O jaleco e a o racismo na universidade

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Professores que sugeriram a alunas negras prender ou alisar o cabelo crespo para manter uma aparência “mais adequada” ao ambiente hospitalar; estudantes de Medicina barradas em um hospital universitário mesmo usando jaleco branco e crachá da faculdade. Somam-se a isso inúmeras “brincadeiras” cotidianas que reforçam estereótipos negativos. Não bastasse a dificuldade de permanecer na faculdade, estudantes negros enfrentam a discriminação para vestir um jaleco.Algumas dessas experiências foram reunidas no artigo “Desvelando o racismo na escola médica: experiência e enfrentamento do racismo pelos estudantes negros na graduação em Medicina”, publicado em 2022 por Vanessa Cristine Ribeiro Fredrich e colaboradoras. O estudo mostra que o racismo continua presente no cotidiano das faculdades de Medicina brasileiras e assume formas que vão desde agressões explícitas até práticas institucionais que reproduzem desigualdades históricas.A pesquisa entrevistou dez estudantes negros — oito mulheres e dois homens — matriculados em cursos públicos e privados de Curitiba. Um pequeno recorte, pois entre os cerca de 250 mil alunos matriculados em cursos de Medicina no Brasil 29,2% são pretos ou pardos, segundo a Demografia Médica (FMUSP/AMB) com dados do INEP/MEC e do IBGE: esse grupo ocupa 41,6% das vagas em universidades públicas e 23% nas privadas.Os relatos reunidos mostram que o racismo manifesta-se por pequenas situações repetidas diariamente. Piadas sobre a cor da pele, comentários sobre cabelos crespos, questionamentos sobre a capacidade intelectual, associações automáticas entre pessoas negras e pobreza, violência e drogas. Tudo isso sempre emoldurado por supostas brincadeiras.Uma das entrevistadas conta que, após contestar uma fala racista de um colega, ouviu que estava exagerando e que “via racismo em tudo”. Em seguida, foi chamada de “escurinha” durante a discussão.Muitos estudantes cotistas acumulam obstáculos que pouco aparecem nas avaliações acadêmicas. A falta de domínio do inglês, menor acesso a materiais didáticos, ausência de apoio psicológico e limitações econômicas são interpretadas, de forma preconceituosa, como incapacidade. As autoras alertam que políticas de acesso, quando não acompanhadas por políticas de permanência, podem reforçar estigmas em vez de superá-los.Diante desse cenário, os estudantes constroem diferentes estratégias de sobrevivência. Alguns procuram apoio psicológico. Outros respondem dedicando mais tempo aos estudos. Há aqueles que modificam a própria aparência. E os que se fortalecem como grupo. Coletivos estudantis negros, como o Negrex, tornaram-se espaços de acolhimento, fortalecimento da identidade racial e produção de conhecimento. É nesses grupos que muitos estudantes entram em contato, pela primeira vez, com autores como Frantz Fanon, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e  Kabengele Munanga.Além da baixa presença de professores negros, foram frequentes os relatos de professores que rejeitavam discutir a saúde da população negra. Quando uma estudante comentou que participaria de um congresso sobre o tema, ouviu de um docente que “saúde não tem cor” e que “somos todos iguais”.Isso aponta que o ensino das relações étnico-raciais na graduação em Medicina ainda é tratado de forma insuficiente e desigual ao longo da formação. Essa é a principal conclusão do estudo Percepção de estudantes de Medicina sobre o acesso à educação étnico-racial na formação médica, publicado em 2025 por Mariana Peixoto Dantas e colaboradores.A pesquisa ouviu 330 estudantes de Medicina de uma instituição privada de Recife e constatou que a discussão sobre saúde da população negra é mais frequente nas atividades de atenção primária, onde 82,4% dos alunos identificaram a abordagem do tema. Em contrapartida, pouco mais da metade dos entrevistados afirmou ter contato com essas discussões em módulos teóricos, laboratórios e ambulatórios de ensino, considerados espaços fundamentais para a formação clínica.O estudo também aponta lacunas na preparação dos futuros médicos para atender a população negra. Nos laboratórios, por exemplo, a ausência de conteúdos específicos compromete o aprendizado de habilidades como a avaliação de doenças dermatológicas em pele negra. Além disso, apenas 65,8% dos estudantes relataram que a identificação da raça ou cor dos pacientes é realizada rotineiramente nos atendimentos, embora o procedimento seja obrigatório no Sistema Único de Saúde (SUS).Combater o racismo na Medicina exige mais do que punir episódios individuais. É necessário ampliar políticas de permanência estudantil, fortalecer canais de denúncia e oferecer atendimento psicológico. As duas pesquisas defendem revisar currículos, implementar efetivamente a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e aplicar a Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira, que ainda é limitada.