Crianças embrulhadas em mantas térmicas e homens exaustos deitados em parques e passeios. Longas filas junto aos centros de acolhimento improvisados e carros incendiados e confrontos junto à fronteira do Tarajal. Ceuta voltou a tornar-se o epicentro da política migratória europeia, mas desta vez a escala ultrapassou tudo o que a cidade conhecia.Segundo estimativas divulgadas pelo Ministério do Interior espanhol, cerca de 49 mil pessoas entraram em Ceuta provenientes de Marrocos durante as últimas 24 horas. Algumas atravessaram o posto fronteiriço do Tarajal; milhares optaram pelo mar, contornando os quebra-mares que separam os dois territórios. Outras aproveitaram momentos de menor vigilância para entrar em território espanhol. Numa cidade onde vivem pouco mais de 85 mil pessoas, isso significa que, em apenas um dia, chegaram novos residentes equivalentes a mais de metade da população local.O sistema entrou rapidamente em ruptura. As autoridades locais foram obrigadas a improvisar centros de acolhimento, enquanto parques, jardins e espaços públicos começaram a ser ocupados por milhares de migrantes sem qualquer capacidade imediata de alojamento. Organizações humanitárias alertaram para a escassez de alimentos, água e cuidados médicos, sobretudo entre menores e pessoas que chegaram após horas dentro de água.A tragédia também se conta em vidasA dimensão humana da crise tornou-se evidente poucas horas depois. As autoridades confirmaram dezenas de vítimas mortais associadas às travessias e aos confrontos junto à fronteira. O balanço continua a evoluir, mas as informações disponíveis apontam para 34 mortos entre afogamentos e pessoas esmagadas durante momentos de pânico junto ao posto fronteiriço. As operações de busca continuam e receia-se que o número aumente. Miguel Duarte, fundador da Humans Before Borders e antigo membro da missão de salvamento marítimo Open Arms, não tem dúvidas: «enquanto não existirem travessias seguras, continuarão a existir passagens perigosas.»Grande parte das vítimas tentou alcançar Ceuta por mar. O estreito que separa Marrocos da cidade espanhola pode parecer curto no mapa. Na água, contudo, transforma-se frequentemente numa armadilha mortal, sobretudo para quem tenta atravessá-lo sem qualquer equipamento de segurança.Porque aconteceu agora?A pergunta domina Madrid, Rabat e Bruxelas. Embora o Governo espanhol continue a apontar o dedo às redes de tráfico humano, vários analistas admitem que esta vaga migratória dificilmente pode ser explicada apenas pela atuação das máfias.O movimento ocorreu poucos dias depois de o Supremo Tribunal espanhol limitar as chamadas «devoluções a quente» para migrantes que entram em Ceuta e Melilla através do mar. O tribunal considerou que o mecanismo de rejeição imediata apenas pode ser aplicado a quem tenta entrar ultrapassando fisicamente as barreiras fronteiriças, como as vedações, deixando de fora quem alcança território espanhol a nado.Essa decisão foi rapidamente interpretada nas redes sociais e em vários grupos de mensagens como um sinal de que chegar a Ceuta pelo mar aumentaria significativamente as hipóteses de permanência em Espanha.O Governo espanhol considera que essa leitura é falsa e acusa as redes de tráfico de pessoas de explorarem deliberadamente a decisão judicial para incentivar milhares de pessoas a atravessar a fronteira. O papel de Marrocos continua sob escrutínioTal como aconteceu durante a crise de 2021, quando milhares de pessoas entraram em Ceuta depois de Rabat aliviar temporariamente o controlo fronteiriço, também agora surgem dúvidas sobre a atuação das autoridades marroquinas.Madrid evita, para já, uma confrontação direta. Pedro Sánchez insiste que a cooperação entre os dois países continua ativa e sublinha que a relação diplomática é hoje substancialmente diferente da vivida há cinco anos, quando o acolhimento do líder da Frente Polisário, Brahim Ghali, desencadeou uma grave crise entre Espanha e Marrocos.Ainda assim, fontes de segurança admitem que uma deslocação desta dimensão dificilmente ocorreria sem uma redução significativa da pressão policial do lado marroquino durante algumas horas.É precisamente essa dúvida que alimenta novas especulações sobre uma eventual utilização dos fluxos migratórios como instrumento de pressão política entre Rabat e Madrid – uma acusação que Marrocos rejeitou em crises anteriores. Sánchez viajou imediatamente para CeutaPerante uma situação descrita pelas autoridades locais como sem precedentes, Pedro Sánchez cancelou parte da agenda oficial e deslocou-se à cidade autónoma. À chegada, garantiu que o Governo utilizará «todos os recursos do Estado» para recuperar o controlo da situação.O primeiro-ministro classificou o sucedido como uma «violação da integridade territorial de Espanha», responsabilizou as redes criminosas que traficam seres humanos e prometeu acelerar os processos de repatriamento sempre que a lei o permita. Ao mesmo tempo, insistiu na necessidade de manter a coordenação com Marrocos para impedir novas entradas.O desafio, porém, vai muito além da resposta imediata. Mesmo que milhares de pessoas sejam entretanto devolvidas, Ceuta tornou-se novamente o símbolo de uma questão que continua por resolver: como proteger a fronteira externa da União Europeia sem abandonar as obrigações humanitárias perante quem foge da pobreza, da instabilidade ou acredita que, do outro lado do mar, existe uma oportunidade de vida.Em vez de falar apenas numa emergência migratória, Sánchez descreveu