O gelo da Antártida está devolvendo ao mar um antigo poluente: o mercúrio

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Um novo estudo revelou que o derretimento da Antártida está liberando mercúrio acumulado no gelo ao longo de cerca de dois séculos. A descoberta acende um alerta para os possíveis impactos sobre a vida marinha.Os resultados, publicados na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), indicam que o aquecimento global pode transformar o continente gelado em uma nova fonte de poluição ambiental.Durante décadas, a Antártida armazenou mercúrio preso no gelo. O aquecimento global está mudando esse cenário. Imagem: Oleksandr Matsibura/ShutterstockUm reservatório de poluição escondido no geloO mercúrio é liberado naturalmente por vulcões e pelo desgaste das rochas. No entanto, desde a Revolução Industrial, a queima de combustíveis fósseis e o aumento da mineração elevaram significativamente a quantidade desse metal no ambiente.Durante décadas, a Antártida funcionou como um grande reservatório natural, aprisionando o mercúrio em suas camadas de gelo. Isso ajudou a reduzir a quantidade do contaminante que chegava à cadeia alimentar marinha.Liderada pelo cientista ambiental Chengzhen Zhou, da Universidade de Pequim, a pesquisa analisou testemunhos de sedimentos coletados na Península Antártica, a região que registra o derretimento mais acelerado do continente. Os pesquisadores verificaram que a plataforma continental local acumula mercúrio em uma taxa duas vezes superior à média mundial. Desde o início da industrialização, esse acúmulo cresceu cerca de 160%.O derretimento acelera um novo ciclo de contaminaçãoAlém do conhecido ciclo atmosfera-oceano, o estudo identificou um segundo mecanismo intensificado pelo aquecimento do clima: o ciclo atmosfera-glaciar-terra-oceano. É ele que volta a colocar em circulação o mercúrio que permaneceu aprisionado no gelo durante décadas.Segundo os pesquisadores, esse processo remobiliza o contaminante armazenado no continente. “O acoplamento desses dois ciclos aumentou em 550% a liberação de mercúrio terrestre impulsionada pelo derretimento do gelo e em 350% as trocas entre atmosfera e oceano”, afirmam Chengzhen Zhou e sua equipe.Os principais resultados do estudo incluem:A taxa de acúmulo de mercúrio aumentou 160% desde a industrialização;O derretimento do gelo elevou em 550% a liberação de mercúrio armazenado;As trocas de mercúrio entre atmosfera e oceano cresceram 350%;O transporte do contaminante para o oceano aberto aumentou cerca de 400%.Cientistas alertam que o mercúrio liberado pelo gelo pode afetar a cadeia alimentar dos oceanos. – Imagem: ArthurLl/ShutterstockO impacto pode ir além da AntártidaA Organização Mundial da Saúde classifica o mercúrio entre os dez produtos químicos de maior preocupação para a saúde pública, mesmo em baixas concentrações.Leia mais:Por que as Cataratas de Sangue deixaram o gelo da Antártica vermelho?Cientistas encontram “cidade de peixes” escondida sob gelo da AntártidaOceano profundo da Antártida muda de ritmo e ameaça equilíbrio do planetaO estudo também lembra que pesquisas anteriores identificaram bactérias no gelo marinho antártico capazes de transformar o mercúrio em metilmercúrio, uma forma muito mais tóxica que se acumula nos organismos marinhos. “O enriquecimento acelerado e a circulação do mercúrio na Antártida podem aumentar os riscos para os ecossistemas antárticos”, escrevem os pesquisadores. Eles destacam que a cadeia alimentar do Oceano Austral, dos diatomáceos ao krill, peixes e grandes predadores, é especialmente sensível ao metilmercúrio.Os autores observaram ainda que a exportação de mercúrio da Península Antártica para o oceano aberto aumentou cerca de 400%, indicando que a contaminação pode alcançar outras regiões. Segundo o estudo, reduzir as emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis continua sendo uma das principais formas de conter o avanço desse problema ambiental.O post O gelo da Antártida está devolvendo ao mar um antigo poluente: o mercúrio apareceu primeiro em Olhar Digital.