Estou obcecado pela leitura que terminei nesta semana. Trata-se de “O sentido da vida“, do psicanalista Contardo Calligaris, morto em 2021. O título do livro explica bem do que se trata – e vale dizer, ele abre uma discussão e não apresenta uma conclusão fácil.Mas o momento que mais me tocou é quando ele fala do pai e da biblioteca que ele mantinha na casa da família na Itália. Contardo, embora brasileiríssimo, era ítalo-brasileiro e o pai um médico italiano que lutou contra o fascismo.Bem, a biblioteca do pai tinha uns espaços vagos na estante. E ao refletir o motivo pelo qual esses espaços restavam entre tantos importantes volumes, o pai de Contardo disse ao jovem filho que “há livros feitos apenas para tapar buracos na estante”.Abre-se a partir dessa frase uma série de possibilidades interpretativas. A primeira é a mais óbvia, há livros que de nada valem a não ser por sua presença física ocupando espaço. O conteúdo, em si, não tem importância.Mas há outras interpretações, mais complexas. A que mais me agrada é que a nossa cabeça é como a estante. Há livros que tapam buracos e há livros que abrem novos buracos. Entre os que apenas tapam buracos estão os de fórmula fácil, que dão explicações certeiras sobre a vida “a verdade sobre”, “o jeito certo de”, “o motivo pelo qual”, complete aí à sua escolha. São os livros que convenientemente preenchem lacunas que nos incomodam na explicação do mundo e das coisas. De outro lado, há os livros que abrem buracos na estante da nossa mente. São os que não explicam, mas nos provocam a pensar. Que não trazem porquês como resposta, mas como indagação.Eu confesso a você que hoje equilibro minha vida entre os dois tipos de leitura. Até não muito tempo atrás, tive muito preconceito com os livros de “autoajuda”. Preconceito que quebrei pela primeira vez ao ler “Hábitos Atômicos”, que transformou a minha vida com um manual de como se livrar de hábitos ruins e incorporar bons hábitos na rotina. Preencheu um buraco na estante. Com bastante eficiência.Mas ainda sou um amante das perguntas. Especialmente dessas simples – porém complexas – como a que apresenta “O sentido da vida”. Talvez por isso minha recente obsessão com a obra. Vale a leitura!O sentido da VidaAutor: Contardo CalligarisEditora: PaidósNota na Amazon: 4.6