Se a bolsa já estava atrativa no começo do ano, voltou a ficar ainda mais após a recente queda. Pelo menos na visão do gestor César Paiva, do Real Investor.Conhecido no mercado como ‘Warren Buffett de Londrina‘ por conta de seus métodos e dos retornos entregues — um dos fundos de ações acumulou valorização de 2.444% desde o início, em 2008, contra 395% do Ibovespa —, Paiva recorda que pedras no caminho deixaram algumas ações negociadas a até três vezes o preço sobre o lucro.A métrica mede o quão barato está um papel. Quanto mais baixo esse número, mais barata a ação.Além disso, companhias passaram a negociar pela metade do valor patrimonial. Ou seja, se somarmos todos os ativos da companhia, o resultado é metade do que a empresa vale em bolsa.Ele cita ainda os juros altos, a guerra e as eleições, que deixaram o cenário difícil. Em abril, o Ibovespa chegou a encostar nos tão sonhados 200 mil pontos, quando uma enxurrada de capital de investidores estrangeiros aportou no Brasil.Até meados deste mês, o fluxo internacional acumulado batia a marca de R$ 70 bilhões, mais que o dobro do total registrado em 2025, quando o saldo anual alcançou R$ 25,47 bilhões.Porém, a guerra no Irã freou essa disparada: o petróleo acima de US$ 90 o barril mexeu com as expectativas para os juros tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Resumo da ópera: os juros podem ficar mais altos por mais tempo. Uma notícia nada boa para a Bolsa à primeira vista, mas que pode esconder boas oportunidades.“A gente está animado do ponto de vista dos preços. Muitas empresas boas estão a preços muito baixos. Então, realmente, a gente está com vontade zero de ficar com caixa”, disse Paiva, em conversa com o Money Times.Exagero?Para o gestor, o momento exige sangue frio, já que o fluxo de gringos domina o mercado. Junto a isso, fundos de ações continuam tendo resgates em meio ao pouco interesse de pessoas físicas pela bolsa.“Às vezes, o investidor exagera, olhando mais para teses de IA e de empresas de tecnologia. Então, tem um monte de empresa que está realmente no limbo, meio que abandonada.”Entre os papéis, ele cita o Bradesco (BBDC4). “A gente acha que está com o preço abaixo do valor patrimonial ainda, mas negociando a seis vezes o lucro para este ano.”O Bradesco quase encostou nos R$ 22, mas viu a ação voltar para R$ 18 após a piora do sentimento do mercado. Essa queda, no entanto, pode abrir uma oportunidade para o banco. Analistas veem a instituição entregando fortes resultados no segundo trimestre, apesar disso.Ele cita outro banco também: o Banco do Brasil (BBAS3), que enfrenta desafios com o agronegócio. Desde 2024, o banco vive um ciclo ruim devido à explosão da inadimplência no setor, que não para de crescer.Apesar disso, Paiva diz que a ação está negociando a 70% do valor patrimonial e talvez a cinco ou seis vezes o lucro, mas com o resultado bastante deprimido.“A gente saiu quase totalmente da posição no final de 2024. Depois, voltamos a montar uma posição, uma posição média. Quando passar essa piora do agro, a gente acha que o lucro pode crescer bastante.”Outros papéisNa carteira do gestor também está a Allos (ALOS3). “Ela já deu um guidance de que deve pagar algo como 1% ao mês em dividendos, algo como 30% a 40% nos próximos três anos. Está bastante descontada pelos valores atuais”. No ano, a ação cai 6%.Outro papel que também marca presença na carteira, mas está no vermelho, é o da Suzano (SUZB3), com tombo de 20%. Segundo Paiva, o papel caiu junto com o preço da celulose, “que está na lona, e o preço das ações também”. “Eu acho que é uma alternativa bacana”, diz ele.Ele cita também a Porto Seguro (PSSA3), “que está redondinha, com a empresa indo bem, mas negociando a oito vezes o lucro”, e a Vulcabras (VULC3), “uma empresinha também que tem um campo de trabalho maravilhoso”. “Todo ano aumentando o lucro, crescendo, praticamente sem dívida. Está negociando a sete vezes o lucro e caindo mais de 30% neste ano”.Eleições mudam alguma coisa?Ainda segundo Paiva, não houve nenhuma mudança brusca na carteira para se posicionar para as eleições.“A gente tenta ter uma alocação equilibrada, porque não sabe qual vai ser o desfecho da eleição. Trabalhamos com um cenário que parece mais provável de continuidade do Lula, o que eu acho que é ruim para o mercado como um todo.”“Eu diria que a gente está meio que com um pezinho em cada canoa, porque acho que é uma eleição muito dividida. Mas, no Brasil, tudo pode mudar”.Ainda segundo ele, se for Lula de novo, em um cenário ruim, “talvez sejam os últimos quatro anos ruins e, daí, de fato, a gente possa sonhar com um governo um pouco melhor”.A última pesquisa BTG Pactual/Nexus, divulgada na segunda-feira (27), mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em vantagem no primeiro turno, mas tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) num eventual segundo turno.