Avanço ou ilusão? EAD leva aulas práticas para o celular

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A falta de laboratórios físicos é um problema para cursos superiores a distância (EAD). Para tentar resolver isso, faculdades passaram a levar aulas práticas para a tela do celular. Grupos como a Vitru Educação já usam realidade aumentada e modelos em 3D, por exemplo. Com a tecnologia, alunos de áreas como Saúde e Exatas conseguem examinar células e estruturas na mesa de casa. A promessa é facilitar o acesso a experiências que, até pouco tempo atrás, exigiam uma bancada real.Só que esse “laboratório de bolso” esbarra em limites importantes. Especialistas explicaram ao Olhar Digital que a simulação funciona como um treino, mas não ensina o toque nem a memória motora. A tela não passa a sensação de manusear um instrumento de verdade. Além disso, rodar esses aplicativos exige celulares modernos e internet rápida. Na prática, o custo de manter uma estrutura de ensino sai da faculdade e vai para o bolso do estudante.O ‘simulador de voo’ da educaçãoNa prática, a ideia é transformar a rotina de estudos em algo dinâmico. Em vez de apenas ler sobre anatomia ou circuitos elétricos, o estudante aponta a câmera do celular para um código QR no material impresso. Em seguida, um modelo em três dimensões surge na tela, que permite ao aluno girar, aproximar e analisar detalhes.Para fazer isso funcionar em escala, grupos educacionais criaram infraestruturas próprias. A Vitru Educação, por exemplo, conta com 13 estúdios de produção e desenvolveu ferramentas nativas como o aplicativo RA Explorer. Paula Renata dos Santos Ferreira, diretora de Tecnologia Educacional da instituição, explica que essa estrutura garante agilidade na criação dos materiais. “Essa autonomia reduz a distância entre tecnologia e pedagogia e nos dá mais capacidade para inovar”, diz a diretora, em entrevista ao Olhar Digital.Grupos educacionais têm infraestruturas próprias para oferecer experiências pedagógicas em 3D – Imagem: Zyabich family/ShutterstockO ecossistema inclui ainda laboratórios virtuais em 3D e microscopia digital em alta resolução. Nesses ambientes, o aluno consegue manipular lâminas virtuais ou simular experimentos quantas vezes precisar. A vantagem é poder repetir o procedimento sem gastar insumos nem correr o risco de causar acidentes.Essa possibilidade de treinar sem medo de errar é bem avaliada por especialistas. A professora Mônica Cristina Garbin, da Faculdade de Educação da Unicamp, compara o recurso ao treinamento de pilotos de avião, que exige horas em simuladores antes de ir para a prática real. “A simulação tem um papel importante, mas como etapa preparatória, não como substituta”, diz a especialista, em entrevista ao Olhar Digital.O professor Sérgio Amaral, também da Faculdade de Educação da Unicamp, pontua que a realidade aumentada reproduz experimentos com alta fidelidade. Em entrevista ao Olhar Digital, o docente disse que a tecnologia “pode substituir de forma eficaz atividades físicas nas etapas de compreensão conceitual, treinamento inicial e experimentação segura”. Assim, o recurso digital ajuda a fixar a matéria de forma visual e intuitiva antes do contato com a prática real.Bruna Cristina de Moraes Cernkovic, aluna do último ano de Enfermagem da UniCesumar, conta, em entrevista ao Olhar Digital, que recorreu à realidade aumentada e ao laboratório 3D em disciplinas como Embriologia e Histologia. “Essas ferramentas me ajudaram a visualizar com mais clareza as estruturas das células e dos tecidos, facilitando a compreensão de conteúdos que, muitas vezes, são difíceis de imaginar apenas por imagens estáticas”, afirma a estudante.O limite da tela: a perda da memória motora e a ilusão pedagógicaApesar da facilidade das telas, a tecnologia esbarra em limites que aplicativos não conseguem superar. Isso porque muitas atividades