers, mas conquistou outras áreas com o tempo – Imagem: Diego Thomazini/ShutterstockDiferente de redes sociais como o Instagram ou o X (antigo Twitter), o Discord não possui um feed de postagens. O aplicativo funciona por meio de comunidades chamadas de “servidores”. Cada servidor opera como um espaço virtual próprio, que pode ser público (aberto a qualquer usuário) ou privado, acessível apenas por meio de um convite específico.Dentro de cada servidor, a comunicação é organizada em canais temáticos. Existem salas dedicadas ao envio de mensagens de texto, fotos e arquivos. Existem canais de áudio e vídeo para conversas em tempo real. Os participantes do grupo podem entrar e sair dessas salas virtuais a qualquer momento.Um dos principais recursos do Discord é o Go Live. Essa ferramenta permite que um usuário compartilhe a tela do seu computador ou celular em tempo real para os outros membros do canal. Com isso, é possível transmitir partidas de jogos, vídeos ou qualquer atividade exibida no dispositivo para um grupo restrito de espectadores.Em suma, essa estrutura fechada é a principal diferença do Discord em relação a outras plataformas digitais. Enquanto em redes como o YouTube ou o TikTok as transmissões ao vivo costumam ser abertas ao público, no Discord o conteúdo fica restrito aos membros autorizados de cada sala. É essa dinâmica de navegação privada que torna o monitoramento de conteúdos um desafio na rede.Por que a plataforma é alvo de críticas no BrasilNos últimos anos, o Discord passou a figurar no centro de investigações policiais no país. Relatórios de inteligência e operações das forças de segurança apontam o uso de servidores do aplicativo para a prática de crimes graves, como coação de menores de idade, chantagem com fotos íntimas, incentivo à automutilação, apologia ao extremismo e maus-tratos a animais. Contudo, investigações da Polícia Civil mostram que a aproximação com as vítimas raramente começa na plataforma.“Na verdade o Discord, é o fim da linha no que tange à prática delitiva”, explica Lisandrea Salvariego Colabuono, chefe do Núcleo de Operações e Articulações Digitais (Noad) da Polícia Civil de São Paulo, em entrevista ao Olhar Digital. “A cooptação (aliciamento) das vítimas acontece muito antes, em outras plataformas.”Aproximação com as vítimas raramente começa no Discord, segundo a Polícia Civil – Imagem: DIA TV/ShutterstockNeste contexto, o Discord funciona como ambiente para a execução e a transmissão ao vivo dos abusos. Para as autoridades, embora a arquitetura de salas privadas dificulte a fiscalização, o obstáculo principal reside na ineficácia dos algoritmos de controle da própria empresa. “Isso [arquitetura fechada da plataforma] não seria um problema se o sistema de moderação funcionasse”, diz a chefe do Noad.Além da falha em barrar conteúdos ilícitos de forma preventiva, a polícia aponta entraves operacionais no cumprimento de ordens judiciais. A lentidão da empresa em responder a pedidos de quebra de sigilo e em remover salas com transmissões criminosas em andamento tem prejudicado o avanço dos inquéritos e o resgate de vítimas em diferentes estados.Essa falta de agilidade no envio de informações para investigações foi um dos pontos centrais do dossiê encaminhado pelo Noad ao Ministério Público. “As falhas se resumem, basicamente, na demora da exclusão do servidor utilizado na transmissão de crimes (solicitados em regime de urgência) e demora na devolutiva com os dados cadastrais dos usuários que praticaram os crimes”, explica Colabuono.Diante do histórico de descumprimentos e da ausência de mudanças preventivas por parte da empresa, o núcleo especializado da Polícia Civil paulista passou a defender o bloqueio da rede no Brasil. “Acredito que o bloqueio judicial seja necessário diante de tantos descumprimentos referentes a acionamentos de várias instituições policiais em todo o Brasil e, também, pelo fato de não terem feito absolutamente nada com relação à proteção do usuário, mesmo cientes que tudo isso está acontecendo há muito tempo”, conclui a chefe do Noad.O Olhar Digital pediu esclarecimentos e um posicionamento ao Discord. Mas não tinha obtido retorno até a publicação desta matéria.Reforçando: Se você ou alguém que você conhece precisar de ajuda, procure apoio especializado. O Centro de Valorização da Vida (CVV) funciona 24 horas por dia pelo telefone 188. Também é possível conversar por chat ou e-mail.O post Discord: entenda por que a plataforma está na mira do governo brasileiro apareceu primeiro em Olhar Digital.