Uma nova simulação de uma galáxia semelhante à Via Láctea mostrou como dois componentes encontrados nas regiões centrais de muitas galáxias podem se formar e evoluir de maneira conectada. O estudo foi desenvolvido pelo projeto SMUGGLE-Ring e analisou a relação entre aglomerados estelares nucleares e discos estelares nucleares.O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Instituto Leibniz de Astrofísica de Potsdam e apresentado em artigo aceito como carta ao editor da revista Astronomy & Astrophysics em 2026. A pesquisa utilizou uma simulação hidrodinâmica de alta resolução para acompanhar quatro bilhões de anos de evolução de uma galáxia espiral barrada semelhante à Via Láctea.Os cientistas identificaram que a barra estelar da galáxia atua como um mecanismo capaz de transportar gás para a região central, abastecendo a formação de novas estrelas. O modelo também indicou que a dinâmica da matéria escura influencia a evolução dessas estruturas e pode alterar a história dos núcleos galácticos.A barra galáctica como motor de crescimentoRecorte da galáxia de Andrômeda – Crédito: NASA, ESA, Benjamin Williams (University of Washington), Zhuo Chen (University of Washington), L. Clifton Johnson (Northwestern); processamento de imagem: Joseph DePasquale (STScI).Durante décadas, astrônomos observaram os aglomerados estelares nucleares e os discos estelares nucleares como estruturas possivelmente formadas por processos diferentes. Estudos observacionais não haviam encontrado uma relação clara entre suas massas e dimensões, deixando em aberto a origem conjunta desses componentes.A nova simulação mudou essa perspectiva ao reproduzir, dentro de um mesmo modelo físico, o surgimento dos dois elementos centrais. O resultado indica que ambos podem crescer a partir do mesmo reservatório de gás conduzido para o núcleo pela barra de estrelas da galáxia.Conforme a pesquisa, a concentração de gás no centro desencadeia novos episódios de nascimento estelar. Esses ciclos são influenciados pela retroalimentação produzida por estrelas que chegam ao fim de suas vidas, liberando energia e provocando ondas de choque capazes de estimular novas formações estelares.Ao longo de bilhões de anos, o processo acumulou centenas de milhões de massas solares em estrelas nas estruturas centrais simuladas. A vantagem do modelo, segundo os pesquisadores, está em permitir a observação de etapas que não podem ser acompanhadas diretamente em galáxias reais, que normalmente são analisadas apenas em um único momento de sua existência.Uma relação que parecia inexistenteIlustração mostra um sistema polar intermediário, um tipo de sistema estelar binário que originou a nova V1674 Hércules. Um fluxo de gás da estrela companheira impacta um disco de acreção antes de fluir ao longo das linhas de campo magnético para a anã branca. Imagem: Mark GarlickA simulação também ajudou a explicar por que observações anteriores não encontravam uma conexão evidente entre aglomerados estelares nucleares e discos estelares nucleares. A ausência de uma correlação direta não significa necessariamente que esses sistemas tenham origens distintas.De acordo com o estudo, as diferenças observadas podem surgir porque as duas estruturas mudam suas proporções ao longo do tempo. Durante fases prolongadas de crescimento, suas massas e tamanhos podem se afastar gradualmente, fazendo com que galáxias em diferentes estágios pareçam ter núcleos formados por mecanismos diferentes.A pesquisa contou ainda com uma abordagem mais realista da matéria escura. Em vez de representar esse componente como um cenário fixo, o modelo incorporou partículas capazes de acompanhar sua dinâmica, permitindo que a barra galáctica evoluísse naturalmente.Esse tratamento revelou também a presença de uma região com menor concentração de matéria escura ao redor da barra, fenômeno conhecido como “lacuna escura”. O estudo relaciona essa característica à interação entre estrelas e matéria escura causada pela rotação da barra.A influência de grandes fusões no núcleo galácticoOutro resultado destacado pela simulação foi a chegada de um aglomerado estelar muito massivo ao centro da galáxia modelada. Com cerca de 30 milhões de massas solares, esse aglomerado migrou em direção ao núcleo e se fundiu ao aglomerado estelar nuclear existente.O cenário chama atenção porque observações recentes identificaram grandes aglomerados dentro da barra da galáxia NGC 1365, alguns deles considerados candidatos a futuras migrações para a região central. Segundo o estudo, eventos desse tipo podem modificar rapidamente a massa e o tamanho dos aglomerados nucleares.A pesquisa aponta que essas fusões tornam a evolução dos centros galácticos ainda mais complexa. Como há um buraco negro supermassivo dentro do aglomerado estelar nuclear de muitas galáxias, alterações provocadas por esses eventos podem deixar marcas na massa desse objeto e ampliar a compreensão sobre a conexão entre diferentes componentes galácticos.O post O coração das galáxias revela segredos em nova simulação cósmica apareceu primeiro em Olhar Digital.