O que Javier Milei ganhou com o circo armado por seu discurso na convenção do PL que escolheu Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência? Que vantagens Flávio obteve com esse pronunciamento do líder argentino, marcado por impropérios? Quais foram os prejuízos para Lula? Noves fora, nada. Tudo continuou como dantes no velho quartel do general.Embora ainda não haja pesquisas suficientes para medir o impacto da visita, é provável que o longo discurso de Milei, que roubou a cena na convenção do PL, tenha servido principalmente para lavar a alma dos bolsonaristas convertidos e irritar os lulistas já engajados nos planos de reeleição. Os eleitores indecisos, que deveriam ser o principal alvo dos candidatos para ganhar pontos nas intenções de voto, talvez tenham permanecido indiferentes. Ou será que alguém decidiu o voto por causa dessa fala surpreendente do libertário?Um moleque encrenqueiroTive um amigo de infância que era um encrenqueiro contumaz. Estava sempre à frente das confusões. Xingava o pessoal da turma do bairro rival, jogava pedras nas vidraças, tacava fogo nas latas de lixo e tocava a campainha das casas. Embora fosse o causador dessas balbúrdias, era também o primeiro a fugir da encrenca.Parece que Milei leu a cartilha desse pirralho. Veio ao Brasil para apoiar o lançamento da candidatura de Flávio e tentar visitar Jair Bolsonaro. Alexandre de Moraes não autorizou que se encontrasse com o ex-presidente, o que talvez tenha sido interpretado pelo chefe do Executivo argentino como menosprezo. É possível que imaginasse que o cargo pudesse abrir as portas da casa de Bolsonaro.Milei bateu pesadoTalvez tenha se sentido desconsiderado e aproveitado o espaço que lhe foi concedido no evento para se vingar, falando tudo o que lhe veio à cabeça. Não é comum que o presidente de um país visite outra nação para fazer um discurso tão ofensivo contra o líder do país que o recebeu e um ministro da mais alta Corte. Puxei pela memória e não encontrei nenhum exemplo semelhante.Assim como os políticos de um ou de outro lado, também a imprensa analisou o comportamento de Milei a partir do prisma de suas preferências. Os partidários de Lula criticaram bastante o discurso do presidente argentino, enquanto os bolsonaristas agiram de forma diversa.A leitura de cada ladoOs comentaristas mais alinhados à oposição relembraram episódios em que Lula manifestou apoio claro e ostensivo a candidaturas estrangeiras, como as de Hugo Chávez, Cristina Kirchner e Kamala Harris. Recordaram ainda que Alberto Fernández, quando candidato à Presidência da Argentina, em 4 de julho de 2019, visitou Lula em Curitiba, onde cumpria pena na sede da Polícia Federal.Já os mais simpáticos ao governo foram muito críticos. Disseram que Milei ultrapassou todos os limites. Que, na condição de chefe de Estado, não poderia ter sido tão insultuoso em um evento que oficialmente lançava uma candidatura à Presidência do país. Afirmaram que suas palavras foram vitupérios e representaram interferência nos assuntos internos de uma nação vizinha. Aproveitaram para dizer que, simbolicamente, tanto Milei quanto Flávio colocaram seus objetivos pessoais acima dos interesses dos países que representam.Arrumou confusão e bateu em retiradaEmbora esses críticos reconhecessem que Lula também apoiou candidaturas de outros países, talvez até para refutar possíveis objeções, enfatizaram que nada se compara ao que foi protagonizado por Milei. Há precedentes de Lula apoiando candidaturas estrangeiras, mas a forma, o vocabulário e o contexto do discurso do presidente argentino deram ao episódio outra dimensão.E foi assim. Depois de atirar pedras nas vidraças, xingar a turma da rua de baixo, tacar fogo nas latas de lixo e tocar algumas campainhas para irritar os moradores, Milei voltou rapidamente para casa, deixando por aqui um rastro de polêmicas e controvérsias que poderão inflamar ainda mais o início da corrida presidencial.Talvez não haja consequênciasResta saber se esses fatos poderão produzir consequências mais duradouras entre os dois países. O governo brasileiro chamou seu embaixador em Buenos Aires para consultas e convocou o representante argentino em Brasília para receber o protesto e apresentar explicações.O governo argentino, por sua vez, afirmou não esperar prejuízos às relações diplomáticas ou comerciais. O porta-voz da Presidência, Adrián Ravier, declarou na terça-feira, 28, que “sempre houve insultos de ambos os lados” e sustentou que a Argentina nunca levou essas diferenças para o âmbito diplomático.A declaração, acompanhada da ressalva de que ele poderia responder apenas pelo lado argentino, não garante que a controvérsia esteja encerrada, mas reforça a impressão de que não há interesse em prolongar a disputa beligerante. É mais uma indicação de que o governo de Milei pretende colocar panos quentes na crise.Como dizia Jânio Quadros, inspirado nas palavras de outros políticos, entre países não há amizade, mas conveniências. E, como cada um deseja continuar vendendo e comprando do outro, em pouco tempo, só alguns se lembrarão do episódio. Brasília e Buenos Aires voltarão suas energias para resolver os problemas do próprio quintal. E não são poucos. Siga pelo Instagram: @polito