Segundo o relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), divulgado nesta quinta-feira (13/8), 1.024 crianças indígenas de até 4 anos morreram no Brasil no ano de 2025. O número representa uma alta de 11% em relação a 2024, quando foram registrados 922 óbitos.Mais da metade das mortes, no entanto, poderia ter sido evitada. Dos 1.024 óbitos registrados entre crianças indígenas, 586 – o equivalente a 57% – foram classificados como decorrentes de causas evitáveis, segundo os critérios adotados pelo Ministério da Saúde.Entre as principais causas evitáveis estão doenças que podem ser prevenidas ou tratadas com atendimento adequado. Gripe e pneumonia provocaram 104 mortes em 2025. Doenças infecciosas intestinais, diarreias e gastroenterites responderam por 85 óbitos, enquanto desnutrição e deficiências nutricionais estiveram associadas a outras 32 mortes.Os óbitos estão concentrados principalmente em três estados. Amazonas, Roraima e Mato Grosso responderam por 57,3% de todas as mortes de crianças indígenas de até 4 anos registradas em 2025.O Amazonas lidera as estatísticas, com 306 óbitos, seguido por Roraima, com 158, e Mato Grosso, com 123.A maioria das crianças mortas era do sexo masculino. Foram 539 meninos, o equivalente a 52,6% dos óbitos registrados no ano.Falta de água e saneamentoEntre os fatores associados às mortes evitáveis, o relatório destaca a precariedade do acesso à água potável e ao saneamento básico. Em comunidades onde não há sistemas adequados de abastecimento, famílias podem depender de rios, igarapés e poços sem tratamento ou controle de qualidade.A exposição à água contaminada favorece a ocorrência de infecções intestinais e episódios recorrentes de diarreia, que podem agravar quadros de desnutrição, principalmente entre crianças pequenas.O problema também é agravado pela degradação de rios e outros cursos d’água. O Cimi aponta casos de contaminação provocada por atividades de garimpo e mineração, além da presença de agrotóxicos utilizados em grandes plantações no entorno de Terras Indígenas.Em 2025, 46 Terras Indígenas registraram ocorrências relacionadas à retirada, retenção, drenagem ou contaminação de cursos d’água, rios e nascentes. Amazonas, Pará e Mato Grosso concentraram os maiores números de registros de invasões e danos ambientais.Terras indígenas afetadas por invasõesTI Krahô-Kanela (TO): o território é cercado por fazendas de arroz irrigado, soja, milho e melancia. A intensa captação de água dos rios por meio de potentes bombas e canais artificiais faz com que os cursos d’água sequem completamente durante o período de estiagem, provocando uma severa escassez de peixes e comprometendo a segurança alimentar do povo.TI Guyraroka (MS): a comunidade Guarani-Kaiowá convive há anos com a contaminação contínua de suas águas devido ao uso indiscriminado de agrotóxicos por fazendeiros do entorno, o que gera severos surtos de vômitos, diarreia e intoxicações agudas em crianças e idosos.TI Waimiri-Atroari (AM/RR): em setembro de 2025, lideranças denunciaram espuma, mau cheiro e peixes mortos no rio Alalaú . Exames preliminares e relatórios técnicos confirmaram níveis alarmantes e altamente tóxicos de mercúrio, chumbo e arsênio nas águas que abastecem 22 aldeias, com fortes suspeitas apontando para as atividades do complexo mineral da mineradora Taboca. Leia também Na MiraAvô é preso suspeito de estuprar criança indígena de 6 anos BrasilCriança indígena ensina como comer tanajura e encanta internautas Mirelle PinheiroTrio se reveza para estuprar criança indígena e mãe acha menina ferida BrasilIndígenas em condições análogas à escravidão são resgatados em fazenda Doença tratável, morte evitávelA presença de doenças infecciosas entre as principais causas de morte evidencia a dimensão da desigualdade no acesso à saúde. Pneumonias, diarreias e outras infecções podem ter evolução grave em crianças pequenas, mas medidas como vacinação, diagnóstico precoce, hidratação, acompanhamento nutricional e tratamento adequado reduzem o risco de morte.5 imagensFechar modal.1 de 5BRENO ESAKI/METRÓPOLES @BrenoEsakiFoto2 de 5VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto3 de 5VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto4 de 5VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto5 de 5BRENO ESAKI/METRÓPOLES @BrenoEsakiFotoO relatório também aponta dificuldades no atendimento dentro das próprias comunidades, como falta de medicamentos, escassez de profissionais e ausência de transporte adequado para situações de emergência.Em localidades distantes dos centros urbanos, a remoção de uma criança em estado grave pode exigir longos deslocamentos terrestres ou fluviais. A demora para chegar a uma unidade de saúde pode agravar quadros inicialmente tratáveis.Omissão do poder públicoA mortalidade infantil é um dos indicadores utilizados pelo Cimi para demonstrar a chamada violência por omissão do poder público contra os povos indígenas.A categoria também inclui os suicídios, que passaram de 208 casos em 2024 para 215 em 2025, alta de 3,4%.O aumento das mortes infantis ocorre em um cenário mais amplo de agravamento das diferentes formas de violência contra os povos indígenas. As três grandes categorias sistematizadas pelo Cimi – violência contra a pessoa, violência por omissão do poder público e violência contra o patrimônio indígena – registraram aumento em 2025.Os assassinatos, por exemplo, passaram de 211 para 258, alta de 22,3%. Já os registros de violência contra o patrimônio também cresceram e incluem invasões, danos ambientais, conflitos territoriais e a demora na regularização das terras.O Metrópoles acionou o governo federal, que desenvolve as ações nacionais relacionadas aos povos indígenas, para se manifestar a respeito do assunto e aguarda resposta. O espaço segue aberto.