A inteligência artificial promete dar às pessoas mais tempo, produtividade e capacidade para realizar tarefas antes difíceis ou demoradas. Mas, à medida que a ferramenta ganha espaço na vida cotidiana, surge algumas questões fundamentais, como: quem fica com o poder gerado por essa tecnologia? Como esse tempo que "sobra" a partir do trabalho da IA tem sido utilizado? O tema foi discutido nesta quarta-feira (12) pela professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Mariza Ferro, e o advogado e colunista de O Globo, Irapuã Santana, durante o painel "IA & Direitos Humanos: De Quem é o Poder no Mundo dos Algoritmos?" , mediado pelo psicólogo e professor da Fast Company Brasil, Genesson Honorato, durante o SP2B, que ocorre esta semana, em São Paulo. A seguir, confira mais sobre o debate.🔎 Deepfakes e IA desafiam a confiança; como saber o que é verdade?📲 Canal do TechTudo no WhatsApp: acompanhe as principais notícias, tutoriais e reviewsSP2B: painel discute quem fica com o poder gerado pela inteligência artificialCecile Mendonça/TechTudo📝Como proteger meus dados ao usar o ChatGPT?Uso de IA gera mais tempo ou mais cobrança?Se a IA consegue fazer em minutos uma tarefa que antes levava horas, seria esperado que parte desse tempo voltasse para as pessoas. O problema é que, segundo a reflexão apresentada durante o debate, esse ganho de produtividade não necessariamente se transforma em mais tempo para descanso. Ele pode, ao contrário, elevar a expectativa sobre o que cada pessoa deve conseguir produzir.É nesse ponto que a discussão se aproxima de Sociedade do Cansaço, do filósofo Byung-Chul Han, citado durante a palestra. A obra — que, inclusive, foi citada pela especialista Mariza — trata de uma sociedade em que a cobrança deixa de vir apenas de uma autoridade externa e passa a ser incorporada pelo próprio indivíduo, que se coloca sob pressão para produzir e melhorar continuamente. Nesse contexto, uma tecnologia que aumenta a capacidade de realização pode não significar menos trabalho, mas a possibilidade de fazer ainda mais no mesmo período.A questão levantada no debate, portanto, não é apenas se a IA consegue economizar tempo, mas o que acontece com esse tempo depois que ele é economizado. Se ele não retorna para o descanso e vira uma nova margem para produtividade, a promessa de liberdade proporcionada pela tecnologia pode acabar reforçando justamente a lógica de desempenho que produz o cansaço.Para Mariza, o trabalhador é um dos grupos que pode perder poder com esse processo, mas a questão vai além do emprego. Se a IA aumenta a capacidade de uma pessoa produzir mais em menos tempo, é preciso perguntar quem se beneficia desse ganho: o trabalhador, que poderia ter mais tempo livre, ou a empresa, que passa a esperar uma produtividade ainda maior?A mesma lógica vale para a sociedade como um todo, inserida ou não no mercado de trabalho. Quanto mais as pessoas dependem da IA para pesquisar, criar, tomar decisões ou realizar tarefas que antes faziam sozinhas e a partir de menos intermediações, mais autonomia podem deixar nas mãos dessas ferramentas. Por isso, o debate não envolve apenas os ganhos de eficiência proporcionados pela tecnologia, mas também quem passa a ter mais controle, quem perde capacidade de decisão e para onde vai o benefício gerado pelo aumento da produtividade.Quem controla a IA também concentra poderNa avaliação da professora, as grandes empresas de tecnologia estão entre as principais beneficiadas pelo crescimento do uso da IA. Quanto mais a sociedade depende dessas ferramentas, maior pode ser a concentração de dados, infraestrutura e capacidade tecnológica nas mãos de poucas empresas. Isso ajuda a explicar também por que, para Mariza, não existe tecnologia neutra. Como é um artefato criado por seres humanos, a tecnologia carrega escolhas humanas - e seres humanos não são neutros.Isso também significa que os sistemas de IA podem reproduzir os vieses presentes na sociedade. Reconhecer a existência desses vieses, no entanto, não significa considerá-los inevitáveis. É possível desenvolver sistemas