a situação como um desafio à soberania espanhola, uma formulação que acabou por ser criticada por organizações humanitárias.Entre elas está o português Miguel Duarte: «Há sempre uma dimensão política e estas mobilizações acabam por ser instrumentalizadas por Estados fora da Europa. Mas o verdadeiro problema é a política migratória europeia, que permite que isto aconteça.»Para Miguel Duarte, a resposta europeia continua demasiado centrada na segurança e demasiado pouco preocupada com as causas que empurram milhares de pessoas para o mar. «O que é realmente criminoso é a política de fronteiras europeia. Há uns anos vimos a Bielorrússia instrumentalizar migrantes na fronteira com a Polónia. Agora ainda não temos informação suficiente para perceber tudo o que aconteceu, mas sabemos que este tipo de crises só existe porque a Europa deixa a gestão das suas fronteiras nas mãos de países terceiros.»A direita fala em fronteiras. A esquerda fala em Gaza.A leitura feita pela oposição conservadora foi radicalmente diferente. O Partido Popular acusou Sánchez de ter perdido o controlo das fronteiras externas da União Europeia e exigiu o destacamento permanente das Forças Armadas para apoiar a Guardia Civil. Ainda mais dura foi a reação do Vox.Santiago Abascal classificou a chegada de milhares de migrantes como uma «invasão organizada», defendendo a suspensão imediata do espaço Schengen para Espanha, deportações em massa e o encerramento total da fronteira com Marrocos.Segundo o líder da extrema-direita espanhola, o que aconteceu em Ceuta demonstra o fracasso das políticas migratórias europeias e representa um risco para a segurança nacional.À esquerda, porém, a narrativa foi outra. O porta-voz da Esquerra Republicana da Catalunha, Gabriel Rufián, recusou enquadrar a situação apenas como um problema de imigração ilegal e apontou responsabilidades à política externa europeia no Médio Oriente. Segundo Rufián, a Europa não pode ignorar que a instabilidade internacional, incluindo a guerra em Gaza e o apoio de vários governos europeus a Israel, alimenta movimentos migratórios e contribui para aumentar a pressão sobre as fronteiras do continente.Também dirigentes do Sumar e de outras formações da esquerda espanhola defenderam que a resposta não pode limitar-se ao reforço policial, acusando o Governo europeu de privilegiar a securitização da imigração em detrimento de soluções humanitárias.Meloni exige uma resposta europeiaEm Roma, Giorgia Meloni aproveitou a crise para reforçar uma posição que defende há vários anos. A primeira-ministra italiana afirmou que Ceuta demonstra que a imigração irregular já não é um problema exclusivo dos países mediterrânicos e apelou a uma resposta conjunta da União Europeia, defendendo um reforço das fronteiras externas, acordos mais exigentes com países de origem e trânsito e mecanismos de repatriamento mais rápidos.A chefe do Governo italiano insistiu igualmente na necessidade de combater as redes de tráfico humano, considerando que estas exploram sistematicamente a ausência de uma política migratória comum verdadeiramente eficaz.A Finlândia vê uma ameaça híbridaA crise também foi acompanhada com atenção no norte da Europa. A Finlândia, que nos últimos anos enfrentou episódios de pressão migratória na fronteira com a Rússia, alertou para a possibilidade de Estados terceiros utilizarem os fluxos migratórios como forma de desestabilização política.Helsínquia considera que a instrumentalização de migrantes passou a integrar o conjunto das chamadas ameaças híbridas, ao lado dos ataques cibernéticos, da desinformação ou da pressão energética.É uma leitura que aproxima a situação de Ceuta do que aconteceu na fronteira entre a Bielorrússia e a Polónia em 2021. Ainda assim, Miguel Duarte considera que esse enquadramento não pode esconder um problema mais profundo. «A Europa põe-se nesta situação, dando a faca e o queijo a terceiros. Enquanto externalizar a gestão das fronteiras para países vizinhos, continuará vulnerável a este tipo de pressão.»Uma política esgotada?Para o ativista português, a crise de Ceuta revela também os limites da estratégia seguida pela União Europeia na última década. «Isto demonstra o esgotamento da política centrista europeia.»Na sua leitura, transformar sucessivas crises migratórias em questões de segurança acaba por alimentar o crescimento dos extremos políticos. «Está a ser tratado como um ataque militar. E não é isso que está a acontecer.» Miguel Duarte acredita que existe uma contradição estrutural na economia europeia.«Se chegam indocumentados, a mão de obra é mais barata. Isso serve muitos poderes económicos espalhados pela Europa».Ao mesmo tempo, alerta para as consequências sociais da forma como o debate público é conduzido. «O contacto entre culturas existe desde sempre. O choque está a ser criado pela desumanização destas pessoas.» É precisamente essa desumanização que, na sua opinião, impede uma discussão séria sobre soluções duradouras.Quando a espuma mediática desaparecer e as câmaras abandonarem Ceuta, permanecerá a mesma pergunta que acompanha a Europa há mais de uma década: se o objetivo é impedir que milhares de pessoas arrisquem a vida no mar, integrar as pessoas no mercado de trabalho e na sociedade, por que continua a não existir uma alternativa segura e legal para quem procura chegar ao continente?O conteúdo Crise em Ceuta. «A Europa deixa a gestão das suas fronteiras nas mãos de países terceiros», alerta Miguel Duarte aparece primeiro em Revista Líder.