Alice Gonçalves: «Existe quase um ‘bullying’ contra os artistas que tentam viver da sua arte»

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Apesar do reforço do investimento público na cultura nos últimos anos, a precariedade continua a marcar uma parte significativa do setor artístico. O financiamento público à cultura tem aumentado, mas persistem sinais de fragilidade laboral no setor: em 2024, mais de metade dos artistas e escritores em Portugal trabalhava por conta própria, de acordo com o Eurostat.É com base nesta realidade que Alice Gonçalves fundou a Comunidade Artistas Inteligentes, que engloba aulas, consultoria e apoio jurídico para profissionais do setor. O objetivo é que esta comunidade ensine literacia económica, gestão de negócio, contratualização e estratégias a longo prazo, num sistema que a fundadora classifica como desenhado para financiar a sobrevivência de projetos de curto prazo e não para construir carreiras sustentáveis.Com um background artístico e jurídico, Alice já acompanhou diretamente 1.438 artistas e agentes culturais, estando também a impulsionar o Fórum Nacional de Artes e Cultura, um serviço público gratuito dedicado a criar um espaço estruturado de esclarecimento, partilha e acesso a informação especializada de arte. Nesta entrevista à Líder, faz um raio-X ao setor das artes em Portugal e explica porque deve o artista pensar como criador, mas atuar no mercado como um estratega.Como vê Portugal para os artistas em 2026? Qual é o atual panorama do setor cultural?Estou otimista em relação às mudanças que a Ministra da Cultura, Juventude e Desporto de Portugal tem vindo a introduzir. Ela não vem diretamente do setor cultural, mas do Direito Administrativo, o que considero uma vantagem. Não tem lobbies com grupos de interesse e pode olhar para o setor artístico no geral e perguntar: «O que é que não está a funcionar?». É jovem e parece vir com muita força e vontade de fazer as coisas funcionarem.Uma das últimas medidas anunciadas foi a revisão da Lei do Mecenato, que era muito antiga e pouco atrativa. Até agora, apenas entidades sem fins lucrativos e com estatuto de utilidade pública podiam candidatar-se aos benefícios fiscais associados ao mecenato. Muitas vezes, nem os próprios projetos artísticos eram elegíveis. Com as alterações, qualquer associação ou artista poderá ser elegível e os próprios projetos poderão beneficiar do mecenato.Ainda não conheço a plataforma que vai operacionalizar este sistema, mas está previsto que as empresas possam registar-se, identificar as áreas que pretendem apoiar e consultar os projetos que procuram financiamento. Penso que será quase como um Tinder, cruzando empresas e projetos com interesses comuns, com mais fluidez, o que é ótimo.Portugal precisa de uma certa fluidez na burocracia.Também está em revisão o Estatuto dos Profissionais da Cultura. O modelo anterior não trouxe benefícios significativos e acabou por não ser verdadeiramente adotado pelos artistas. Para se inscreverem, tinham de fazer descontos, mas o principal benefício previsto era um subsídio semelhante ao de desemprego, que só podia ser pedido uma vez e durante um período limitado. Muitos artistas sentiam que estavam a descontar para um sistema do qual dificilmente beneficiariam.Espero que esta revisão consiga integrar a atividade artística enquanto profissão, com direitos e deveres claramente definidos. É essencial que o Estatuto dos Profissionais da Cultura tenha uma utilidade efetiva e não seja apenas mais um documento sem aplicação prática. Estou otimista, mas quero perceber como estas medidas vão funcionar no terreno. Já integrou Comissões de Apreciação e Acompanhamento da DGArtes. A partir da sua experiência atual como consultora, que fragilidades identifica no modelo de financiamento público da cultura?Já não integro essas comissões e atualmente, acompanho centenas de projetos enquanto consultora e posso falar a partir dessa experiência.O financiamento público pode sempre ser