O mercado brasileiro chega à reta final da corrida presidencial com uma leitura razoavelmente estabelecida sobre o favoritismo do atual presidente e nenhuma disposição de agir sobre ela. Entre as principais gestoras locais, prevalece a avaliação de que outubro caminha para a recondução do presidente Lula para um quarto mandato, e prevalece também a decisão de atravessar o período com risco mínimo em ativos brasileiros.A postura defensiva se soma ao movimento recente dos estrangeiros, que começaram nos últimos dias a desmontar posições em real e renda fixa local. Mas a postura dos agentes locais antecede esse movimento em meses: o rali que levou o Ibovespa às máximas do primeiro semestre foi principalmente comprado de fora, e o investidor doméstico assistiu de longe.Julho deixou o descolamento explícito. O índice subiu 3,47%, carregado pelo setor financeiro e pelas produtoras de commodities na esteira da alta do petróleo, enquanto o índice de small caps, mais colado à atividade interna, recuou. Para a Tenax Capital, o mês foi marcado pela divergência entre fluxo e preço, com um investidor doméstico que “segue bastante cético e avesso a risco”. Os resgates em outras classes confirmam. Os fundos de infraestrutura devolveram R$ 5 bilhões líquidos no mês, ante R$ 8,9 bilhões em junho, e os de crédito privado corporativo, R$ 3,1 bilhões, enquanto os veículos bancários captaram R$ 18,8 bilhões.Leia tambémGestores globais reduzem exposição ao real com medo da eleição no BrasilGestores internacionais começam a reduzir exposição a ativos brasileiros à medida que crescem as apostas em torno da reeleição do presidente LulaLula favoritoA convergência sobre o favoritismo do presidente é ampla. A Legacy Capital registra em carta mensal que, após mês ruidoso para a oposição, com o desempenho fraco nas pesquisas e a reorganização em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro, mantém-se “o favoritismo do presidente incumbente para uma recondução no pleito de outubro”. A Occam Brasil, que aponta ambiente consolidado após as convenções, vê “uma eleição competitiva, mas alguma vantagem do atual presidente sobre os candidatos de oposição no segundo turno”. A Tenax fala em relevância crescente da disputa nas semanas seguintes, “ainda com favoritismo para o incumbente”.A Ibiuna Investimentos chega ao mesmo ponto pelo comportamento dos preços, ao observar que “a corrida presidencial se aproxima e os ativos passaram a precificar maior probabilidade de reeleição do atual presidente para um quarto mandato”.A Mar Asset é uma das poucas divergentes: “seguimos acreditando que Lula não é favorito para vencer”, disse a casa em carta a investidores. Em disputa com presidente candidato à reeleição, diz a gestora de Bruno Coutinho, a variável determinante seria a avaliação de governo, respondida por 98% dos entrevistados, e não a intenção de voto no segundo turno, que captura cerca de 85% e ainda carrega 18% de brancos, nulos e indecisos.Esse estoque de indecisos, defende, avalia o governo de forma consistentemente pior que a média e, redistribuído conforme a avaliação, produziria empate técnico. Aplicando sobre a avaliação atual a conversão de votos observada em 2022, a Mar chega a uma derrota do incumbente por cerca de 10 pontos no segundo turno. A casa também fixa o gatilho que a faria mudar de ideia, uma avaliação líquida em torno de 10 pontos positivos combinada a conversão acima de 50.Já a Verde Asset não projeta vencedor e trata a disputa como o evento que passa a organizar os preços daqui para frente. “A temporada eleitoral se anuncia como fator dominante para os mercados nos próximos meses, e devemos ver uma maior volatilidade ao sabor do boato ou da pesquisa do dia”, escreveu a casa em relatório publicado nesta semana.Leia tambémFlávio aparece filiado ao Missão e não consegue registrar candidatura no TSEEquipe fala em possível ataque e tenta corrigir cadastro antes do prazo de sábadoCarteiras convergem ainda maisO consenso das principais gestoras é de pouca ou nenhuma alocação em risco no País. A Legacy afirma seguir “com baixo nível de risco” no Brasil, privilegiando posições táticas em vez de exposição estrutural. A Ibiuna declara manter “postura cautelosa em ativos brasileiros neste momento”, aplicada em juros nominais curtos e tomada nos vértices longos, com redução parcial da bolsa brasileira e aumento na americana. A ARX Investimentos anuncia “uma postura mais tática na estratégia de renda fixa, buscando aproveitar oportunidades geradas pelo aumento da volatilidade esperado nas próximas semanas”.A Mar recuou pelo mesmo caminho, ainda que sua leitura aponte para o cenário que a própria casa associa a um ciclo potencial de cortes de 700 pontos-base. “Nossa abordagem agora é voltar ao CDI na maior parte do portfólio”, escreveu a gestora, condicionando a retomada de posições ao momento em que o mercado começar a caminhar na direção da tese.A Verde separou os mercados. Em renda fixa local, informou que não mantém posições direcionais, enquanto preservou a exposição em renda variável no Brasil e no exterior. Em entrevista ao InfoMoney durante a Expert XP, o gestor Luiz Parreiras explicou o recorte pela busca de assimetrias diante de um resultado binário. “Se o Lula ganhar, a gente perde pouco. Se a direita ganhar, a gente tem um upside relevante”, disse, sobre a posição em bolsa, montada com opções. No câmbio, a casa saiu da posição há cerca de dois meses, avaliando que o carrego elevado torna cara a proteção antecipada e que a hora de montá-la viria após o segundo turno.Na Tenax, a visão é de NTN-B “bastante pressionado (juros reais acima de 8% até 2037)”, pela questão fiscal e pelo volume de emissões de incentivados. Para a ARX, “as incertezas fiscais domésticas continuam gerando apreensão e impactando de forma mais direta os preços dos ativos locais”.Apesar disso, a Verde ainda vê pouco prêmio embutido no IPCA+ acima de 8%, resumindo a equação como muito risco para pouco retorno.No posicionamento, a Occam é quem mais diverge, “passando a buscar posições aplicadas na curva doméstica”. Já a Itaú Asset, elevou “em pequena dose, a posição comprada na bolsa brasileira”. O Opportunity manteve “posição comprada em NTN-Bs, bem como uma exposição seletiva em ações domésticas”.The post Mercado vê Lula favorito e reduz ainda mais alocações em Brasil antes das eleições appeared first on InfoMoney.