Bosque dos Salesianos é ameaçado pela especulação imobiliária

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Enquanto São Paulo recebe a Climate Week 2026 e se apresenta ao mundo como referência latino-americana em inovação urbana e justiça climática, a cidade enfrenta um teste que não ocorre nos palcos do evento, mas no território: o julgamento que decidirá o futuro do antigo Bosque dos Salesianos, no Alto da Lapa, onde 118 árvores adultas foram derrubadas para a construção de duas torres residenciais.O processo, que opõe o Ministério Público à Prefeitura e à incorporadora Tegra, não se limita à discussão jurídica. Ele expõe a contradição de uma metrópole que busca liderar a agenda ambiental no Brasil e na América Latina, mas que ainda permite que áreas protegidas sejam destruídas antes que a Justiça finalize sua análise. A decisão não é apenas sobre um terreno, mas sim sobre o tipo de cidade que São Paulo pretende ser.Marcha do clima, passeata na Avenida Paulista contra o PL da devastação. São Paulo, SP. 2 de agosto de 2025. Foto: Roberto Parizotti | Fotos Públicas Leia também: 1.Áreas verdes urbanas reduzem internações por doenças respiratórias 2.Áreas verdes melhoram a saúde em nível celular São Paulo depende de áreas verdes para sobreviverA City Lapa nasceu há mais de um século inspirada no conceito das Cidades-Jardim. Criado em 1898 pelo urbanista inglês Ebenezer Howard, o movimento tinha como premissa um planejamento urbano homogêneo e orgânico, com ruas arborizadas, baixa densidade e grandes áreas permeáveis. O conceito, com passagens ajardinadas e arborizadas, vegetação pública e residências baixas, foi trazido para o Brasil pelo arquiteto inglês Barry Parker. Hoje, City Lapa, Alto da Lapa, Bela Aliança e Pinheiros formam a maior manta verde contínua da região central da capital, essencial para infiltração de água, redução de enchentes, recarga de aquíferos e regulação térmica.Em uma metrópole que enfrenta ondas de calor recordes, enchentes recorrentes e impermeabilização acelerada, cada árvore adulta cumpre uma função ambiental que não pode ser substituída por compensações dispersas ou plantios simbólicos. O Bosque dos Salesianos, protegido pelo Decreto Estadual nº 30.443/1989 como “vegetação significativa” e, portanto, “imune de corte”, era parte desse sistema vital.Cerca de 120 árvores do Parque dos Salesianos já foram derrubadas. Foto: Instagram | @salveobosqueMesmo assim, o bosque foi derrubado, apesar de contar ainda com laudo técnico do CAEX, órgão especializado do Ministério Público, que atestava sua relevância ambiental. A decisão judicial que determinou a suspensão das intervenções chegou tarde demais. Leia também: 1.Morar perto de áreas verdes pode adicionar 2,5 anos à sua vida 2.Visitar áreas verdes pode reduzir uso de antidepressivos A cidade pede coerênciaA destruição do bosque mobilizou moradores de toda a cidade. Mais de 26 mil pessoas apoiam o projeto de lei que tramita na Câmara Municipal e propõe a criação do Parque Bosque dos Salesianos, com reposição da vegetação significativa e proteção permanente da área.A mobilização não é contra o desenvolvimento urbano. São Paulo precisa crescer, inovar e se modernizar. Mas esse crescimento precisa ser ordenado, legal e responsável, especialmente quando envolve áreas protegidas e quando a população expressa, de forma clara e pacífica, sua oposição.Árvores do Bosque dos Salesianos, na Zona Oeste de São Paulo. Foto: Instagram | @salveobosqueEm uma cidade que já sofre com enchentes, calor extremo e perda acelerada de áreas verdes, derrubar árvores adultas não é apenas uma questão ambiental: é uma decisão que afeta a saúde pública, a qualidade de vida e o legado que deixaremos às próximas gerações.Julgamento além do tribunalNa última semana, um julgamento poderia reconhecer a gravidade da devastação e reafirmar a importância estratégica do bosque para a cidade. Também é importante para que a sociedade acompanhe, cobre e participe, porque decisões sobre o território urbano dizem respeito a todos nós.A contradição é evidente: o Bosque dos Salesianos foi derrubado durante a COP30, enquanto o mundo discutia justiça climática. Agora São Paulo pode mostrar que é capaz de alinhar discurso e ação.Bosque dos Salesianos. Foto: Instagram | @salveobosqueSe a cidade mais importante da América Latina deseja liderar a agenda climática com políticas de proteção, preservação, resiliência e urbanismo inteligente, decisões como esta precisam refletir essa ambição. A proteção das áreas verdes não é obstáculo ao desenvolvimento: é condição para que ele seja sustentável, justo e duradouro.Que a Justiça seja sensível aos apelos da comunidade, do Ministério Público e das entidades que defendem a vida. E que São Paulo, ao olhar para o futuro, reconheça que proteger suas árvores é proteger seu papel de liderança e seu próprio destino.Quer apoiar a preservação e transformação do Bosques dos Salesianos em parque? Assine o abaixo assinado AQUI.Foto: Reprodução | change.orgEntenda o julgamento do caso Bosque dos SalesianosNa sessão do último dia 6 de agosto, o Tribunal de Justiça de São Paulo começou a analisar um recurso (segunda instância) no processo que trata do Bosque dos Salesianos.O que disse o Ministério PúblicoDurante sua fala, o Ministério Público de São Paulo defendeu que a decisão anterior (de primeira instância) foi limitada demais ao analisar a proteção do bosque. Para o Ministério Público, a área tem uma proteção ambiental especial e o corte da vegetação poderia causar danos graves e difíceis de reparar.O voto do RelatorDepois da fala da defesa da incorporadora, o Relator apresentou os principais pontos do seu voto. Ele lembrou que, ao receber o recurso, já havia visto sinais de que o direito de proteger o bosque poderia existir e de que havia risco de dano irreversível. Por isso, ele tinha determinado que nenhuma intervenção fosse feita no bosque até o julgamento do caso.No voto, o Relator também afirmou que, em uma primeira análise, a vegetação do bosque parece ser um patrimônio ambiental protegido contra corte por normas estaduais e municipais. Ele disse ainda que não encontrou uma razão excepcional que justificasse retirar essa vegetação.retirada de vegetação do Bosque dos Salesianos, área verde na Zona Oeste de São Paulo. Foto: Instagram | @salveobosque Leia também: 1.6 benefícios do contato com a natureza para saúde física e mental 2.Contato com a natureza traz ganhos para a saúde e para a economia Pedido de mais tempo e próximos passosO Desembargador que daria o segundo voto pediu mais tempo para estudar melhor o processo. Com isso, o julgamento foi interrompido e deverá continuar em outra data, que ainda não foi marcada.Na prática, isso significa que o processo continua em aberto. Também mostra que é importante manter a mobilização da sociedade pela proteção do Bosque dos Salesianos, porque a decisão final pode influenciar outros casos de proteção ambiental na cidade de São Paulo.Conteúdo enviado pelo Movimento Salve o BosqueThe post Bosque dos Salesianos é ameaçado pela especulação imobiliária appeared first on CicloVivo.