Já leram “Alice no País das Maravilhas?”, de Lewis Carroll? Não? Recomendo. Uma das sínteses possíveis pode ser esta: uma menina, vá lá, racionalista tenta entender o caos por intermédio de um pouco de lógica. É divertido.Numa passagem bastante conhecida, o Chapeleiro pergunta para a garota: “Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?”. E insiste: “Decifrou a charada?” Impaciente, ela responde: “Não. Desisto. Qual é a resposta?” Ao que ele responde: “Não tenho a menor ideia”. Nota: Carroll, ele mesmo, inventou uma explicação em razão da cobrança de leitores e deu uma resposta genial, com um trocadilho em inglês, mas aí já se entra no mundo puramente literário — e não é esse o escopo deste texto. Trato aqui do absurdo. E falo sobre política.À diferença do que perguntou o Datafolha, o ministro Alexandre de Moraes nunca proibiu um filho de visitar seu pai. Feita a pergunta desse modo, é compreensível que a maioria se oponha. Vetou que um candidato, pretextando a condição de advogado para visitar um custodiado, o faça para desrespeitar uma medida cautelar — como aconteceu no caso da carta que virou vídeo.E, agora, viu-se o emprego de IA para produzir um vídeo — com imagem, voz e conteúdo muito próprios do que pensa o condenado — que foi usado na Convenção do PL. Não há advogado razoável, incluindo os defensores de Bolsonaro, que ignore que se trata de mais uma transgressão das cautelares impostas a Bolsonaro, que está em prisão domiciliar por razões humanitárias.Tanto é assim que a defesa do ex-presidente diz, mais uma vez, que o apenado não sabia que Flávio recorreria àquele expediente, evidenciando, então, que, com efeito, impedir que um filho visite o pai não parece coisa muito boa, mas obstar o contato do candidato com o ex-presidente pode ser uma forma de proteger o dito custodiado das manhas, patranhas e armadilhas do candidato. Certo?Tivesse a defesa do ex-presidente a certeza de que, afinal, nada de errado se fez, com o cumprimento rigoroso das cautelares, e certamente sustentaria a tese, em consonância com o cliente. Mas, por óbvio, a admissão de que o preso domiciliar tinha ciência do que se faria corresponderia a anunciar: “Dane-se a Justiça. Faço o que bem entender!”Escreve a defesa do golpista condenado:“[Bolsonaro] não autorizou a utilização de sua imagem e voz para a produção do vídeo elaborado mediante inteligência artificial referido na decisão. Aliás, sequer poderia fazê-lo. Conforme expressamente determinado por este Juízo na decisão de 17.07.2026, o Peticionário encontra-se com o direito de visitas suspenso pelo prazo de 30 (trinta) dias, enquanto seu filho Flávio Nantes Bolsonaro permanece impedido de visitá-lo pelo prazo de 90 (noventa) dias (…)”Dica gramatical à defesa — e já houve um tempo que havia os dublês de advogados e gramáticos: tem de escrever “nem sequer”. O “sequer”, sozinho, significa “pelo menos” ou “ainda”. Aí alguém protesta: “Li que os gramáticos de hoje em dia aceitam…” Não sou de “hoje em dia”, rsss, mas de sempre. Adiante.E a Alice? Bem, estamos diante do diálogo do Chapeleiro maluco e de outros seres não muito apegados ao mundo da causa e da consequência, com os quais a menina toma um chá, que ela definiu como o mais estúpido de sua vida.Em tempos, vá lá, normais, do lado de cá da sanidade, qualquer um intuiria: “A defesa de Bolsonaro não vai dizer que o candidato, também filho (sim, nesse dado factual, o Datafolha está certo), teve o desplante trapacear o pai de novo, né?”E a resposta, para espanto deste país que é maravilha, mas também horror, é esta: “Sim, vai”. E daí? É que a lógica, aquela à qual se apega Alice, e os fatos não têm a menor importância para o proselitismo reacionário.Ocorre que, se houver a admissão de que tudo se fez à revelia de Bolsonaro, então a defesa do ex-presidente informa ao Tribunal Superior Eleitoral, sem contestação possível, que aquele troço foi efetivamente “deep fake”.Vamos ver. Caberá a Moraes avaliar a resposta dada pela defesa de Bolsonaro. Obviamente, não acredito que ignorasse as patranhas do filho, e cabe ao juiz fazer a defesa da sociedade, mas com uma reação proporcional. Acho, sim, que o ex-presidente está muito doente e deve continuar em domiciliar — a extrema direita o quer encarcerado e, de preferência, morto antes das eleições. Que mártir não daria!? Mas é preciso — é um fundamento do direito — preservar a sociedade. Que a trintena restrita a advogados e médicos se torne uma noventena, a mesma que vale para Flávio.E que o TSE agora decida o que fazer: é Bolsonaro, a personagem do vídeo, quem diz a Kássio Nunes Marques: “Fui enganado. Aquilo é ‘deep fake’.” Veja lá, hein, Kássio?! Eu e você somos do Sindicato dos Cabeçudos. Não nos cabe fazer charadas malucas. Nem dar respostas sem sentido.