O jabuti e a tempestade

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Hoje é o Dia da Sobrecarga da Terra.Hoje passamos a consumir o amanhã.Em pouco mais de sete meses, consumimos tudo o que o planeta consegue regenerar em um ano. Até dezembro, retiraremos da natureza um crédito que ela não concedeu.Parece uma conta distante.Mas basta espiar o noticiário.Nesta semana, telhados voaram. Ruas transformaram-se em rios. Famílias perderam tudo no Sul. Depois a tempestade alcançou o Sudeste, derrubou árvores, interrompeu o fornecimento de energia, desalojou pessoas. Matou. Não dá para normalizar. Todo ano a mesma coisa. Até eu já cansei de escrever sobre o tema. Talvez retome na forma de poemas, quem sabe?Na mesma manhã, recebi a visita de um casal — suponho, não perguntei — de Patagioenas picazuro. Vieram pousar na varanda como quem traz um aviso. Dizem que anunciam a seca. Foram eles que inspiraram Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira em Asa Branca:Inté mesmo a asa brancaBateu asas do sertãoEntonce eu disse, adeus RosinhaGuarda contigo meu coraçãoEntonce eu disse, adeus RosinhaGuarda contigo meu coraçãoA asa branca chegou aqui, na minha varandinha.E, com eles, uma pergunta que quase nunca acompanha as imagens da televisão.O que as tempestades desta semana têm a ver com a forma como tratamos as florestas?No vocabulário do Congresso existe outra criatura curiosa.Chamam de jabuti a emenda escondida dentro de um projeto de lei sem qualquer relação com seu tema original. O nome nasceu de um velho ditado: jabuti não sobe em árvore. Se apareceu lá em cima, alguém o colocou.Chico Buarque resumiu esse país em dois versos:“Malandro com aparato de malandro oficialMalandro candidato a malandro federal.”O jabuti legislativo é exatamente isso. Não é a esperteza da esquina. É a esperteza transformada em procedimento institucional.Foi o que aconteceu durante a tramitação da MP 1.150/2022. A medida recebeu emendas que alteravam regras de proteção da Mata Atlântica sem relação com seu objeto original. Houve disputa entre Câmara, Senado e Presidência. Os principais dispositivos acabaram vetados. Mas o episódio revelou algo maior do que seu desfecho: esconder mudanças profundas em textos aparentemente técnicos parece ter se tornado uma prática exercida sem o menor constrangimento.O caboclo do sertão, acostumado a desconfiar do improvável, sabe que jabuti em árvore não é milagre da natureza. É obra de gente. E, quando isso acontece, vale menos perguntar como ele chegou lá do que descobrir quem o carregou.Com as florestas talvez aconteça o mesmo.Elas não desaparecem de uma única vez.Perdem um pedaço aqui, outro acolá. Uma exceção, uma flexibilização, um artigo esquecido, uma emenda escondida. Quando percebemos, a paisagem já mudou.E por que isso interessa a quem mora longe da Amazônia?Porque a floresta também viaja.Ela ajuda a transportar umidade, influencia o regime das chuvas, abastece reservatórios, sustenta plantações, participa da geração de energia. Quando esse equilíbrio se rompe, os extremos tornam-se mais frequentes.Às vezes falta água.Às vezes ela chega de uma só vez.Nos dois casos, a conta aparece na mesa da cozinha, no supermercado, na tarifa de energia, no orçamento da minha e da sua família.Uma pesquisa do UNICEF mostrou que três em cada quatro jovens brasileiros estão preocupados com as mudanças climáticas e acreditam que os líderes políticos ainda fazem menos do que deveriam diante desse desafio.Talvez seja porque já compreenderam algo simples.O Dia da Sobrecarga da Terra não é uma data comemorativa.É um balanço.Não anuncia o fim do mundo. Apenas registra o momento em que começamos a consumir os recursos que pertencem ao amanhã.As tempestades desta semana não aconteceram por causa da data.A data existe porque, durante muito tempo, aprendemos a tratar a natureza como se ela sempre pudesse conceder mais um empréstimo.Talvez ainda haja tempo para mudar essa conta.Mas será preciso olhar menos para o jabuti.E mais para quem continua insistindo em colocá-lo na árvore.Enquanto isso, a pergunta de Asa Branca continua atravessando gerações:“Uai, por que tamanha judiação?”