O irmão de Guto Silva (ao centro na foto em destaque), que comandou a Casa Civil e a Secretaria das Cidades do governo Ratinho Jr. no Paraná, está por trás da Associação Catarinense de Gestão Hospitalar, Conhecimento e Assistência Social (CHC) na concorrência por um contrato de R$ 95 milhões para gerir o Hospital Veterinário Público do Distrito Federal (Hvep).A CHC é uma entidade sem fins lucrativos, que gere hospitais de saúde humana e animal. A empresa tem convênios com o Ministério do Meio Ambiente (MMA) para programas de castrações e instalação de microchipagem em gatos e cachorros, no Paraná e em São Paulo, com recurso de emenda parlamentar. Leia também São PauloGoverno Lula apura associação suspeita de castrar cães fantasmas em SP São PauloDeputado manda R$ 12 milhões a entidade suspeita de castrar cães fantasmas São PauloDeputados da causa pet enviam emenda para entidade investigada no Sul São PauloClínica de alvo da PF foi contratada com emenda de deputado em SP João Paulo Silva, irmão de Guto, foi a uma reunião do chamamento público para gerir o hospital como representante da CHC em 15 de julho, que ocorreu no auditório da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMA), na Asa Norte, em Brasília.No dia 28 daquele mês, ele foi sozinho à visita técnica no Hvep. Uma outra concorrente fez a visita no dia seguinte, em uma comitiva de cinco pessoas, incluindo dois veterinários. Os dados constam na lista de presença anexada aos documentos do edital.Em junho, o Metrópoles revelou que boa parte dos microchips instalados pelo programa Castra + levavam à identificação de animais inexistentes. De 500 microchips analisados, apenas 61 constavam os nomes dos tutores e, mesmo assim, em muitos casos os dados apresentados eram suspeitos.Os problemas nos cadastros vão além disso: há tutores registrados com nomes pouco usuais para humanos, como o Samsung A14.Os registros feitos à mão, na hora da castração, também não correspondem ao cadastro nacional de animais domésticos. Em Pardinho, no interior paulista, a cachorra Quiara foi registrada, conforme a ficha escrita à mão, pelo tutor Leonardo, sem sobrenome.O microchip da cadela, porém, está vinculado a um cão chamado Bolsonaro 17, e o tutor apontado é a própria clínica que deveria ter feito a castração com recurso público.No balanço patrimonial da empresa, apresentado para montar o convênio em São Paulo, há uma explosão de faturamento. Em dois anos, a empresa aumentou quase seis vezes a sua receita. Em 2022, eram R$ 4,5 milhões, e, em 2024, R$ 25,2 milhões.Após o caso ser revelado pelo Metrópoles, o Ministério do Meio Ambiente abriu uma auditoria para investigar a CHC, já que a empresa está conveniada com o governo federal.Agora, a CHC deve enviar uma proposta para gerir o Hospital Veterinário do DF até as 17h desta segunda-feira (10/8). A comissão de seleção tem 20 dias para analisar as propostas e, depois, abre-se um prazo de cinco dias para recursos.ONG nega vínculoAo Metrópoles, a CHC nega que João Paulo Silva trabalhe na entidade. Por meio da assessoria de imprensa, a associação afirmou que se trata de uma etapa preliminar do chamamento público e, por isso, a entidade teria a prerrogativa de indicar uma pessoa sem poder de decisão.“João Paulo Silva foi indicado pontualmente por residir em Brasília, evitando os custos de deslocamento e hospedagem de um profissional da CHC vindo de Santa Catarina ou de outro estado. A presença nessa etapa não exige qualificação técnica específica, uma vez que toda a análise das informações e o acompanhamento das etapas posteriores são realizados pela equipe técnica da CHC, a partir de sua sede, em Santa Catarina”, afirma.No entanto, nas redes sociais, a CHC postou um vídeo do “Summit da CHC”, descrito como um evento para os funcionários da entidade “pensado totalmente desenvolvido para o nosso time administrativo interno”. João Paulo Silva estava no evento que aconteceu em Santa Catarina.A empresa também negou qualquer conflito de interesses. No Paraná, a CHC tem contrato nos hospitais veterinários de Curitiba e Londrina, que são estruturas geridas pelos municípios. Ela também opera o Castra +, mesmo programa que fez castrações fantasma em São Paulo. O vínculo, neste caso, é com o governo federal.“A CHC ressalta ainda que Guto Silva, irmão de João Paulo, exerceu o cargo de secretário no Governo do Paraná, em pasta que não possui qualquer relação com o órgão do Distrito Federal responsável pelo chamamento mencionado. A entidade também não mantém contrato com o Governo do Estado do Paraná”, explica.Questionado, João Paulo Silva disse que participou do chamamento público em nome da entidade por uma questão logística, já que mora em Brasília. Quanto a participação do evento em Santa Catarina, estado onde fica a sede da CHC, ele afirmou que foi como um convidado, assim como vários outros.Quem é Guto SilvaAo longo do governo de Ratinho Jr. à frente do Palácio do Iguaçu, Guto Silva foi apontado por muitos como sucessor do atual governador. Ambos são filiados pelo PSD.No primeiro mandato, ele era secretário-chefe da Casa Civil. Depois, foi para Secretaria das Cidades, uma das pastas com mais investimento na gestão Ratinho.Em 4 de abril, ele pediu para sair do cargo, na esperança de ser candidato ao governo estadual. No entanto, ele acabou preterido por Sandro Alex (PSD), anunciado menos de 10 dias depois, como candidato do governador Ratinho Jr.Guto Silva também tentou pleitear uma vaga ao Senado, mas no início de agosto, Cristina Graeml (PSD), foi escolhida por Ratinho Jr., fechando as portas para Guto.Ele enviou uma mensagem de despedida e saiu de grupos com políticos. “Estou triste pelo desfecho, mas de cabeça erguida. Por 18 anos me preparei, estudei e caminhei com a vontade genuína de colocar essa bagagem em uma eleição majoritária e fazer a diferença na vida de todos. Por duas vezes, os rumos da política não permitiram que essa candidatura se concretizasse. São coisas da vida pública”, disse.