A cúpula do PL não trabalha, ao menos neste momento, com a possibilidade de retirar Alfredo Gaspar (PL-AL) da chapa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O deputado foi anunciado como candidato a vice-presidente na quarta-feira (5/8), mas a escolha provocou contrariedade entre aliados que esperavam uma mulher para ocupar a vaga.A reação foi mais forte entre integrantes da ala feminina do partido. Durante a pré-campanha, o próprio Flávio havia sinalizado preferência por uma mulher. A ideia era que a escolha ajudasse a ampliar a candidatura e aproximasse o senador de eleitoras que ainda demonstram resistência ao bolsonarismo.A definição de Gaspar também trouxe para o centro da campanha dois assuntos que envolvem o deputado: uma acusação de estupro de vulnerável, que ele nega, e questionamentos sobre uma emenda Pix de aproximadamente R$ 6,2 milhões destinada ao município de São José da Laje (AL).Aliados de Flávio dizem que as duas questões eram conhecidas antes da escolha. Mesmo assim, o grupo responsável pela candidatura decidiu seguir com Gaspar e afirma ter confiança no deputado.O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), têm descartado uma mudança na composição da chapa. Segundo um dirigente da legenda, ouvido sob reserva, uma substituição só ocorreria se o próprio Gaspar desistisse da candidatura.A campanha agora tenta aparar as arestas que surgiram em torno do vice antes do início da propaganda eleitoral, em 16 de agosto. A preocupação é que os episódios sejam usados pelos adversários para atingir Flávio e acabem ocupando espaço maior do que a própria apresentação da chapa.5 imagensFechar modal.1 de 5O coordenador de campanha de Flávio Bolsonaro, Rogério Marinho, o vice da chapa, Alfredo Gaspar, e a advogada Maria Claudia BucchianeriBeto Barata/PL2 de 5Flávio Bolsonaro definiu Alfredo Gaspar como seu viceHUGO BARRETO / METRÓPOLES@hugobarretophoto3 de 5O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou nesta quarta-feira (5) a escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) HUGO BARRETO / METRÓPOLES@hugobarretophoto4 de 5Flávio Bolsonaro anuncia vice, nesta quarta-feira (5/8)HUGO BARRETO / METRÓPOLES@hugobarretophoto5 de 5Flávio Bolsonaro (PL) anuncia vice na chapa presidencialHUGO BARRETO / METRÓPOLES@hugobarretophotoA acusação de estupro é a principal preocupação. O caso foi levado à Polícia Federal em março pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), durante a fase final da CPMI do INSS, que tinha Gaspar como relator.Os dois parlamentares pediram que fosse investigada a suspeita de que o deputado tivesse mantido relação sexual com uma adolescente de 13 anos, que posteriormente teria engravidado. A PF pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) autorização para abrir um inquérito.O procedimento tramita sob sigilo e está sob relatoria do ministro Gilmar Mendes. Até agora, o Supremo não autorizou a abertura da investigação.Gaspar contesta a acusação. Segundo ele, os fatos apresentados pelos parlamentares dizem respeito a seu primo, e não a ele. O deputado afirma que o parente, quando menor de idade, teve uma relação consensual com outra menor, que engravidou.Na quinta-feira (6/8), Alfredo Gaspar recorreu ao STF para tentar acelerar a realização de um exame genético. A defesa pediu a coleta de material para um teste de DNA, com o objetivo de verificar se o deputado é o pai da criança citada na acusação. A equipe jurídica da campanha do PL, segundo interlocutores, também passou a monitorar o caso.Emenda também gera questionamentosA segunda questão envolve recursos públicos. O TCU analisou uma “emenda Pix” de cerca de R$ 6,2 milhões indicada por Gaspar para São José da Laje. Segundo a auditoria, houve problemas que dificultaram o acompanhamento da execução da verba.O ministro Flávio Dino, do STF, determinou que a Polícia Federal analise possíveis irregularidades relacionadas a essa e a outras emendas.Gaspar nega qualquer ilícito. Em nota, ele afirmou que o assunto voltou a ser discutido por causa de um “momento de evidente acirramento político, logo após sua oficialização como candidato à vice-presidência da República pelo PL”.O deputado também disse que a Procuradoria-Geral da República (PGR) analisou os recursos e arquivou o caso. “Não tendo sido identificados elementos que justificassem o prosseguimento”, declarou.Quem é Alfredo GasparTem 55 anos e é natural de Maceió (AL).É formado em Direito e atuou como advogado e professor universitário.Foi promotor de Justiça e secretário de Segurança Pública de Alagoas.Disputou a Prefeitura de Maceió em 2020, mas perdeu para JHC no 2º turno.Foi eleito deputado federal em 2022, após deixar o MDB e ingressar no União Brasil.Migrou para o PL em 2026 e assumiu o comando da legenda em Alagoas.Ganhou projeção como relator da CPMI do INSS e ensaiou disputar uma vaga ao Senado neste ano.Escolha ocorreu após fracasso de alianças com CentrãoA escolha de Gaspar ocorreu depois que a campanha não conseguiu viabilizar uma mulher de outro partido. Flávio chegou a avaliar nomes como Tereza Cristina (PP-MS), Daniella Marques (Republicanos) e Renata Abreu (Podemos-SP), mas as três possibilidades dependiam de partidos que decidiram não apoiar oficialmente nenhuma candidatura presidencial.Sem uma aliança com essas legendas, a discussão passou para nomes do próprio PL. Ainda assim, Gaspar acabou escolhido. A decisão foi tomada em uma articulação restrita a Flávio, Valdemar e Marinho, segundo pessoas próximas ao senador.Flávio Bolsonaro afirmou, em transmissão ao vivo na quinta, que a definição ocorreu no fim das negociações. De acordo com o senador, Marinho apresentou o nome de Gaspar, e ele aprovou a sugestão.A justificativa pública para a escolha está ligada à trajetória do deputado. Antes de chegar à Câmara, Gaspar foi promotor de Justiça e secretário de Segurança Pública de Alagoas. Na CPMI do INSS, como relator, apresentou pedido de indiciamento de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).O fato de ser alagoano também foi levado em conta pela campanha. O Nordeste é uma das regiões mais favoráveis a Lula, e a campanha de Flávio vê no vice uma possibilidade de ampliar sua presença no eleitorado nordestino.Flávio mantém agenda com mulheresA escolha, porém, não convenceu todos os integrantes do entorno do candidato. Há aliados que consideram que Gaspar tem pouca capacidade de acrescentar votos e de levar a candidatura para fora do eleitorado já identificado com o bolsonarismo. A ausência de uma mulher na chapa também gerou críticas entre integrantes do PL que defendiam essa estratégia.Mesmo sem a vice feminina, Flávio pretende continuar buscando aproximação com as mulheres. O próximo movimento será neste sábado (8/8), em Itapetininga (SP), onde o senador participará do “Café Entre Elas”, encontro organizado pela deputada federal Simone Marquetto (PP-SP).Simone esteve entre os nomes avaliados para a vice e foi citada por Flávio no discurso que antecedeu o anúncio de Gaspar. O encontro terá discussão sobre políticas públicas para mulheres. A campanha também já apresentou um programa voltado especificamente para esse eleitorado.Simone Marquetto afirmou que a reunião não foi criada em resposta à reação à escolha do vice. Segundo a parlamentar, o compromisso havia sido marcado anteriormente, e Flávio confirmou que participaria na noite de segunda-feira (3/8), antes da definição de Gaspar e da repercussão em torno do anúncio.