Com a retomada do fluxo estrangeiro e o otimismo de continuidade do ciclo de cortes na taxa Selic, o Ibovespa (IBOV) interrompeu a sequência de quatro perdas mensais consecutivas e encerrou julho em alta. No mês, o principal índice da bolsa brasileira subiu 3,47% e encerrou o último pregão aos 177.999,00 pontos. Já o dólar à vista acumulou desvalorização de 1,79% sobre o real no mês e terminou a última sessão cotado a R$ 5,0704. Por aqui, a política monetária concentrou as atenções dos investidores, em meio à calibração de apostas sobre a trajetória de juros brasileira após dados de inflação mais fracos e continuidade da incerteza do cenário externo. No início de julho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) desacelerou em junho, acumulando alta de 4,64% nos últimos 12 meses — ainda acima da meta perseguida pelo Banco Central (BC), de 3%, com uma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Já no final do mês, o IPCA-15, considerado a prévia da inflação, de julho também recuou de 4,80% para 4,52% nos últimos 12 meses. A percepção de alívio nos preços levou a série de revisões dos bancos. Entre eles, o Bank of America (BofA) alterou a projeção de manutenção para uma redução da Selic em 25 pontos-base na próxima decisão do Copom, marcada para 5 de agosto, sendo a última flexibilização nesse ciclo. O Itaú BBA também passou a enxergar um cenário de desaceleração mais intensa da atividade, inflação menos pressionada e espaço para um ciclo maior de cortes na taxa Selic. O banco agora espera que a Selic termine 2026 em 13,75%, abaixo da previsão anterior de 14%. A curva a termo já precifica 100% um novo corte de 0,25 ponto percentual na taxa de juros na próxima semana, reduzindo a Selic de 14,25% para 14,00% ao ano. O ‘tarifaço’ também voltou aos holofotes dos investidores. Na semana passada, o governo dos Estados Unidos tarifou duplamente os produtos brasileiros, anunciando duas tarifas adicionais que juntas somam 37,5%. Segundo cálculos da Global Trade Alert, o Brasil passou a ser o segundo país com a maior tarifa efetiva média entre todos os parceiros comerciais dos Estados Unidos, com alíquota de 17,7%, atrás apenas da China, cuja tarifa efetiva média alcança 27,2%.Na tentativa de conter os impactos, o governo federal anunciou a liberação de R$ 18,5 bilhões em linhas de financiamento para empresas afetadas. A temporada de balanços do segundo trimestre (2T26) também movimentou os últimos pregões do mês.“Nossa leitura é de que a assimetria segue favorável para a bolsa, para quem tem horizonte de médio e longo prazo. O mercado corrigiu nos últimos meses, mas mostrou resiliência mesmo sem melhora relevante de notícias e pode reagir bem a qualquer sinal mais construtivo”, afirmou Bruna Sene, analista de Renda Variável da Rico. “Em outras palavras, os preços atuais oferecem um ponto de entrada atrativo para quem tem perfil de risco e horizonte mais longo”, acrescentou Sene. Todos os olhos nos EUANa última quarta-feira (29), o Comitê Federal do Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Fed manteve os juros na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano pela quinta vez consecutiva.Como também esperado, a decisão não foi unânime: Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan votaram pela alta de 0,25 ponto percentual nos juros. Essa foi a primeira vez desde 2016 que três dos nove diretores do Fed discordaram da decisão unificada.Durante a coletiva de imprensa, o presidente do Fed, Kevin Warsh, afirmou que as divergências foram intencionais e bem-vindas. Ele destacou que queria uma “boa briga de família” dentro do Fomc e que os três votos dissidentes mostram que o Comitê está debatendo os temas de forma aberta e intensa.Warsh também reafirmou o compromisso com a meta de inflação, de 2%, e indicou que o BC está reavaliando não apenas a política monetária, mas também sua estratégia de comunicação e o uso de seus instrumentos.LEIA MAIS: Fed segura juros, fala sobre dissidência e Warsh avisa: “não temos varinha mágica”Para economistas e agentes do mercado, a ausência de sinalização mais clara na comunicação não reduziu as incertezas sobre a postura do Fed contra a inflação. “Os dados econômicos de julho serão decisivos para calibrar as expectativas para a reunião do Fed em setembro, especialmente em relação à inflação, ao emprego e à atividade”, avalia William Castro Alves, economista-chefe da Avenue Securities. O risco de um novo ‘shutdown’ , em setembro, também voltou ao radar após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pedir aos congressistas que aprovem projetos que seguem parados nas duas Casas Legislativas. “O mercado continuará acompanhando o conflito no Oriente Médio, o funcionamento do Estreito de Ormuz e os impactos sobre o petróleo”, avalia Alves, da Avenue. As maiores altas do Ibovespa em julhoCSN Mineração (CMIN3) foi a ação com melhor desempenho mensal entre os 79 papéis negociados na carteira téorica do Ibovespa.Segundo analistas, a forte valorização da ação deve-se à combinação do programa de recompra de ações e do fluxo comprador. Os investidores também ficaram atentos a notícias sobre a venda da divisão do negócio de cimentos da CSN (CSNA3). O Safra estima o negócio de cimento em mais de R$ 10 bilhões, valor relevante diante dos cerca de R$ 22 bilhões em vencimentos concentrados entre 2026 e 2028. A avaliação do banco é de que uma eventual monetização parcial do ativo pode aliviar as preocupações de liquidez e melhorar as condições de refinanciamento da dívida.Confira as maiores altas: CÓDIGONOMEVARIAÇÃO MENSALCMIN3CSN Mineração ON36,60%UGPA3Ultrapar ON26,82%VBBR3VIBRA energia ON20,61%GGBR4Gerdau PN20,21%VAMO3Vamos ON18,86%GOAU4Metalúrgica Gerdau ON18,57%PETR3Petrobras ON17,38%PRIO3PRIO ON16,68%PETR4Petrobras PN14,87%FLRY3Fleury ON11,30%Fonte: B3As maiores quedas do índice no mêsNa ponta negativa, a Direcional Engenharia (DIRR3) foi a ação com pior desempenho em julho no Ibovespa. Os papéis foram pressionados pela prévia operacional do segundo trimestre de 2026 (2T26). Entre analistas, a leitura sobre os números é mista.Na visão de Caio Araujo, analista da Empiricus Research, os números da Direcional vieram “próximos das projeções“, com destaque para a geração de caixa e para a manutenção de uma velocidade de comercialização (VSO) saudável, apesar de um trimestre marcado por fatores pontuais que impactaram a conversão de vendas.Entre abril e junho, a construtora lançou R$ 2,1 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV), sendo R$ 1,6 bilhão correspondente à sua participação.Confira as maiores quedas de julho no IBOV:CÓDIGONOMEVARIAÇÃO MENSALDIRR3Direcional ON-18,46%EGIE3Engie ON-14,44%CURY3Cury ON-14,18%USIM5Usiminas PNA-12,90%CEAB3C&A Modas ON-12,19%POMO4Marcopolo PN-11,35%TIMS3Tim ON-11,16%MRVE3MRV ON-10,23%RENT3Localiza ON-9,46%AZZA3Azzas 2154-8,17%Fonte: B3