Sem sucessores, empresas familiares entram no radar do mercado de M&A

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StartupiSem sucessores, empresas familiares entram no radar do mercado de M&ADurante décadas, a sucessão de uma empresa familiar no Brasil esteve associada à transferência do negócio para os filhos. Esse modelo, porém, enfrenta uma mudança: parte da nova geração não pretende assumir a operação construída pelos pais. Em vez disso, os herdeiros podem seguir carreiras próprias, empreender em outros setores ou atuar fora da empresa da família.O efeito dessa mudança pode aparecer no mercado de fusões e aquisições. Quando não existe um sucessor disposto a assumir o comando, a venda para um investidor, fundo ou grupo estratégico passa a ser uma alternativa à transferência do controle dentro da família.A tese é defendida pela Helping Hand, consultoria que atua em valuation, preparação para venda de empresas e M&A. Para Lucas Mendes, CEO da companhia, o movimento pode alterar a composição do mercado de compradores de empresas brasileiras nos próximos anos.“O maior risco para muitas empresas brasileiras não será uma crise econômica, mas a ausência de sucessores. Durante décadas, acreditou-se que os filhos naturalmente assumiriam os negócios da família. Hoje essa lógica mudou. Muitos herdeiros têm outros projetos de vida, seguem carreiras próprias ou simplesmente não desejam administrar uma empresa operacional. Quando isso acontece, vender o negócio deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade.”A questão, no entanto, não é apenas quantos herdeiros querem ou não assumir os negócios. O ponto central é o que acontece com empresas que foram construídas durante décadas em torno de uma família e precisam encontrar um novo controlador.O problema começa antes da vendaA sucessão é um dos pontos de maior risco para empresas familiares porque envolve, ao mesmo tempo, patrimônio, controle e gestão. A ausência de um sucessor não significa necessariamente que a companhia será vendida. Uma alternativa pode ser manter a família como proprietária e contratar executivos para administrar a operação. Outra é buscar um sócio ou investidor. A venda integral é apenas uma das possibilidades.A própria pesquisa da PwC mostra que a transição entre gerações já ocorre em um ambiente de mudanças nas expectativas dos herdeiros. A Pesquisa Global NextGen 2024 entrevistou 917 integrantes da próxima geração em 63 territórios e aponta que a nova geração busca participar das decisões das empresas familiares, mas também precisa encontrar espaço para construir sua própria trajetória profissional.No Brasil, 89% dos integrantes da NextGen ouvidos pela PwC consideram a inteligência artificial generativa uma força de transformação dos negócios. O dado é relevante porque evidencia uma diferença de perspectiva entre gerações: os herdeiros não estão necessariamente se afastando do negócio familiar, mas podem querer participar dele de maneiras diferentes das gerações anteriores.A mesma pesquisa mostra que 17% das empresas familiares brasileiras tinham uma pessoa ou equipe diretamente responsável por IA generativa. Outros 53% dos integrantes da próxima geração afirmaram que provavelmente participariam de discussões sobre a tecnologia no futuro.Isso sugere que a sucessão não precisa ser interpretada apenas como uma escolha entre “assumir” ou “não assumir”. O desafio para as famílias é construir estruturas de governança que permitam diferentes formas de participação da próxima geração.O tamanho do mercado em potencialA discussão ganha peso pelo tamanho das empresas familiares na economia. Segundo dados do IBGE citados pela PwC, empresas familiares respondem por aproximadamente 65% do PIB brasileiro e 75% da força de trabalho.Isso significa que uma eventual mudança no padrão de sucessão não seria restrita a um grupo de empresários. Ela poderia afetar uma parcela relevante das empresas que movimentam a economia brasileira.Há, porém, uma diferença entre o tamanho do universo de empresas familiares e o número de companhias que efetivamente chegarão ao mercado de M&A. Uma empresa pode não ter um sucessor interessado e, ainda assim, permanecer sob controle familiar, profissionalizar a gestão ou incorporar um novo sócio.Por isso, a ideia de que o país está necessariamente diante de uma “maior onda de venda de empresas da história recente” deve ser tratada como uma projeção, e não como um dado já comprovado.Os números disponíveis sobre M&A tampouco apontam, até agora, para uma explosão provocada especificamente por sucessão familiar. A KPMG registrou 1.581 transações de M&A no Brasil em 2025, praticamente estáveis em relação às 1.582 de 2024. Ao mesmo tempo, a participação de operações envolvendo private equity e venture capital passou de 43% para 50% do total.O dado mostra que existe capital interessado em comprar empresas, mas não permite atribuir esse movimento à sucessão de negócios familiares.O comprador pode estar olhando