Cambridge Analytica ressurge como fazenda de conteúdo gerado por IA

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O domínio da extinta Cambridge Analytica, empresa que protagonizou um dos maiores escândalos de privacidade da internet, voltou a funcionar sob uma nova identidade em novembro do ano passado. Agora chamado CA Privacy Watch, o site publica conteúdos sobre inteligência artificial (IA), privacidade e tecnologia, mas uma investigação do site Futurism identificou indícios de plágio, uso de autores fictícios e textos produzidos por IA, apesar de a página afirmar manter revisão editorial humana.A Cambridge Analytica ganhou notoriedade em 2018 após vir à tona que havia obtido, sem autorização, dados de dezenas de milhões de usuários do Facebook para criar campanhas de direcionamento político durante a eleição presidencial dos EUA de 2016. O caso levou o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, a prestar depoimento ao Congresso americano e provocou uma discussão global sobre privacidade digital e uso de dados pessoais.Segundo a reportagem do Futurism, o antigo endereço CambridgeAnalytica.org foi adquirido por novos proprietários após expirar em 2025 e passou a operar como um portal de notícias sobre tecnologia e comportamento.Na seção "Sobre nós", o site afirma produzir reportagens aprofundadas e garante que "todos os artigos são escritos e editados por jornalistas e pesquisadores humanos" e que "não publica artigos gerados por IA ou automatizados sem revisão editorial completa". Após ser procurado pela equipe do Futurism, porém, o portal alterou essa descrição para informar que utiliza ferramentas de IA durante o processo de produção.Plágio e autores inexistentesA investigação identificou que diversos textos publicados no site reproduzem reportagens de veículos como The New York Times, Wired, MIT Technology Review, Engadget e 404 Media, sem dar o devido crédito às publicações originais. Em um dos casos, um artigo sobre câmeras de vigilância da empresa Flock teria copiado uma reportagem publicada poucas horas antes pelo jornalista Matthew Gault, da 404 Media.Além das suspeitas de plágio, a investigação encontrou sinais de que parte dos autores apresentados pelo portal não existe. Um dos nomes mais ativos, "Nicolas Menier", é descrito como jornalista especializado em ciência e tecnologia, mas os repórteres não encontraram registros profissionais compatíveis.A fotografia utilizada em seu perfil também teria sido retirada da página de um engenheiro canadense no LinkedIn, sem autorização. Outros colaboradores creditados parecem ser pessoas reais de Madagascar, mas não responderam aos pedidos de esclarecimento.Os jornalistas também analisaram dez textos do portal com o detector de IA Pangram. Segundo o serviço, todos os conteúdos avaliados foram classificados como "100% gerados por IA". As publicações ainda apresentariam características comuns de modelos de IA, como referências genéricas a "o governo" ou "a startup", sem explicar a quais instituições se referem, além de imagens com falhas típicas de geradores automáticos.A investigação mostra ainda que o grupo responsável pelo novo site da Cambridge Analytica administra outros domínios antigos transformados em fazendas de conteúdo voltadas para otimização em mecanismos de busca (SEO). Entre eles estão o jornal francês Le Ravi, encerrado em 2022, o site History in Politics e o portal CMU.fr, todos convertidos para publicar grande volume de textos sobre diferentes assuntos.Os responsáveis afirmam pertencer à empresa Vortexlab Digital Marketing, apresentada como uma agência de mídia digital sediada em Dubai. No entanto, segundo o Futurism, e-mails enviados aos contatos informados retornaram sem entrega, enquanto um número de telefone anteriormente associado à empresa foi atendido por uma pessoa que negou qualquer ligação com a Vortexlab. A reportagem também não encontrou evidências de que os supostos clientes exibidos no site da empresa existam de fato.Para Gisele Navarro, editora-chefe do HouseFresh e especialista em otimização para mecanismos de busca (SEO), o caso ilustra uma estratégia cada vez mais comum na internet. "É evidente que a estratégia deles tem sido adquirir domínios expirados, antes considerados confiáveis, para transformá-los rapidamente em fazendas de conteúdo clickbait", afirmou ao Futurism. Segundo ela, esse modelo busca aproveitar a credibilidade construída por antigos sites para atrair tráfego com conteúdo gerado por IA, antes que mecanismos de busca consigam reduzir sua visibilidade.