O país que envelhece enquanto discutimos a Inteligência Artificial

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Enquanto nos interrogamos sobre a capacidade de uma máquina pensar, criar ou substituir determinadas profissões, há uma pergunta muito mais simples, mais concreta e incomparavelmente mais urgente que continuamos a adiar: quem cuidará de nós quando envelhecermos? Os factos e a ciência estão aí, as projeções demográficas são conhecidas e os sinais tornam-se cada vez mais evidentes, mas continuamos coletivamente distraídos, como se o envelhecimento da população fosse uma possibilidade distante e não uma realidade estrutural que deveria estar, desde já, no centro das decisões políticas, económicas e sociais.Portugal nunca teve tantos habitantes e nunca foi tão diverso, muito por força da imigração que permitiu compensar uma tendência prolongada de perda populacional, mas este crescimento não elimina o problema central de um país profundamente envelhecido, com baixos níveis de fecundidade e com uma população idosa a aumentar muito mais rapidamente do que a população em idade ativa.Nunca fomos tantos, é verdade, mas nunca estivemos tão próximos de ser tantos a envelhecer com tão poucos à nossa volta. Durante décadas, o nosso modelo de cuidados assentou numa realidade que o Estado quase sempre tomou como garantida, quando uma pessoa perdia autonomia, adoecia ou precisava de acompanhamento, existia uma família disponível para responder. Havia filhos, irmãos, sobrinhos, netos ou vizinhos próximos capazes de acompanhar uma consulta, comprar medicamentos, preparar uma refeição, tratar de documentos, ajudar na higiene, garantir companhia ou simplesmente perceber que alguma coisa não estava bem. Essa estrutura de apoio familiar nunca apareceu verdadeiramente nos orçamentos públicos, nunca foi contabilizada como deveria e raramente foi reconhecida como parte integrante do sistema de proteção social, mas sustentou silenciosamente uma parte significativa dos cuidados prestados no nosso país.O problema é que essa família numerosa, disponível e geograficamente próxima está a desaparecer, e o sistema continua a comportar-se como se ela fosse eterna. A redução do número de filhos não representa apenas uma alteração estatística ou uma questão abstrata de renovação de gerações. Representa uma transformação profunda da arquitetura familiar e, consequentemente, da nossa capacidade coletiva para cuidar.Famílias mais pequenas significam menos irmãos, menos sobrinhos, menos netos, menos pessoas entre as quais distribuir responsabilidades e um peso cada vez maior concentrado em filhos únicos, muitas vezes também eles envelhecidos, com vidas profissionais exigentes, filhos a cargo e sem condições para assumir sozinhos cuidados prolongados. Haverá igualmente cada vez mais pessoas que chegarão à velhice sem filhos, sem descendentes diretos e, em muitos casos, sem familiares próximos disponíveis.Não estamos apenas perante uma crise demográfica. Estamos perante uma futura crise de cuidado, de acompanhamento, de solidão e de dignidade. A probabilidade ajuda-nos a compreender aquilo que a intuição, por vezes, não consegue ainda visualizar, dentro de algumas décadas, uma parte muito significativa da população idosa poderá ter apenas um familiar próximo ou não ter ninguém disponível para prestar apoio regular. É uma previsão suficientemente grave para exigir uma mudança estrutural, mas continuamos a responder-lhe com medidas pontuais, programas temporários e uma visão fragmentada que separa artificialmente aquilo que, na vida real, é inseparável.É precisamente por isso que se torna urgente abandonar a forma condescendente como ainda olhamos para o sector social. Durante demasiado tempo, a economia social foi tratada como uma espécie de parente pobre da economia, um espaço associado à caridade, ao voluntariado, à boa vontade e à capacidade de algumas pessoas e instituições resolverem, com poucos recursos, os problemas que o Estado e o mercado não conseguem solucionar. Esta visão é não apenas injusta, mas profundamente perigosa. A economia social é economia. Cria emprego, gere organizações complexas, mobiliza recursos, desenvolve conhecimento, presta serviços essenciais e responde a necessidades que nenhum país minimamente responsável