Os dados da violência costumam responder quantos, onde e quando os crimes acontecem. Mas nem sempre revelam quem está mais exposto à violência.Um levantamento obtido por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) lança luz sobre esse recorte: em São Paulo, milhares de estrangeiros continuam sendo vítimas de roubos e furtos todos os anos. E, por trás dessas estatísticas, estão pessoas que chegaram ao Brasil para trabalhar, empreender, estudar ou simplesmente recomeçar a vida.Os dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP), mostram que, entre janeiro e maio de 2026, foram registrados 3.711 roubos e furtos contra estrangeiros em todo o estado. No mesmo período de 2025, haviam sido contabilizadas 4.071 ocorrências. A redução é de quase 9%, mas ainda representa milhares de vítimas em apenas cinco meses.Os bolivianos permanecem como a nacionalidade mais atingida, com 737 registros. Leia mais Ventos fortes causam cinco mortes em São Paulo e Rio de Janeiro Caminhoneiro morre após esposa contratar bandidos para "susto" por traição Campos de "favo de mel" são descobertos pela Nasa em Marte Em seguida aparecem os chineses, com 262 ocorrências. Já os venezuelanos chamam atenção por serem o único dos principais grupos a registrar aumento no período analisado: passaram de 221 vítimas em 2025 para 233 em 2026.Na avaliação da advogada criminalista Patricia Vega, boliviana, especialista em Direito Migratório e atuante no atendimento à comunidade imigrante em São Paulo, os números refletem, em primeiro lugar, o tamanho dessas comunidades no estado.“Os bolivianos são a maior comunidade de imigrantes em São Paulo, seguidos pelos chineses. Isso naturalmente faz com que apareçam mais nas estatísticas.”Mas ela acredita que há outro fator que ajuda a explicar por que essas comunidades permanecem tão vulneráveis.Segundo Patricia, ainda existe entre criminosos a falsa percepção de que imigrantes costumam guardar dinheiro em espécie dentro de casa.“Hoje essa realidade mudou completamente. A maioria dos imigrantes possui conta bancária, ainda que digital.Com apenas o CPF e o documento do país de origem, eles conseguem abrir uma conta.Pouquíssimas pessoas ainda guardam dinheiro em casa.É uma percepção equivocada e desatualizada da criminalidade.”A distribuição geográfica das ocorrências também ajuda a compreender esse cenário.Das 3.711 ocorrências registradas no estado, 2.901 aconteceram na cidade de São Paulo, o equivalente a cerca de 78% do total.O Brás concentra o maior número de registros, com 353 ocorrências. O bairro abriga uma das maiores comunidades de imigrantes da capital, especialmente bolivianos, e também é um dos principais polos comerciais do país, com intensa circulação de comerciantes e consumidores.Na sequência aparecem Pinheiros, com 149 registros, e a Bela Vista, com 90.A análise dos endereços dos boletins de ocorrência mostra que a violência patrimonial não se concentra apenas nas regiões onde vivem os imigrantes. Entre os locais com maior número de registros também aparecem pontos turísticos e de grande circulação, como a Avenida Paulista, Praça da Sé, Avenida Ipiranga, ruas tradicionais da Vila Madalena e a Avenida Pedro Álvares Cabral, onde ficam o Parque Ibirapuera e o Monumento às Bandeiras.Os dados revelam que a violência patrimonial atinge perfis diferentes de estrangeiros. De um lado, turistas que acabam tendo a viagem marcada por um roubo ou furto em alguns dos principais cartões-postais da cidade. De outro, imigrantes que vivem e trabalham em São Paulo e que, muitas vezes, perdem documentos, ferramentas de trabalho ou parte das economias construídas para recomeçar a vida no Brasil.Mas a vulnerabilidade não termina no momento do crime.Segundo Patricia Vega, registrar um boletim de ocorrência ou buscar atendimento também pode ser um desafio para quem não domina o português. Ela explica que, além da sobrecarga das delegacias, uma mudança recente no sistema da Polícia Civil criou uma barreira adicional para muitos estrangeiros.“Hoje o boletim de ocorrência eletrônico exige acesso à conta Gov.br. Imagine um imigrante que não fala português tentando fazer esse procedimento sozinho. Isso acaba sendo um grande impeditivo para registrar a ocorrência.”O medo também afasta muitos estrangeiros das autoridades.De acordo com a advogada, ainda existe receio de que o registro de uma ocorrência chame a atenção para alguma pendência migratória ou trabalhista, mesmo quando a pessoa é vítima de um crime.“Existe o medo de deportação, de represálias ou de que o registro da ocorrência acabe expondo alguma irregularidade administrativa. A barreira do idioma também pesa muito. Ela dificulta não apenas a comunicação do crime, mas o acesso a diversos serviços públicos.”Essa realidade faz com que muitos imigrantes recorram primeiro às próprias comunidades antes de procurar ajuda oficial.“Os bolivianos procuram bolivianos, os chineses procuram chineses. Existe uma relação de confiança, mas também a facilidade do idioma.”Há cerca de um ano, dois casos envolvendo vítimas bolivianas chamaram atenção em São Paulo e levantaram suspeitas de que criminosos estariam mirando integrantes dessa comunidade. Embora os dados não permitam concluir que exista uma atuação direcionada contra determinadas nacionalidades, eles mostram que alguns grupos aparecem de forma recorrente entre as principais vítimas e evidenciam como fatores sociais e estruturais podem ampliar a exposição à violência.Para Patricia Vega, reduzir essa vulnerabilidade passa, antes de tudo, por ampliar o acesso à informação.“Os imigrantes precisam conhecer os direitos que têm no Brasil e saber como acessar os serviços públicos. A comunicação precisa ser simples, direta e chegar a cada comunidade.”Os dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que os roubos e furtos contra estrangeiros diminuíram em relação ao ano passado. Mas eles também revelam um desafio que vai além das estatísticas criminais.Para quem vive longe do país de origem, um crime patrimonial costuma representar mais do que a perda de um celular, de uma carteira ou de dinheiro. A barreira do idioma, o desconhecimento dos serviços públicos, o medo de procurar as autoridades e a ausência de uma rede de apoio tornam a recuperação muito mais difícil. Reduzir essa vulnerabilidade passa, portanto, não apenas pelo combate à criminalidade, mas também por garantir que quem escolheu São Paulo para viver ou visitar consiga exercer seus direitos com segurança e informação.