O crescimento acelerado dos veículos elétricos e híbridos no Brasil traz um novo desafio para a mobilidade sustentável: garantir que as baterias, componente de maior valor e impacto ambiental desses automóveis, tenham sua vida útil aproveitada ao máximo antes do descarte. Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) mostram que as vendas de modelos eletrificados chegaram a 215.023 unidades entre janeiro e junho deste ano, alta de 125% em relação ao mesmo período de 2025. Apesar do avanço, o mercado brasileiro ainda não conta com um padrão técnico independente para avaliar a condição das baterias, o que gera insegurança na compra e venda de veículos usados.Na avaliação de Gerson Barbosa, fundador e CEO da AE Volt Brasil, a falta de informações confiáveis afeta diretamente a confiança dos consumidores e o desenvolvimento do mercado de seminovos, considerado estratégico para ampliar a adoção da mobilidade elétrica. “O diagnóstico padronizado muda essa lógica. Em nossa rede já vimos dois veículos aparentemente iguais apresentarem 98% e 63% de saúde de bateria. Sem o laudo, os dois seriam vendidos pelo mesmo preço, e um dos compradores sairia lesado. Com o laudo, o mercado ganha transparência: o vendedor precifica com justiça, o comprador decide com segurança e o seminovo elétrico deixa de sofrer o desconto da desconfiança”, afirma.Foto: Divulgação | AE Volt BrasilO diagnóstico feito pela empresa é realizado por meio de um dispositivo conectado à porta OBD (On-Board Diagnostics) do veículo, interface eletrônica utilizada para acessar informações do sistema do automóvel. Após conectar o equipamento e pareá-lo via Bluetooth com um aplicativo no celular, o sistema analisa os dados da bateria e emite um laudo em cerca de 60 segundos, indicando o estado de saúde (State of Health – SoH) e outros parâmetros que permitem estimar sua capacidade e desempenho. O serviço já é oferecido por uma rede de concessionárias, lojas de seminovos e parceiros credenciados, mas também pode ser contratado por proprietários que desejam avaliar a condição da bateria de seus veículos. Além de aumentar a segurança nas negociações, o monitoramento da saúde das baterias pode contribuir para reduzir impactos ambientais. Segundo Victoria Luz, responsável por tecnologia e dados da AE Volt Brasil, decisões baseadas em informações técnicas ajudam a evitar substituições antecipadas de um componente cuja fabricação demanda grandes quantidades de lítio, cobalto, níquel e energia. “A certificação substitui o medo pelo dado. Quando o laudo mostra que uma bateria mantém, por exemplo, 85% da capacidade original, não há razão técnica para substituí-la. Nossa expectativa é que a medição periódica se torne rotina, como um check-up: ela evita substituições prematuras, mantém baterias saudáveis rodando por mais tempo e reduz a geração de resíduos de alto impacto. Sustentabilidade, nesse caso, começa com informação”, afirma. Leia também: 1.Ouro microscópico pode transformar o futuro das baterias 2.Nova geração de baterias carrega carros elétricos em 5 minutos O diagnóstico também pode favorecer a economia circular ao indicar quando uma bateria deixa de ser adequada para impulsionar um veículo, mas ainda possui capacidade para aplicações como sistemas estacionários de armazenamento de energia. “Sem essa triagem baseada em dados, a economia circular fica no discurso. Com ela, cada bateria vai para o destino certo, no momento certo”, diz Victoria. A plataforma ainda utiliza inteligência artificial para reunir informações sobre durabilidade, desempenho e falhas dos componentes, formando uma base de dados que poderá apoiar decisões sobre manutenção, segunda vida das baterias, reciclagem e até seguros e financiamentos para veículos eletrificados.Nesse cenário, a AE Volt Brasil iniciou suas atividades no país como representante exclusiva da francesa MOBA, desenvolvedora de uma tecnologia certificada pelo padrão europeu CARA Approved Battery Health Check. A empresa investiu R$ 5 milhões na operação brasileira e prevê distribuir inicialmente cerca de 130 equipamentos em concessionárias, lojas de seminovos e shoppings centers de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia, Salvador, Vitória, Blumenau e Juiz de Fora. Até o fim deste ano, a expectativa é chegar a mil equipamentos em 15 estados brasileiros, além de estruturar uma rede técnica especializada nas principais capitais em dois anos. Especialistas avaliam que a expansão da mobilidade elétrica dependerá não apenas da ampliação da infraestrutura de recarga, mas também de mecanismos que permitam acompanhar a condição das baterias durante todo o seu ciclo de vida, da fabricação ao reaproveitamento ou à reciclagem. Para Victoria, a rastreabilidade deve se tornar um requisito do setor nos próximos anos, acompanhando tendências internacionais como o passaporte digital de baterias adotado pela Europa. Já Barbosa acredita que a transparência será decisiva para consolidar o mercado. “O consumidor brasileiro ainda tem medo do elétrico, principalmente da bateria, e medo não se combate com propaganda, se combate com dado. Nossa contribuição é essa: colocar transparência onde hoje existe insegurança“, conclui.The post Saúde das baterias impulsiona economia circular dos carros elétricos appeared first on CicloVivo.