melhorado, mas o principal problema é termos uma fatia muito pequena para distribuir por um setor muito vasto. É natural que surjam críticas, independentemente da forma como o dinheiro é distribuído.O que falta verdadeiramente em Portugal é um setor cultural económico e estratégico. Se tivéssemos uma economia da cultura mais dinâmica, haveria menos candidaturas aos apoios públicos.O financiamento do Estado poderia ficar reservado para projetos de verdadeiro interesse público, ligados às comunidades, aos territórios, à inclusão social ou a áreas que não têm necessariamente viabilidade comercial.Enquanto não existir uma economia cultural estruturada, os artistas continuarão dependentes de subsídios e dos apoios públicos. A revisão da Lei do Mecenato poderá ajudar a colocar algumas engrenagens em movimento, mas será muito difícil acabar com a subsidiodependência sem criar um setor económico forte. Que instrumentos são necessários para construir carreiras artísticas mais sustentáveis? O que precisa de mudar?As escolas artísticas deviam incluir disciplinas de literacia económica, gestão, contratualização e apoio jurídico aplicado às artes. No entanto, estas lacunas não existem apenas nas artes. Também não ensinamos estas ferramentas nas áreas da comunicação, do desporto ou em muitas outras profissões.Existe, porém, uma responsabilidade adicional do próprio artista. Há uma certa dormência e desresponsabilização, como se todas as ferramentas tivessem de ser fornecidas por alguém. Os artistas também precisam de procurar conhecimento.Muitos não se veem como empreendedores, mas, a partir do momento em que desenvolvem uma carreira a solo, são empresários em nome individual, ainda que não gostem dessa designação. Têm uma atividade, prestam serviços, vendem obras, negoceiam contratos e precisam de gerir receitas e despesas.Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que o setor artístico foi maltratado e marginalizado durante muitos anos. Criou-se uma espécie de cultura da ‘miserabilidade’, baseada na imagem romântica do artista pobre e sofredor. Essa ideia continua presente dentro do próprio meio artístico. Quem procura ferramentas de negócio ou tenta construir uma carreira economicamente sustentável é, por vezes, acusado de se ter vendido.Já tive clientes que me disseram: «Eu quero trabalhar consigo, mas não diga a ninguém». Têm medo de ser criticados pelos colegas por procurarem apoio estratégico ou empresarial.Existe quase um bullying contra os artistas que tentam aprender a viver financeiramente da sua arte.A sociedade também contribui para este problema. Muitas pessoas acham natural não pagar a um artista ou pagar-lhe por baixo da mesa. Como os profissionais estão em situação de fragilidade, acabam por aceitar valores muito baixos. É uma pescadinha de rabo na boca: a sociedade desvaloriza o artista, o artista aceita essa desvalorização por necessidade e o ciclo repete-se. Por onde se deve começar a transformar esta realidade?Não existe um único ponto de partida. É necessário atuar em várias frentes simultaneamente. É preciso haver mais pessoas disponíveis para falar sobre estes assuntos e para discutir abertamente estas questões com artistas, produtores e estruturas culturais. Este é um setor pequeno, mas extremamente competitivo, precisamente porque os recursos disponíveis são escassos. Por vezes, há resistência à entrada de novas pessoas e novas ideias.Quando comecei a trabalhar nesta área, um grupo que reunia cerca de cem produtores independentes enviou-me um email muito agressivo, acusando-me de estar a roubar-lhes trabalho. Na realidade, o meu objetivo era precisamente dar ferramentas aos artistas para que conseguissem trabalhar melhor com produtores, programadores e outros profissionais.Quem entra neste meio encontra adversidades. É preciso ter um sentido de missão muito forte para não desistir. Temos de mudar mentalidades, identificar publicamente o que está mal e criar instrumentos que funcionem. Também é necessário