Sem caixa para contratar, MEIs usam IA como ‘primeiro funcionário’

Wait 5 sec.

De madrugada, na cozinha de sua padaria artesanal em Socorro, no interior de São Paulo, Tobias Alm Bueno enfrenta um desafio comum a milhares de microempreendedores individuais (MEIs) no Brasil: a falta de pessoal. Sozinho para criar receitas, precificar produtos e gerenciar o próprio negócio, o empresário passou a usar inteligência artificial (IA). O sistema calcula insumos e avisa quando comprar azeitonas para a próxima fornada de focaccias, por exemplo. E o caso do padeiro paulista não é isolado. Ele ilustra uma mudança nos pequenos negócios brasileiros: o uso da IA como infraestrutura de sobrevivência.Se na padaria de Tobias a tecnologia assume o controle de estoque, no setor de tecnologia ela permite erguer empresas sem verbas para contratações. Foi o caso do empresário Ezequiel Vedana, que usou ferramentas de geração de código para criar o sistema da sua startup em poucos dias, sem precisar de desenvolvedores. Esse movimento reflete o avanço da IA agêntica (aquela capaz de executar tarefas). Na prática, essa tecnologia tem ocupado funções que o caixa do microempreendedor não consegue pagar. Levantamentos do Sebrae, por exemplo, apontam que cerca de 70% dos pequenos negócios no Brasil já usam ferramentas digitais no dia a dia. Neste cenário, a automação de processos e do atendimento é a principal saída para compensar a falta de pessoal. Mas existe um limite. Sem estratégia e supervisão, o improviso digital pode gerar falhas na mesma velocidade que economiza recursos.Da padaria à startup de tecnologia: como a IA automatizou tarefas (e como isso tem limites)Antes de adotar a automação, a rotina do padeiro era cheia de anotações manuais, conferências presenciais no estoque e um receio constante: errar no cálculo e estragar uma fornada inteira. Na padaria dele, a IA eliminou a matemática analógica que consumia horas preciosas do seu dia. “Com a ferramenta que criei na IA, ela me avisa se é necessário comprar mais insumos”, conta Bueno, em entrevista ao Olhar Digital. “Além de economizar tempo, isso me deu mais segurança para produzir.”No entanto, a tecnologia tem seus limites. “Trabalhando com fermentação natural, nenhum dia é igual ao outro. Temperatura ambiente, umidade, tipos de farinha e comportamento da massa mudam bastante”, diz o empreendedor. Fatores biológicos que algoritmos parecem entender, mas não compreendem. “Eu sempre comparo as sugestões com a minha experiência prática antes de aplicar qualquer mudança.”Só eu conheço o meu fermento natural e como minha massa está se comportando – e nisso a IA não pode me ajudar.Tobias Alm Bueno, empreendedor e padeiro, em entrevista ao Olhar Digital.IA assume a escrita de linhas de código no desenvolvimento de programas – Imagem: DC Studio/ShutterstockEnquanto na padaria de Tobias a IA o ajuda a gerenciar insumos, no desenvolvimento de programas a tecnologia assume a escrita de linhas de código. Mas, antes de colocar o AncorAI no ar, Ezequiel Vedana precisou garimpar o mercado de tecnologia. Seu objetivo era entender quais ferramentas de IA suportariam um sistema que reúne emissão de notas fiscais, Open Finance e fluxos de atendimento.“Testei mais de dez ferramentas de inteligência artificial voltadas para geração de código, programação e desenvolvimento de sites e softwares, justamente para validar quais ofereciam maior flexibilidade e, ao mesmo tempo, conseguiam lidar com o nível de complexidade que o nosso sistema exige”, conta o empresário, em entrevista ao Olhar Digital.A IA permitiu validar telas e funcionalidades em menos de três dias. Mas Vedana ressalta que colocar uma interface no ar é diferente de garantir uma infraestrutura imune a ataques cibernéticos. Sem formação em ciência da computação, a saída para evitar falhas de segurança foi combinar varreduras automatizadas do seu sistema à consulta frequente a profissionais experientes da área.“Uma das coisas que mais me ajudou foi conversar com amigos que são especialistas em programação e desenvolvimento. O know-how deles ajudou a levantar questões de proteção de dados e do sistema que a máquina não antecipou”, conta o CEO. “Hoje os próprios sistemas identificam bugs e mapeiam vulnerabilidades, mas a segurança precisa ser tratada de maneira muito séria.”Uso de IA por MEIs: o que funciona e onde mora o riscoO aumento de eficiência observado no chão de fábrica e no desenvolvimento de código reflete uma transformação mais ampla no ecossistema de negócios. Para o CEO da 10K Digital, Felipe Matos, a grande mudança ocorreu quando a IA evoluiu para o modelo agêntico. Nesta etapa, a tecnologia passou a não só responder perguntas, mas a executar rotinas de trabalho também.Entre os impactos desta transformação, está a aceleração de entregas. “Já vimos sistemas que levaram dois anos para serem desenvolvidos serem substituídos por soluções equivalentes construídas com IA em apenas dois dias”, conta Matos, em entrevista ao Olhar Digital. A empresa do especialista em IA é parceira da OpenAI, desenvolvedora do ChatGPT, no Brasil. “Além de manterem as mesmas funcionalidades, essas novas aplicações apresentavam qualidade superior por substituírem sistemas legados e antigos por programas modernos.”Erro comum é empresas oferecerem ferramentas de IA e esperarem boom automático de produtividade – Imagem: shutterstock/Stock-AssoNo entanto, a velocidade de execução esconde uma armadilha para o microempreendedor: tratar a tecnologia como solução mágica capaz de resolver falhas de gestão. “Um erro muito comum é a empresa disponibilizar ferramentas para toda a equipe e esperar que a produtividade aumente automaticamente”, alerta o especialista, que também é consultor da ONU para IA e inovação e ex-presidente da Associação Brasileira de Startups (Abstartups). “Sem estratégia, os resultados não aparecem. A sustentabilidade da operação não depende apenas da tecnologia, mas da forma como ela é implementada.”Neste novo cenário, o papel do profissional especialista muda de posição no xadrez da empresa. “As pessoas deixam de participar da execução de cada tarefa e passam a se concentrar em pontos mais relevantes de orientação, revisão, supervisão e tomada de decisão.”No fim das contas, a IA abre portas e ganha tempo para quem não tem caixa. Mas o leme do negócio ainda precisa da pegada (e do julgamento) do profissional humano. Isso máquina nenhuma oferece. Ao menos, por enquanto.O post Sem caixa para contratar, MEIs usam IA como ‘primeiro funcionário’ apareceu primeiro em Olhar Digital.