para empresas fora do radarSe a hipótese da Helping Hand se confirmar, uma parte do efeito poderá aparecer principalmente entre pequenas e médias empresas. São negócios que muitas vezes não possuem acesso ao mercado de capitais e podem ter sido construídos em torno do conhecimento, dos relacionamentos e das decisões de seus fundadores.Para um potencial comprador, isso cria uma questão adicional: quanto do valor da empresa está no negócio e quanto está concentrado no próprio fundador?Uma companhia com processos documentados, gestão profissional, informações financeiras organizadas, governança e baixa dependência do proprietário tende a apresentar menos riscos em uma transação. Já uma empresa em que o fundador concentra clientes, decisões, fornecedores e conhecimento operacional pode enfrentar dificuldades para ser transferida.É nesse ponto que a preparação para uma eventual venda deixa de ser uma atividade realizada apenas quando o empresário decide sair.“Estamos diante de uma das maiores transferências de patrimônio empresarial da história do Brasil. Empresas saudáveis, lucrativas e líderes em seus segmentos precisarão encontrar novos controladores. Quem estiver preparado terá acesso a excelentes oportunidades de investimento. Quem não estiver preparado poderá perder valor justamente no momento da venda. A sucessão do futuro não será necessariamente familiar. Em muitos casos, ela acontecerá através de investidores, fundos de private equity, grupos estratégicos ou novos sócios. O empresário que entender isso com antecedência conseguirá preparar sua empresa, aumentar seu valuation e negociar em melhores condições”, afirma Mendes.A lógica é semelhante à de outros processos de M&A: o interesse do comprador não depende apenas de a família querer vender. A empresa precisa apresentar características que justifiquem a aquisição e permitam ao novo controlador continuar gerando resultado depois da saída do fundador.Private equity entra no debateO crescimento da participação de fundos de private equity e venture capital nas operações brasileiras também cria um canal potencial para esse tipo de sucessão.No acumulado de janeiro a setembro de 2025, a KPMG registrou 566 operações envolvendo PE/VC, 48,6% do total no período. Em 2024, eram 497 operações, equivalentes a 41,6%.A PwC também identificou maior abertura de empresas familiares ao private equity. Em seu estudo sobre a próxima geração, a consultoria cita pesquisas da PwC Alemanha segundo as quais 90% das empresas familiares consultadas veriam com bons olhos um investimento de private equity, ante 18% em 2011.A entrada de um fundo, entretanto, não significa necessariamente a saída imediata da família. O investimento pode ser estruturado como uma venda parcial, aporte de capital para expansão ou preparação para uma saída futura.Esse modelo pode ser particularmente relevante para empresários que não encontram um sucessor operacional, mas também não querem deixar imediatamente de ser acionistas.Sucessão pode virar uma questão de governançaA discussão, portanto, desloca a sucessão de uma questão exclusivamente familiar para uma questão empresarial.A PwC aponta que 35% dos CEOs de empresas familiares brasileiras, em sua pesquisa de 2024, tinham preocupação sobre a viabilidade da organização nos dez anos seguintes caso ela permanecesse no caminho atual. O percentual havia sido de 32% no ano anterior.Isso coloca a sucessão dentro de um problema maior: empresas familiares precisam garantir que o negócio seja transferível, independentemente de quem será o próximo controlador.Para os fundadores, isso significa que esperar a aposentadoria para decidir o futuro da empresa pode reduzir as alternativas disponíveis. Uma preparação antecipada permite avaliar diferentes caminhos: sucessão familiar, contratação de executivos, entrada de sócios, venda parcial ou venda integral.Para compradores, por outro lado, uma possível geração de empresas colocadas à venda por motivos sucessórios amplia o universo de ativos disponíveis. O desafio será identificar quais dessas companhias têm capacidade de continuar operando depois da mudança de controle.A Helping Hand afirma ter realizado mais de 10 mil diagnósticos empresariais e participado de operações que somam mais de R$ 5 bilhões em transações. A empresa vê nesse cenário uma oportunidade de aumento da demanda por valuation e preparação para processos de venda.O ponto central, porém, não é quantas empresas familiares serão colocadas à venda. É quantas estarão preparadas para serem compradas.Se a nova geração realmente se afastar da sucessão operacional, o mercado poderá assistir a uma mudança no destino do patrimônio construído por empresários ao longo de décadas. Mas, antes de produzir uma onda de M&A, essa mudança terá de produzir empresas capazes de sobreviver à saída de seus fundadores.O post Sem sucessores, empresas familiares entram no radar do mercado de M&A aparece primeiro em Startupi e foi escrito por Marystela Barbosa