explicar melhor as leis e tornar os processos mais simples e acessíveis. A mudança terá de acontecer em várias frentes. Que percurso a levou a criar a Comunidade Artistas Inteligentes e o Fórum Nacional de Artes e Cultura?A minha formação é em Direito, mas sempre tive uma forte ligação às artes. Interesso-me por Filosofia, dança, teatro e literatura. Quando terminei o ensino secundário, pensei estudar Filosofia, mas os meus pais não consideraram que fosse uma escolha segura. Acabei por seguir Direito.Fiz estudos de pós-graduação e cheguei a considerar a magistratura. Frequentei o estágio da Ordem dos Advogados e preparei-me para exercer advocacia. Paralelamente, porém, queria experimentar-me como coreógrafa ou professora de arte. Houve um momento em que pensei: «É agora ou nunca.»Comecei a desenvolver projetos artísticos com um grupo de pessoas e participei num concurso destinado a distinguir jovens criadores. O projeto foi reconhecido e isso mostrou-me que talvez houvesse ali alguma coisa. Pouco antes do exame final da Ordem dos Advogados, abandonei o estágio e segui a carreira artística.Passei por várias áreas das artes performativas e consegui alcançar alguma independência económica através do meu trabalho artístico. Não aconteceu por ser mais talentosa do que os outros, mas porque tinha ferramentas que muitos artistas não possuíam. Sabia negociar, redigir propostas, compreender os meus direitos e deveres e preparar candidaturas.Com o tempo, percebi que ser apenas artista já não me satisfazia. Queria fazer mais pelo setor. Comecei a trabalhar como programadora e desenvolvi projetos relacionados com política, democracia, artes e serviço público, alguns apoiados pela DGArtes.Mais tarde, abri a minha atividade como consultora. A Comunidade Artistas Inteligentes nasceu da união destes dois lados do meu percurso: a experiência artística e o conhecimento jurídico, estratégico e de gestão.Que impacto tem tido a Comunidade e que resposta recebeu por parte do setor?A reação inicial foi avassaladora. Houve respostas muito positivas, mas também bastante resistência. A procura cresceu rapidamente e o projeto passou a ocupar praticamente todo o meu tempo. Entretanto, fiz uma pós-graduação em Gestão Empresarial para reforçar esta componente do trabalho.A Comunidade tem um modelo assente numa adesão de valor simbólico, pensada para ser acessível. Os membros podem participar em duas mentorias mensais e aceder a oportunidades de exposição, aprendizagem e colaboração.Ao mesmo tempo, prestamos serviços personalizados a fundações, associações e empresas com capacidade para os financiar. Ajudamos, por exemplo, na preparação de candidaturas, na identificação de financiamento e no mapeamento de oportunidades nacionais e internacionais. É esta componente que permite sustentar economicamente o projeto sem abandonar a sua missão.Em cerca de um ano e meio, acompanhámos aproximadamente 1.400 artistas. A página de Instagram chegou aos dez mil seguidores em menos de um ano. Estes números não significam necessariamente que estejamos a prestar um serviço extraordinário. Mostram, sobretudo, que existia uma necessidade enorme à qual ninguém estava a responder. Como funciona o Fórum Nacional de Artes e Cultura e que objetivos pretende alcançar?O Fórum começou dentro da Comunidade Artistas Inteligentes. Os membros colocavam questões e eu ou um dos meus colaboradores respondíamos. Percebemos, depois, que fazia sentido abrir esse espaço a toda a comunidade artística.Atualmente, qualquer artista pode participar gratuitamente, colocar dúvidas, conversar com outros profissionais e partilhar informação. O objetivo é criar opinião, promover a entreajuda e desenvolver um maior sentido de classe.Ainda não é utilizado tanto quanto poderia, porque existe uma barreira de mentalidade. Os artistas não estão habituados a pedir ajuda nem a utilizar este tipo de ferramentas. Por isso, não basta criar o espaço: é preciso construir o hábito de participação.Na Comunidade já vemos