O tubarão kitefin, maior vertebrado bioluminescente conhecido, pode ter desenvolvido seu brilho não apenas para se camuflar nas profundezas do oceano, mas também para localizar alimento.A hipótese surgiu a partir de análises realizadas com oito exemplares capturados como fauna acompanhante durante uma pesquisa na região de Chatham Rise, a leste da Nova Zelândia, e examinados por pesquisadores liderados pelo biólogo marinho Julien Claes, da Université Catholique de Louvain, na Bélgica.Publicado na última sexta-feira (07) na revista iScience, o estudo indica que a luz emitida pelo animal apresenta características compatíveis com a camuflagem, mas também se espalha lateralmente de maneira que pode favorecer a procura por presas em um ambiente quase sem iluminação.Luz que pode esconder e caçarTubarão kitefin visto de lado, brilhando no escuro – (Crédito: Claes et al., iScience, 2026)O fenômeno conhecido como contra-iluminação é utilizado por diversos animais marinhos para reduzir a própria silhueta diante da luminosidade que chega da superfície. Em vez de aparecer como uma forma escura para animais que observam de baixo, o corpo recebe uma iluminação capaz de se confundir com o ambiente.No caso do tubarão kitefin, essa explicação ganhou força porque o tubarão não possui predadores naturais conhecidos. A descoberta da bioluminescência da espécie é relativamente recente, e a ausência de ameaças conhecidas levantou a possibilidade de que sua emissão luminosa cumpra funções além da defesa.Os pesquisadores mediram a intensidade, a coloração e a direção da luz produzida pelos oito tubarões. Na região inferior do corpo, o brilho apresentou tonalidade azul esverdeada, com pico de emissão em 491 nanômetros.A intensidade observada também coincidiu com as condições de luminosidade esperadas em profundidades entre aproximadamente 480 e 540 metros, faixa compatível com o ambiente em que a espécie vive. Esses resultados reforçam a interpretação de que a parte inferior do animal utiliza a luz como recurso de camuflagem.A distribuição do brilho, porém, revelou uma característica que não se encaixa tão bem nessa explicação. Em vez de acompanhar principalmente o padrão da luz que desce da superfície, a emissão do kitefin se espalha para os lados em uma área mais ampla do que a observada em outros animais que utilizam contra-iluminação.O efeito aparece com maior intensidade na região dianteira do corpo, incluindo o focinho, a mandíbula e as nadadeiras peitorais. Para os pesquisadores, uma possível explicação é que essa iluminação lateral funcione como uma espécie de farol biológico, permitindo ao tubarão enxergar melhor o fundo e detectar organismos próximos.A ideia encontra paralelo em outros animais marinhos que recorrem à bioluminescência para localizar alimento, como o peixe-lanterna Anomalops katoptron e os peixes do gênero Malacosteus. No kitefin, contudo, a luz poderia desempenhar simultaneamente papéis diferentes.A iluminação voltada para baixo ajudaria a reduzir a visibilidade do tubarão para organismos situados abaixo dele, enquanto a emissão lateral poderia ampliar sua capacidade de procurar presas ao redor. Essa combinação seria particularmente relevante para uma espécie conhecida por sua baixa velocidade de deslocamento.O kitefin é descrito no estudo como o tubarão de natação mais lenta já registrado, com velocidade de apenas 13 centímetros por segundo. Ainda assim, sua alimentação inclui animais visualmente capazes e de deslocamento rápido, como lanternsharks e cefalópodes, o que torna uma estratégia baseada em aproximação discreta potencialmente vantajosa.O mistério da nadadeira dorsal(Imagem: Johan Holmdahl/iStock)Outra característica dificulta uma explicação baseada exclusivamente em camuflagem. A nadadeira dorsal também emite luz, embora com intensidade aproximadamente dez vezes menor que a região ventral.Mesmo assim, esse brilho supera em cerca de cem vezes a luminosidade ambiente que sobe das profundezas. Para um animal observado lateralmente no ambiente bentônico, a nadadeira poderia se destacar como um ponto luminoso, o que não combina com a função de esconder o corpo.Por isso, os pesquisadores consideram outras possibilidades para essa emissão, entre elas a comunicação entre indivíduos da mesma espécie ou a atração de possíveis presas. Essas interpretações, entretanto, ainda não foram demonstradas diretamente.O estudo foi baseado em exames físicos de tubarões retirados do ambiente profundo e analisados a bordo de uma embarcação de pesquisa. Para confirmar como a luz é utilizada durante a vida natural do animal, seriam necessárias observações do comportamento da espécie em seu próprio habitat.Os resultados, portanto, não encerram a questão sobre a função da bioluminescência do kitefin. Eles indicam, porém, que a contra-iluminação pode ter uma finalidade mais complexa do que simplesmente esconder um animal de seus predadores.O post Tubarão que brilha no escuro pode ter descoberto um jeito curioso de caçar apareceu primeiro em Olhar Digital.