mais éticos e menos enviesados, mas isso depende, entre outros fatores, dos dados utilizados para treiná-los. Se esses dados não forem atualizados e não levarem em consideração as desigualdades existentes, o algoritmo pode simplesmente aprender padrões de uma realidade desigual e reproduzi-los em escala.Por isso, para a professora, discutir inteligência artificial também é discutir quem tem o poder de definir como essas tecnologias são desenvolvidas, quais dados são utilizados e quais critérios orientam seus sistemas. Quanto maior a presença da IA em diferentes áreas da sociedade, maior também é o impacto dessas escolhas.Quem consegue influenciar a IA também exerce poderO poder, porém, não está apenas nas mãos de quem desenvolve ou controla os grandes sistemas. Ele também pode estar em quem consegue interferir no funcionamento dessas ferramentas. Um exemplo é o prompt injection, técnica que pode ser usada para inserir comandos em documentos e tentar direcionar a resposta de uma inteligência artificial.O risco já chegou ao Judiciário brasileiro. Em 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) identificou petições com comandos ocultos destinados a manipular sistemas de IA. Os comandos podem ser inseridos de forma que não sejam percebidos por quem lê o documento, mas sejam processados pela ferramenta, como por meio de texto branco sobre fundo branco.O caso mostra que, à medida que a IA passa a participar de decisões importantes, a capacidade de influenciar o sistema também pode se transformar em uma forma de poder. Por isso, não basta discutir quem criou a ferramenta. É preciso tambpem considerar quem consegue interferir em seu funcionamento, quais mecanismos existem para detectar essa interferência e quais consequências podem surgir quando uma resposta produzida por IA influencia uma decisão.Essa questão também aparece no uso cotidiano da tecnologia. Se uma pessoa passa a recorrer constantemente à IA para pesquisar, escrever, criar ou tomar decisões, existe o risco de que a ferramenta deixe de ser apenas um auxílio. Para Mariza, essa perda de autonomia também representa uma perda de poder. Quanto mais decisões são delegadas aos sistemas, menor pode ser a capacidade de escolha das pessoas e também diminui o espaço para o processo criativo.Nesse sentido, a discussão sobre o poder da IA não se resume a quem controla a tecnologia, mas também a quem consegue influenciá-la e quanto controle as pessoas estão dispostas a transferir para ela.Como proteger as pessoas sem fortalecer as gigantes?O desafio chega também à regulação. Para Irapuã, é preciso definir quais direitos os indivíduos devem ter diante das novas tecnologias, mas uma regulação excessivamente pesada pode criar outro problema: empresas menores podem não ter estrutura para cumprir as mesmas exigências que as grandes companhias. Nesse cenário, regras criadas para proteger as pessoas poderiam, paradoxalmente, favorecer ainda mais as empresas que já concentram recursos e tecnologia.Por outro lado, reduzir a proteção também deixa o indivíduo mais vulnerável. O equilíbrio entre essas duas pontas ainda é uma questão em aberto para o advogado, que estuda o tema no pós-doutorado. A pergunta é como criar mecanismos capazes de proteger direitos sem transformar a regulação em uma barreira que feche ainda mais o mercado.O que você jamais entregaria para uma IA?No fim, o mediador deixou uma provocação que resume o dilema apresentado durante o debate: qual decisão você jamais delegaria a uma inteligência artificial? A pergunta (e todo o painel) não parte da ideia de que a IA seja simplesmente boa ou ruim. Como bem citado na mesa "Tudo é perigoso / Tudo é divino maravilhoso", canta Gal Costa. Conforme a tecnologia ganha capacidade, é preciso decidir quanto poder estamos dispostos a entregar a ela e quais decisões precisam continuar sob controle humano.*A jornalista participou do SP2B a convite do eventoMais do TechTudoVeja também: IA não é terapia! Veja porque você nunca deve desabafar com chatbotsIA não é terapia! Veja porque você nunca deve desabafar com chatbots