pode ignorar.Acima de tudo, produz aquilo que nenhuma folha de cálculo consegue medir integralmente: dignidade, confiança, pertença, segurança e qualidade de vida. Investir no sector social não é financiar uma atividade secundária ou subsidiar estruturas do passado. É investir numa infraestrutura humana indispensável para um país que envelhece e que terá cada vez menos retaguarda familiar. Não se trata de escolher entre economia e solidariedade, porque uma sociedade incapaz de cuidar das suas pessoas mais vulneráveis acabará por pagar um preço económico, social e humano incomparavelmente superior.As Misericórdias, as instituições particulares de solidariedade social, as cooperativas, as mutualidades e as organizações de proximidade possuem um papel que não pode ser desvalorizado. Estão presentes no território, conhecem as famílias, identificam fragilidades antes de estas se transformarem em emergências, acompanham pessoas que muitas vezes permanecem invisíveis aos grandes sistemas e preservam uma relação de confiança que nenhuma plataforma tecnológica consegue criar de forma instantânea.Mas reconhecer a relevância destas instituições não significa defender a imobilidade, a manutenção de modelos ultrapassados ou a aceitação de respostas insuficientes. Pelo contrário, significa exigir que sejam tratadas como parceiros estratégicos, dotados de capacidade de inovação, investimento, profissionalização e modernização. É necessário reforçar competências de gestão, criar modelos de financiamento mais estáveis, melhorar instalações, valorizar carreiras, investir na formação de cuidadores, medir resultados, desenvolver novas respostas domiciliárias, apostar em habitação colaborativa, criar redes comunitárias e integrar soluções tecnológicas que libertem tempo para aquilo que verdadeiramente importa.A tradição não pode servir de desculpa para não mudar, mas a modernização também não pode transformar o cuidado numa sequência fria de procedimentos, indicadores e transações. A tecnologia deve estar ao serviço da relação humana e não tentar substituí-la. A Inteligência Artificial poderá ter um papel relevante neste processo. Poderá ajudar a antecipar situações de risco, identificar sinais de isolamento, organizar respostas domiciliárias, gerir equipas, planear rotas, acompanhar indicadores de saúde, simplificar processos administrativos e permitir uma utilização mais eficiente de recursos escassos.Seria absurdo ignorar este potencial. Mas seria igualmente absurdo acreditar que a tecnologia resolverá, por si só, o problema do envelhecimento, da dependência e da solidão. Nenhum algoritmo segura uma mão com intenção, reconhece plenamente o medo de quem perde autonomia ou substitui a presença continuada de alguém que conhece uma história de vida. Nenhuma aplicação devolve, sozinha, o sentimento de pertença a uma comunidade. Nenhum robô consegue transformar o cuidado num compromisso moral, afetivo e social.Podemos e devemos utilizar a tecnologia para melhorar as respostas, mas nunca para esconder a falta de investimento humano ou para legitimar a ausência de pessoas. O risco é construirmos um futuro tecnologicamente sofisticado e humanamente vazio, no qual conseguimos monitorizar todos os sinais vitais, mas não temos ninguém disponível para escutar, acompanhar e cuidar. É também por isso que continuo a defender que a separação política e administrativa entre a Saúde e a área Social se tornou difícil de justificar. A pessoa não chega a um hospital dividida em duas partes, uma clínica e outra social. Não deixa a sua condição económica, familiar, habitacional ou emocional à porta das urgências, tal como não abandona a doença quando entra numa resposta social.A solidão agrava problemas de saúde, uma habitação inadequada aumenta o risco de queda, a pobreza condiciona a alimentação e a adesão à medicação, a ausência de apoio familiar prolonga internamentos e a falta de respostas domiciliárias leva muitas pessoas a ocupar camas hospitalares de que já não necessitam clinicamente. Tudo está ligado, exceto os sistemas que deveriam responder. Continuamos a ter serviços, financiamentos, decisões e responsabilidades organizados em silos, obrigando as pessoas e as famílias a navegar por estruturas que raramente comunicam entre si. Talvez tenha