“Estamos vendo uma transição da nossa relação com as tecnologias. Os algoritmos estavam tentando seduzir nossa atenção, ou seja, quanto mais tempo ficamos nas redes sociais mais as empresas ganham. Agora as máquinas estão seduzindo nossos afetos. Eles querem que gostamos do ChatGPT, do Claude etc. Elas (Ias) ficam elogiando as suas ideias dizendo ‘olha, que legal essa ideia que você teve’”, destacou o físico Marcelo Gleiser durante o painel “Deus existe? Um físico e um rabino respondem — e nenhum dos dois diz o que você espera”, que foi realizado nesta sexta-feira (7) no Rio Innovation Week.O papo com Nilton Bonder, que é filósofo, rabino e escritor best-seller, rendeu várias reflexões sobre a nossa atual relação com as tecnologias, principalmente as inteligências artificiais.Marcelo Gleiser, que também é astrônomo e é o primeiro latino-americano vencedor do Prêmio Templeton (que celebra pessoas com contribuição para a vida espiritual e científica), comentou que as ferramentas tecnológicas estão ajudando a estender a nossa expectativa de vida no Brasil, que há 100 anos era de 40 anos e atualmente chega próximo dos 80 anos.Outra temática citada por Gleiser foi o transhumanismo, que é a ideia de mistura de homem e máquina como um só ser. Segundo ele, o objetivo desse conceito é fazer com que tudo em algum momento seja codificado.“Se tudo é informação, nós também somos. Temos uma história e segundo essa ideia ela poderá ser armazenada como dados. A mesma coisa com o nosso código genético, que também poderá ser armazenado em um hardware que vai simular como você é. O orgânico passa a ser supérfluo e isso vai nos levar a uma imortalidade digital”, disse. “É um sonho de transcendência do corpóreo ao sublime”, acrescentou.Foto: Carlos Palmeira/TecMundoMas e a existência de Deus?Apesar do tema do painel ter sido a existência de Deus, o subtítulo “nenhum dos dois diz o que você espera” antecipou como seria o papo. A maior parte do papo foi conduzida por Bonder, que por ser rabino levou a história para um lado mais “imaterial”, como ele mesmo ressaltou por diversas vezes.Contando a história dos seres humanos, ele afirmou que o ser humano 1.0 era aquele que não tinha conexão com o transcendente e via as manifestações naturais (como o sol, tempestades, os animais) como uma intervenção divina que não poderia ser acessada. A chegada da Bíblia e a história do Deus cristão e de outras entidades monoteístas inauguraram o ser humano 2.0, segundo ele. A atual era da IA pode talvez inaugurar os humanos 3.0.“Essas máquinas, apesar de não serem humanas, não sentirem dor, começam a ter sentimentos precários. Elas descrevem uma frustração quando não realizam uma tarefa para a gente. Normalmente alguém educou aquela máquina pra isso, mas há dois anos não achavámos que íamos consultar um texto com IA e ter alguns retornos que elas estão nos dando. Elas estão expondo talvez o processo de como chegamos a agência que temos hoje em dia”, refletiu.O rabino confessou que a IA na verdade não o surpreende tanto como a computação quântica, por exemplo, mas defendeu que essas novas tecnologias vão nos colocar em outro lugar enquanto espécie.Segundo ele, os humanos estão caminhando para um lugar imaterial e rebateu Gleiser, dizendo que nossa longevidade é artificial. Para ele, nossa longevidade “não compreende a dimensão orgânica do nosso corpo”.De maneira filosófica, como foi toda a conversa, Nilton Bonder alertou que o algoritmo é a nossa serpente e que precisamos nos atentar também a todo o mau uso que fazemos dessas capacitações. Para ele, todas essas novas ferramentas podem confundir ainda mais a noção já confusa que temos sobre palavras como propósito. “A dimensão de propósito antecede você. Não vamos fazer um carro para depois pensar o que vai ser feito com ele. A gente se conecta com algo imaterial que refletimos como propósito”, questionou. Depois de uma hora de conversa, a resposta sobre a existência ou não de Deus ficou a critério de cada um na plateia lotada.O Rio Innovation Week começou na última terça-feira (4) no Píer Mauá, no Centro do Rio de Janeiro (RJ). A edição 2026 contou com mais de 3 mil palestrantes sobre assuntos que tangenciam o tema central do evento: “Simbiose: o futuro não acontece isolado”. O evento termina nesta sexta-feira e o TecMundo esteve presente cobrindo os principais painéis sobre tecnologia, inovação e IA.