Crédito em risco? Banco do Brasil (BBAS3) revela o que precisa acontecer para entregar o lucro prometido

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À primeira vista, o resultado do Banco do Brasil (BBAS3) parecia bom. O lucro superou as expectativas, a R$ 3,9 bilhões, alta de 3,3%, enquanto o ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) também ficou acima do esperado, a 8,8%. Tudo divino, tudo maravilhoso, só que não.A piora da inadimplência continua forte na carteira do agro e, agora, também na pessoa física, enquanto os investidores já questionam a capacidade do banco de cumprir o guidance (projeções) para 2026, algo que nunca cai bem no mercado. Se prometeu, é bom cumprir.O BTG, por exemplo, vê riscos para novas revisões do guidance, que teve as projeções reduzidas no primeiro trimestre.Em março, as expectativas de lucro líquido ajustado foram reduzidas de R$ 22 a 26 bilhões para R$18 a 22 bilhões, um corte de 17% no ponto médio da faixa.“Nova revisão para baixo das expectativas é apenas uma questão de tempo“, afirmou.Na administração do BB, porém, a expectativa é de que o banco consiga entregar o que prometeu. De acordo com o CFO do banco, Giovanni Tobias, o mercado está preocupado com o custo de crédito, tendo em vista a manutenção do agravamento de risco na carteira rural. Ao todo, o BB provisionou R$ 37 bilhões no primeiro semestre.Segundo o executivo, para entregar um guidance entre R$ 65 bilhões e R$ 70 bilhões, será necessário reduzir o risco da carteira.“É uma carteira que hoje tem um risco médio de 5,8%, mais ou menos. E, se não entregarmos, aí, sim, não conseguiríamos eventualmente entregar o lucro”, diz.A gestão acredita, no entanto, que a medida provisória lançada para aliviar as dívidas dos produtores rurais será importantíssima para reestruturar os agricultores que estão com seus fluxos de caixa apertados, permitindo que retomem a pontualidade dos seus créditos.“Com isso, temos a expectativa de liberar mais provisão e voltar a apropriar juros.”Guidance já previa pioraTobias lembra ainda que o guidance do BB já estimava uma atividade mais fraca no crescimento do crédito.Atualmente, o Banco do Brasil estima, para a carteira de empresas, desde uma redução de 3% até um crescimento de 1%; no agronegócio, a projeção vai de uma redução de 2% a um crescimento de 2%.“Claro que as medidas provisórias de reestruturação não estavam no nosso radar. Então, isso pode eventualmente trazer algum desvio para um crescimento um pouco além daquilo que tínhamos previsto”, diz.A CEO do BB, Tarciana Medeiros, recorda que o guidance já previa esse agravamento.“Então, o que estava previsto não contava com a MP. Por isso que, quando falamos da importância da MP para que consigamos atingir esse guidance, é porque, quando fizemos as previsões lá no primeiro trimestre, já não contávamos com essa solução.”Foco na pessoa física para mudar o jogoPara diminuir o peso do agronegócio no lucro, o BB tem apostado na carteira de pessoa física, que espera crescer entre 6% e 10%. Para Tobias, a queda da Selic, a taxa básica de juros, pode trazer um benefício marginal para a redução do risco como um todo na pessoa física.A ideia, no entanto, não é oferecer crédito no “mar aberto”, ou seja, sem garantias. O BB tem como alvo o crédito consignado privado, considerado mais seguro, e o público de alta renda, mais rentável e menos arriscado.Felipe Prince, vice-presidente de Controles Internos e Gestão de Riscos, lembra ainda dos programas do Governo Federal, como o novo Desenrola. A participação do BB está em R$ 12 bilhões, além da recuperação de crédito.“A habilidade é elevar o retorno e manter o risco sob controle, que é o que temos feito, exatamente explorando essas linhas de maior segurança e impulsionando nossos esforços com esses clientes mais resilientes”, afirma.Atrasou a fatura? Calotes do cartão explodemA inadimplência de cartão foi outro destaque negativo, com aumento de 750 pontos-base em relação ao trimestre anterior, de 7,1% para 14,6%.Apesar do sinal de alerta dos analistas, o BB assegurou que se trata de um efeito não recorrente e que não deve se repetir nos próximos trimestres.Segundo a CEO, Tarciana Medeiros, o problema foi no PPF, o Pagamento Parcelado de Fatura (ou Parcelamento de Fatura). Trata-se de uma opção oferecida pelo banco para parcelar o saldo devedor quando a fatura não é paga integralmente.“A gente antecipou, no primeiro trimestre, o que faríamos para o segundo. A gente começou a rodar essa nova modalidade de parcelamento automático, sem o pagamento de uma entrada, só que percebeu que isso virou quase como se fosse se retroalimentando”, disse.Ainda segundo ela, o banco conseguiu antecipar essa provisão.“Fomos então verificar exatamente quantos parcelamentos o crédito tinha feito e, na realidade, considerar que aquele parcelamento, como não tinha sido pago, deveria estar em atraso.”Melhora do agroO Banco do Brasil também trabalha com um cenário de melhora nas provisões da carteira de crédito do agronegócio nos próximos meses, apoiada principalmente pelo programa de reestruturação de dívidas do setor rural lançado pelo governo federal no mês passado.“Nós esperamos uma melhora relevante na PDD do agro em virtude da MP 1.376”, afirmou Prince, em teleconferência com analistas para comentar o resultado do banco no segundo trimestre.“Temos à disposição dos nossos clientes um instrumento para promover essa renegociação. Nós trabalharemos muito fortemente na melhoria das condições do cliente como um todo e isso traz impacto também no relacionamento pessoa física com os produtores rurais”, afirmou.Medeiros afirmou na teleconferência que o portfólio de crédito potencial do banco para enquadramento na MP 1.376 é de até R$ 100 bilhões. De acordo com o vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do BB, Gilson Bittencourt, o foco inicial será principalmente o produtor inadimplente. Dados do BB divulgados na apresentação mostravam R$ 36,7 bilhões em operações inadimplentes.