Durante três semanas, a Fazenda Serrinha, em Bragança Paulista (SP), voltou a reunir artistas, pesquisadores, educadores e visitantes em torno de uma mesma experiência: pensar as relações entre arte, natureza e modos de habitar o mundo. Em sua 24ª edição, o Festival Arte Serrinha teve residências artísticas, oficinas, apresentações musicais, cinema, literatura, artes visuais e debates, reafirmando seu lugar como um dos mais longevos e consistentes encontros dedicados ao diálogo entre cultura e regeneração ambiental. Neste ano, o conceito “Portunhol Selvagem”, inspirado na obra do poeta Douglas Diegues, guiou a programação ao aproximar diferentes saberes latino-americanos por meio do cruzamento de línguas, territórios e expressões artísticas.Entre os destaques estiveram a oficina de cerâmica conduzida por representantes do povo Mapuche, do Chile, que incluiu a construção coletiva de um forno de bioconstrução para a queima das peças produzidas pelos participantes, e as masterclasses ministradas pelos músicos convidados da banda Portunhol Selvagem. Vindos de diferentes países da América Latina, eles apresentaram as tradições musicais de seus territórios, compartilharam histórias sobre seus instrumentos e aproximaram o público da diversidade de ritmos, sonoridades e expressões culturais que marcaram esta edição do festival.Localizada em uma área de Mata Atlântica em recuperação, a fazenda está inserida na Serra da Mantiqueira e preserva vestígios de diferentes ocupações humanas. “Perto daqui tem inscrições rupestres, de população originária”, lembra o artista visual, curador e proprietário do espaço, Fábio Delduque, ao destacar que a história do lugar começa muito antes da criação da propriedade. Ao longo do ano, o local promove vivências, oficinas, residências artísticas, trilhas e atividades de educação ambiental que aproximam visitantes da floresta e de seus processos de regeneração. É lá que também está o Parque Natural Arte Serrinha, um dos pioneiros do Brasil na integração entre arte contemporânea e paisagem natural, reunindo obras permanentes e intervenções que convidam o público a experimentar o território de forma sensível.Fábio Delduque. Foto: Divulgação | Fazenda SerrinhaA história da família Delduque se confunde com a da própria Serrinha. Frequentador do lugar desde criança e hoje responsável por conduzir sua transformação, Fábio assumiu o desafio de dar novos sentidos a um patrimônio herdado, convertendo uma antiga propriedade rural que abrigava uma plantação de café em um espaço de criação artística, educação ambiental e restauração da paisagem. Ele conta que seu bisavô, Benedicto Moreira, foi prefeito de Bragança Paulista por três mandatos, integrou o movimento abolicionista e inspira, de alguma forma, seu compromisso com o respeito ao lugar. “Não cheguei a conhecê-lo. Ele fundou jornal, clube literário… estamos mudando um pouco o rumo, mas seguindo seu legado de alguma forma…”, diz. Se antes a atuação da família esteve voltada à vida pública e à cultura, hoje esse legado se traduz no cuidado com a floresta, na criação artística e na formação de pessoas. Espalhadas pelo espaço, obras de artistas brasileiros e internacionais convivem com áreas restauradas, resultado de um processo que já recuperou dezenas de hectares e promoveu o plantio de cerca de 80 mil árvores. O trabalho também se estende ao Instituto Serrinha, responsável por articular iniciativas permanentes nas áreas de cultura, educação ambiental, pesquisa e cooperação internacional. Idealizado por Fábio Delduque no início dos anos 2000, o festival nasceu desse movimento de regeneração, propondo que arte e natureza crescessem juntas e se fortalecessem mutuamente. A Serrinha possui 120 hectares, dos quais cerca de 50 foram reflorestados. A recuperação das áreas acontece em parceria com programas de compensação ambiental e pagamento por serviços ecossistêmicos. “Cadastramos a área que queremos reflorestar, quem precisa repor por algum motivo planta aqui e aí cuida, faz a gestão, por uns cinco anos”, explica Delduque. Pela primeira vez, a propriedade também passou a receber recursos pela manutenção da floresta em pé. “Recebemos pagamento por serviço ambiental. É o primeiro reconhecimento pelo trabalho que realizamos.”, complementa.Foto: Karina Lumina | DivulgaçãoA ideia de conciliar ocupação humana e conservação também orienta a ecovila implantada por lá. Dos 18 lotes, 15 já são ocupados por moradores, muitos deles artistas e profissionais da cultura, que compartilham regras de convivência voltadas ao cuidado compartilhado do território. “Tem muitos artistas e um style Serrinha de ser”, brinca Delduque. Para ele, a experiência mostra que é possível viver em comunidade sem romper a relação com a floresta. A preservação da área tornou-se ainda mais significativa diante do avanço dos condomínios no entorno. “No fundo a gente tá criando uma ilha. Em volta é tudo condomínio. O nosso bairro foi o único que conseguiu ser mantido como zona rural, isso segurou a especulação imobiliária.” Último dia de FestivalCriada ao longo de pouco mais de uma semana de residência artística dirigida pelo pianista, compositor, arranjador e produtor musical Benjamim Taubkin, a principal atração do encerramento foi a apresentação Portunhol Selvagem. Músicos dos países latino-americanos dividiram o palco em um espetáculo construído coletivamente, refletindo na prática o espírito do festival. “Foram nove dias de trabalho. Quando você gosta do que faz, o trabalho é um privilégio. Nove dias de privilégio”, resumiu Taubkin sobre a experiência de formação da banda temporária. Antes do concerto, o público acompanhou a Fiesta Muvuca – Movimento 3 da obra SOLO ≠ ∞, uma performance-plantio que transformou o ato de cultivar um jardim em expressão artística, reforçando a relação entre criação e cuidado com a terra. Banda Portunhol Selvagem. Foto: Karina Lumina | DivulgaçãoDepois de dedicar esta edição aos encontros culturais latino-americanos, o festival já volta o olhar para o futuro. Em 2027, a água será o eixo da programação, ampliando o diálogo internacional e convidando artistas, pesquisadores e comunidades a refletirem sobre um dos elementos mais essenciais, e ameaçados, na contemporaneidade. Mais sobre a Fazenda Serrinha: https://fazendaserrinha.com.br/The post Festival Arte Serrinha celebra cultura e regeneração appeared first on CicloVivo.