os resultados dessa proximidade. Os membros encontram-se nas reuniões e mantêm contacto através de grupos de WhatsApp. A partir daí, começam a surgir exposições, projetos e colaborações que já não dependem diretamente de mim. Há um mundo de possibilidades que se abre quando os profissionais começam a falar uns com os outros. A Comunidade pode ajudar a colmatar as falhas de formação existentes? Vê espaço para colaborar com escolas, municípios ou outras entidades públicas?Na Comunidade ensinamos ferramentas que permitem aos artistas proteger e desenvolver o seu trabalho, sem alterar a sua essência. Não queremos transformar os artistas em profissionais comerciais ou fazer com que abandonem a sua identidade.Pelo contrário: quanto mais singular for o trabalho de um artista, maior poderá ser o seu valor. O que procuramos é ajudá-lo a preservar essa singularidade e, simultaneamente, a encontrar instrumentos que lhe permitam construir um mercado e uma carreira sustentável. Já existem associações que nos convidam para dar sessões de formação. Também voltámos a colaborar com a Lisboa Cultura. Sente-se uma procura crescente por este tipo de conhecimento.Acredito que o Estado, as Câmaras Municipais e as Juntas de Freguesia poderiam criar estruturas locais de apoio. Não é necessário ter uma equipa permanente em todos os territórios. Poderiam contratar, por exemplo, um consultor com conhecimentos de gestão, Direito e artes para acompanhar regularmente as comunidades artísticas locais.Seriam pequenos polos de apoio, próximos dos artistas, onde estes pudessem esclarecer dúvidas, compreender os seus direitos e receber orientação. Às vezes, bastaria uma sessão mensal para produzir um impacto significativo. Como tem sido o seu percurso artístico e como surgiram colaborações como a performance Temporary Palace, criada com os Massive Attack?Como artista, utilizava muito o corpo porque era o instrumento artístico que dominava através da dança. Gostaria de saber pintar e estou agora a aprender, mas, naquele momento, o corpo era a ferramenta com que conseguia trabalhar.O meu processo criativo era muito visual. Imaginava o corpo de forma cinematográfica, quase tridimensional, como se fosse uma pintora. Ao mesmo tempo, utilizava-o para denunciar a forma como o corpo feminino foi historicamente objetificado por homens — utilizado arbitrariamente por pintores, realizadores e outros criadores.As colaborações surgiam muito através da minha capacidade de negociar, explicar o trabalho e identificar as pessoas ou organizações que poderiam interessar-se por ele. Foi assim que construí redes, relações profissionais e amizades que abriram caminho a projetos conjuntos. Perante as guerras, as crises políticas e os problemas sociais, a arte está a assumir uma dimensão mais ativista?A arte sempre foi um dos grandes veículos universais de transformação e expressão. Tem uma capacidade extraordinária para detetar falhas na sociedade e, por vezes, antecipar o futuro. Os artistas devem ocupar um lugar especial na sociedade precisamente porque conseguem mostrar aquilo que ainda não estamos preparados para ver.Do ponto de vista de mercado, também é mais fácil captar atenção quando a obra aborda temas políticos ou sociais. É o que acontece com artistas como Banksy ou Bordalo II, cujos trabalhos se relacionam diretamente com questões contemporâneas.Isso não significa, contudo, que os artistas que não trabalham temas políticos ou sociais tenham menos mérito. Um artista pode dedicar-se exclusivamente a pintar chapéus de chuva, por exemplo, e o desafio passa por perceber como pode crescer, tornar-se relevante e construir uma carreira a partir desse universo tão específico.É esse trabalho de posicionamento que também me interessa: perceber como se preserva a identidade artística e, ao mesmo tempo, se constrói relevância e sustentabilidade.O conteúdo Alice Gonçalves: «Existe quase um ‘bullying’ contra os artistas que tentam viver da sua arte» aparece primeiro em Revista Líder.