Fotografar para recordar. Ou para esquecer?

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A fotografia tornou-se uma extensão da memória. Ou, pelo menos, é isso que acreditamos. Mas a ciência começa a sugerir um paradoxo desconfortável: quanto mais fotografamos um momento, menos detalhes conseguimos recordar mais tarde.A conclusão surge num estudo publicado na revista científica Psychonomic Bulletin & Review, que procurou responder a uma questão muito simples: será que tirar várias fotografias ajuda o cérebro a memorizar melhor uma experiência? A resposta foi um claro ‘não’.Tirar cinco fotografias é pior do que tirar umaOs investigadores Julia Soares, da Mississippi State University, e Benjamin Storm, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, realizaram três experiências independentes para perceber de que forma o hábito de fotografar influencia a memória.Os participantes observaram uma série de pinturas. Alguns apenas as contemplaram. Outros fotografaram cada obra uma vez. Um terceiro grupo foi instruído a tirar cinco fotografias de cada pintura, reproduzindo um comportamento hoje comum entre utilizadores de smartphones.No final, todos realizaram testes para avaliar o número de detalhes que conseguiam recordar. O resultado foi surpreendente.Os participantes que fotografaram as obras lembravam-se de menos pormenores do que aqueles que apenas as tinham observado. Mais inesperado ainda: quem tirou cinco fotografias apresentou um desempenho ainda pior do que quem tirou apenas uma. O efeito manteve-se mesmo quando os investigadores pediram aos participantes para fotografarem diferentes ângulos da mesma obra, obrigando-os, teoricamente, a prestar mais atenção.O cérebro deixa a memória para o telemóvelOs investigadores explicam este fenómeno através de um conceito conhecido como cognitive offloading.Sempre que confiamos que um dispositivo irá guardar uma informação por nós, o cérebro reduz o esforço necessário para a memorizar. A fotografia funciona como uma espécie de ‘disco externo’. Em vez de consolidar a experiência na memória, assumimos, ainda que de forma inconsciente, que ela permanecerá disponível na galeria do telemóvel.É um mecanismo semelhante ao que acontece com os contactos telefónicos ou com os sistemas de navegação. Já poucos decoram números de telefone ou trajetos porque sabem que podem recuperá-los a qualquer momento. Com as memórias visuais parece estar a acontecer exatamente o mesmo.Uma geração que vive através da câmaraA investigação ajuda a compreender comportamentos que se tornaram quase automáticos.Num concerto, muitas pessoas assistem ao espetáculo através do ecrã do telemovel. Numa viagem, a preocupação com a fotografia perfeita pode ocupar mais tempo do que a própria contemplação da paisagem. À mesa, o prato é fotografado antes de ser provado.O problema não está na fotografia em si, mas e na atenção que lhe dedicamos. Quanto maior for a preocupação em documentar uma experiência, menor tende a ser a disponibilidade mental para a viver plenamente. A memória depende da atenção, e a atenção torna-se um recurso dividido entre o momento e o dispositivo que o está a registar.Fotografar continua a fazer sentidoOs autores fazem, no entanto, uma ressalva importante. As conclusões do estudo não significam que devemos deixar de tirar fotografias. As imagens continuam a desempenhar um papel importante na construção da memória autobiográfica e permitem revisitar momentos anos mais tarde.O alerta dirige-se antes ao excesso. Na era dos smartphones, fotografar tornou-se um reflexo. Muitas vezes acumulamos dezenas de imagens praticamente iguais que nunca mais voltaremos a abrir. O verdadeiro paradoxo da fotografia digital é esse. Nunca produzimos tantos registos da nossa vida. Nunca tivemos galerias tão cheias. E, ainda assim, talvez nunca tenhamos dependido tanto delas para recordar aquilo que, por estarmos demasiado ocupados a fotografar, acabámos por não viver completamente.O conteúdo Fotografar para recordar. Ou para esquecer? aparece primeiro em Revista Líder.