chegado o momento de deixarmos de falar apenas em articulação e de começarmos a pensar seriamente numa governação integrada, capaz de juntar Saúde e área Social numa visão comum de cuidado.A criação de um verdadeiro ‘Superministério do Cuidado’, ou de uma estrutura política equivalente, não deveria ser entendida como uma mera fusão administrativa nem como mais uma alteração de organogramas. Deveria representar uma mudança de paradigma, orientada para os percursos de vida das pessoas e não para a gestão isolada de hospitais, centros de saúde, lares, apoios domiciliários, prestações sociais e respostas comunitárias. Precisamos de uma estratégia que acompanhe a pessoa antes da doença, durante a perda de autonomia, no momento da alta clínica e ao longo de todo o processo de envelhecimento. Uma estratégia capaz de envolver hospitais, cuidados de saúde primários, autarquias, Misericórdias, IPSS, cuidadores, famílias, empresas, universidades e comunidades locais. Uma política que não financie apenas atos, vagas ou camas, mas resultados humanos: mais autonomia, menos solidão, melhor qualidade de vida, maior segurança e mais dignidade.Enquanto mantivermos a Saúde e a área Social como realidades paralelas, continuaremos a remediar problemas que poderiam ser prevenidos e a gastar mais para cuidar pior. O documentário sobre as chamadas zonas azuis (Blue Zone), disponível na Netflix há já alguns anos, despertou em mim precisamente esta reflexão. Para além das questões relacionadas com alimentação, movimento e estilos de vida, aquilo que mais me marcou foi a importância da comunidade, do propósito, das relações intergeracionais e do sentimento de pertença. As pessoas não vivem mais apenas porque seguem uma dieta específica ou porque praticam determinado exercício. Vivem melhor porque permanecem ligadas aos outros, porque se sentem necessárias, porque têm rotinas, participação social e um lugar reconhecido dentro da comunidade. A longevidade não surge como um projeto exclusivamente individual, dependente da disciplina, da capacidade financeira ou do acesso a determinados produtos. É também o resultado de um ecossistema social que facilita uma vida com sentido.Talvez seja esta a grande lição que continuamos a ignorar, envelhecer com qualidade não é apenas uma questão médica. É uma questão social, urbana, económica, relacional e política. Estamos muito preocupados em acrescentar anos à vida, mas ainda investimos pouco em acrescentar vida aos anos. Podemos construir hospitais e lares sofisticados, desenvolver sistemas de Inteligência Artificial, criar ferramentas de diagnóstico avançadas e prolongar a esperança média de vida, mas nada disso será suficiente se as pessoas envelhecerem isoladas, sem apoio, sem propósito e sem uma comunidade capaz de as reconhecer e cuidar. Os factos estão diante de nós, a ciência tem vindo a alertar-nos e as projeções são suficientemente claras. O que falta já não é informação.Falta decisão política, visão estratégica e coragem para reconhecer que o sector social não é uma despesa tolerada, mas um investimento estrutural no futuro do país. Falta compreender que as Misericórdias e as restantes organizações da economia social precisam de ser desafiadas a inovar, mas também apoiadas, financiadas e respeitadas como parceiros essenciais. Falta perceber que a dignidade no cuidado não pode depender da sorte de nascer numa família numerosa, de viver num determinado concelho ou de possuir recursos financeiros para comprar aquilo que o sistema não consegue garantir.O verdadeiro indicador de desenvolvimento de uma sociedade não está apenas na tecnologia que consegue criar, na riqueza que produz ou na velocidade com que se moderniza. Está, sobretudo, na forma como cuida daqueles que envelhecem, daqueles que perdem autonomia e daqueles que já não conseguem cuidar de si próprios. Podemos continuar distraídos com o futuro das máquinas, mas o futuro das pessoas já começou. E exige que transformemos o cuidado numa prioridade nacional, que valorizemos verdadeiramente a economia social e que deixemos de tratar a proximidade como um complemento simpático do sistema. A proximidade é o sistema que falta construir.O conteúdo O país que envelhece enquanto discutimos a Inteligência Artificial aparece primeiro em Revista Líder.