O mercado de stablecoins no Brasil está em uma fase de consolidação, à medida que o país avança na regulação de ativos virtuais. É essa a principal conclusão de um levantamento feito pela KPMG em parceria com a Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABcripto), que ouviu bancos e empresas do setor cripto sobre modelos de emissão, governança e riscos ligados às moedas estáveis. Entre os achados, chama atenção o consenso unânime dos entrevistados: todas as instituições consultadas defendem que os ativos usados como lastro passem por auditorias independentes e periódicas.A pesquisa foi conduzida entre janeiro e junho de 2026, período em que entrou em vigor o novo arcabouço do Banco Central para ativos virtuais — as Resoluções BCB nºs 519, 520 e 521, além da Instrução Normativa nº 701. As novas regras passaram a exigir autorização prévia de funcionamento, capital mínimo e segregação patrimonial para as administradoras, e também formalizaram o tratamento de stablecoins referenciadas em moedas estrangeiras dentro da Lei de Câmbio.Lastro de qualidade é prioridade para o setorEntre os pontos mais relevantes do estudo, 67% dos executivos defendem que o lastro das stablecoins deve ser composto exclusivamente por reservas em dinheiro e títulos públicos, priorizando ativos de alta liquidez que reduzam o risco de a moeda perder a paridade em momentos de estresse no mercado. Já no que diz respeito à governança, 89% dos participantes preferem um modelo centralizado, no qual a instituição emissora concentra as decisões sob supervisão direta do regulador — visto pelo setor como o caminho mais previsível para facilitar a fiscalização do Banco Central.Para Julia Rosin, diretora-presidente da ABcripto, o resultado reforça uma pauta que a entidade já vinha defendendo junto ao poder público. Segundo ela, rigor de auditoria e lastro de qualidade não são entraves à inovação, mas sim a base de confiança que sustenta esse mercado, e as stablecoins precisam de um regime regulatório próprio, pensado para ativos virtuais.A transparência também apareceu como critério central: para 70% dos entrevistados, o principal indicador de confiança em uma stablecoin é a divulgação periódica da composição, liquidez e localização dos ativos que dão sustentação à moeda.Onde ficam guardados os ativos de garantiaO levantamento também mapeou a visão do setor sobre a custódia do lastro. A maioria (38%) entende que os ativos de garantia devem permanecer em instituições financeiras reguladas, enquanto 26% defendem que o depósito direto no Banco Central seria a alternativa mais segura, por manter a garantia fora do balanço de instituições privadas. Os 36% restantes se dividem entre contas segregadas em bancos comerciais, modelos híbridos e veículos de propósito específico, com 12% cada.A certificação também é vista como relevante: 80% dos entrevistados acreditam que emissores de stablecoins deveriam ter um selo oficial, funcionando como um sinal rápido ao mercado sobre quais projetos atendem aos requisitos mínimos de governança e transparência.Para Fábio Lacerda, sócio da KPMG no Brasil, os resultados mostram um setor que já não vê as stablecoins como concorrentes das moedas tradicionais, mas como infraestrutura capaz de viabilizar novos casos de uso no sistema financeiro, desde que acompanhada de governança robusta e gestão de riscos.Empresas devem liderar a adoção nos próximos anosSegundo o estudo, o público corporativo deve ser o principal motor de adoção das stablecoins no Brasil: 34% dos entrevistados apontam as empresas como o segmento com maior potencial de uso, na frente de instituições financeiras, consumidores finais e comerciantes.Quanto às aplicações mais promissoras, 50% dos executivos citam infraestrutura para pagamentos e câmbio internacional como o principal caso de uso das stablecoins. Outros 25% apostam na liquidação de ativos tokenizados — incluindo os chamados Real World Assets (RWA, ou Ativos do Mundo Real, tokens que representam bens físicos ou financeiros do mundo real) —, enquanto 15% acreditam que a adoção deve se concentrar em ambientes institucionais, como tesouraria, liquidez e operações de câmaras de compensação.Stablecoins privadas x moeda digital do Banco CentralUm dos pontos que gerou consenso quase total foi a relação entre as stablecoins privadas e uma eventual moeda digital emitida pelo Banco Central, cujo cronograma ainda está em avaliação pelo regulador. Para 89% dos entrevistados, a coexistência entre os dois modelos tende a estimular — e não a competir com — a emissão de stablecoins privadas, já que a moeda soberana estabeleceria padrões técnicos comuns de liquidação e compliance, deixando ao setor privado o desenvolvimento de produtos específicos para pagamentos e operações.Diego Perez, vice-presidente e diretor de Relações Institucionais da ABcripto, reforça essa leitura: para ele, a convivência entre a moeda digital do Banco Central e as stablecoins privadas mostra que o mercado não vê concorrência, mas complementaridade entre os dois instrumentos.O estudo ouviu executivos de bancos e Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (VASPs) entre 12 de janeiro e 8 de junho de 2026, com uma amostra formada por 70% de VASPs e 30% de instituições bancárias. 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