Belo Horizonte — Dois magistrados do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) que deixaram as funções em meio a diferentes investigações e episódios de repercussão seguem recebendo salários que ultrapassam R$ 50 mil por mês. Agora, um terceiro juiz afastado da Corte se juntará a eles. Dados do Portal da Transparência da Corte mostram que, somente em julho, os valores líquidos recebidos por eles variaram de R$ 53,3 mil a R$ 83,5 mil.O caso mais recente de afastamento com manutenção do salário é o do juiz Milton Lívio Lemos Salles, tirado das funções nessa terça-feira (11/8), após ser flagrado fumando e bebendo o que aparentava ser vinho diretamente de uma garrafa durante uma sessão virtual do TJMG.Em julho, antes do afastamento, Milton recebeu R$ 105.073,16 brutos. Após R$ 21.489,61 em descontos, o magistrado ficou com R$ 83.583,55 líquidos.Os outros dois casos envolvem os desembargadores Magid Nauef Láuar e Alexandre Victor de Carvalho. Magid está afastado e responde a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) instaurado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) após denúncias de abuso sexual. Ele nega as acusações. Alexandre, que chegou a ser afastado em março, teve o pedido de aposentadoria deferido no mesmo mês.Mesmo fora das funções, os dois aparecem na folha de pagamentos do TJMG. Em julho, Magid recebeu R$ 88.448,15 brutos, dos quais R$ 69.434,87 chegaram líquidos. Já Alexandre teve rendimentos brutos de R$ 67.288,93 e ficou com R$ 53.392,81 líquidos após os descontos.Os contracheques dos meses anteriores mostram a recorrência dos pagamentos. Em junho, os valores recebidos pelos desembargadores foram idênticos aos do mês passado.Já em maio, os valores foram menores, mas ainda elevados. Magid recebeu R$ 59.814,33 brutos e R$ 40.801,05 líquidos, enquanto Alexandre teve R$ 52.643,02 brutos e R$ 38.812,64 líquidos. Na ocasião, os descontos foram maiores.As regrasO afastamento cautelar de magistrados não implica a suspensão dos salários. “Durante a tramitação dos procedimentos, o magistrado permanece recebendo os vencimentos correspondentes, conforme previsto na legislação aplicável”, afirmou a Corte ao Metrópoles.Além disso, conforme já explicou o TJMG, a remuneração mensal está sujeita ao teto constitucional da categoria, atualmente de R$ 46.366,19, mas determinadas verbas são legalmente excluídas desse limite, como pagamentos de natureza indenizatória e valores referentes a períodos anteriores, os chamados “penduricalhos”.Juiz recebeu R$ 105 mil antes de afastamentoMilton ainda estava em atividade nos três meses analisados pelo Metrópoles. Em maio, recebeu R$ 62.210,10 brutos e R$ 44.296,77 líquidos. Em junho, foram R$ 80.792,53 brutos e R$ 62.872,61 líquidos.O maior contracheque veio em julho, quando os rendimentos brutos chegaram a R$ 105.073,16. O montante foi composto por R$ 13.212,08 em vantagens pessoais, R$ 39.753,21 referentes à remuneração do cargo, R$ 13.913,62 em indenizações, R$ 24.280,63 em vantagens eventuais e R$ 13.913,62 em gratificações.Embora ainda estivesse trabalhando naquele período, Milton já era alvo de uma medida protetiva, que está sob segredo de Justiça. O afastamento das funções, no entanto, só ocorreu após a repercussão das imagens registradas durante a sessão virtual dessa segunda-feira (10/8), onde o magistrado aparece fumando e bebendo em frente à câmera.Após a repercussão, o corregedor-geral de Justiça de Minas Gerais, desembargador Raimundo Messias Júnior, determinou o afastamento imediato do juiz na tarde de terça. A decisão foi submetida à apreciação do Órgão Especial do TJMG, que manteve a determinação e ainda definiu medida cautelares, como a impossibilidade de uso de veículos oficiais e porte de arma por Milton.A Corregedoria-Geral de Justiça também instaurou uma sindicância para apurar a conduta do magistrado. Os processos que estavam sob a relatoria dele serão redistribuídos, e um magistrado de primeiro grau será convocado para substituí-lo no Núcleo de Justiça 4.0 – Cível Família.Em meio à polêmica, Milton divulgou outro vídeo no qual afirmou ser vítima de “difamação”, atacou integrantes do Judiciário e acusou membros de tribunais de corrupção.De abuso sexual a favorecimento de empresaMagid Nauef Láuar foi afastado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em fevereiro após denúncias envolvendo supostos abusos sexuais. Pelo menos cinco pessoas procuraram autoridades para relatar supostos episódios ocorridos durante períodos em que ele atuou como juiz em Minas Gerais.Entre os denunciantes está Saulo Láuar, que se identifica como primo do desembargador. Ele afirmou que teria sido alvo de uma tentativa de abuso sexual quando tinha 14 anos e trabalhava para Magid.Antes das denúncias, o desembargador já havia ganhado repercussão nacional ao absolver um homem de 35 anos acusado de estupro contra uma menina de 12 anos, sob o argumento de que haveria um “vínculo consensual”. Após as críticas, ele reviu a própria decisão.Ao Metrópoles, o CNJ informou que o processo administrativo contra Magid tramita em segredo.Alexandre Victor de Carvalho, por sua vez, foi afastado em março no âmbito de apurações relacionadas à atuação dele em decisões envolvendo a recuperação judicial da 123 Milhas, e minutos após pediu aposentadoria. As suspeitas são de suposto favorecimento à companhia durante a condução do processo.Em levantamento anterior, o Metrópoles mostrou que Magid e Alexandre receberam, juntos, R$ 1,49 milhão em penduricalhos entre abril de 2025 e março de 2026. Na ocasião, foram consideradas gratificações, vantagens pessoais e indenizações pagas além da remuneração-base.