práticas dependem de memória motora, coordenação fina e resposta sensorial imediata. Num ambiente virtual, o estudante não sente a resistência de um tecido ao fazer um corte, por exemplo.Outro gargalo das simulações é a ausência do imprevisível. Na bancada física, o erro traz consequências reais, como quebrar um frasco de vidro ou contaminar uma amostra de teste. A professora Mônica Garbin explica que os softwares criam cenários organizados demais. Para a especialista, os programas digitais são “úteis para ensinar o padrão, mas limitados para ensinar a lidar com o inesperado”.Num ambiente virtual, estudantes não lidam com variáveis importantes do mundo real – Imagem: TippaPatt/ShutterstockAlém do limite prático, existe a questão do modelo de negócios das faculdades. A professora da Unicamp alerta que os maiores benefícios do uso intensivo de telas costumam ser administrativos, focados na redução de custos com infraestrutura e no deslocamento. O problema, segundo a docente, ocorre quando essa economia institucional “é apresentada, ou percebida, como se fosse um ganho pedagógico”.A limitação é ainda mais delicada em cursos da área de Saúde, nos quais o aprendizado vai além do manuseio de ferramentas. Aspectos como o contato direto com o paciente, a leitura de linguagem corporal e a reação a momentos delicados exigem vivência presencial. De acordo com a pesquisadora, essas habilidades humanas funcionam como “práticas de bancada relacionais” que a tela de um celular simplesmente não consegue simular.Quem paga a conta? Hardware, exclusão e o novo marco do MECAlém das questões pedagógicas, a adoção em massa de laboratórios virtuais esbarra numa barreira prática: o celular do aluno. Para conseguir girar modelos em 3D e rodar aplicações de realidade aumentada sem travamentos, o estudante precisa ter um smartphone relativamente moderno. E uma conexão de internet estável e relativamente rápida.Num país de dimensão continental como o Brasil, essa exigência não é trivial. E abre margem para uma nova forma de exclusão no ensino a distância. Além disso, o professor Sérgio Amaral destaca que a tecnologia pode empurrar para o aluno um custo que antes era de responsabilidade da faculdade. “Em vez de eliminar barreiras, o uso intensivo de tecnologias pode transferir o problema de falta de infraestrutura institucional para a falta de infraestrutura tecnológica do próprio estudante”, afirma o docente da Faculdade de Educação da Unicamp.Ambientes virtuais funcionaram bem num Samsung Galaxy S20, conta aluna – Imagem: Chouaib Erramzi/ShutterstockA própria experiência de Bruna ilustra essa exigência de hardware. Ela relatou uma boa experiência. Segundo a aluna, os recursos funcionaram sem travar nem apresentar lentidão. Mas vale frisar: a estudante usou um Samsung Galaxy S20 ao longo do curso – smartphone que, atualmente, sai por R$ 2 mil. Apesar disso, Bruna disse que a solução digital serviu como apoio de estudo. “Para mim, complementa de forma muito significativa o laboratório físico, pois torna o estudo mais acessível e dinâmico.”A professora Mônica Garbin cita o Decreto nº 12.456/2025, que estabeleceu o novo marco regulatório para o EAD no país. A norma exige que os polos de apoio das faculdades ofereçam infraestrutura física e tecnológica mínima, incluindo laboratórios equipados e internet de alta velocidade. As instituições de ensino têm até maio de 2027 para se adaptar às novas exigências.O problema é que essa obrigatoriedade cria um impasse para quem escolheu a modalidade justamente pela flexibilidade de estudar de qualquer lugar. Se o estudante precisa ir até o polo presencial porque não tem um celular avançado em casa, a premissa central do ensino remoto perde força. “Neste sentido, se a solução depende dos polos físicos, isso reintroduz a variável ‘presença física’ que a EAD, em tese, tentava eliminar”, avalia Mônica Garbin.Diante desse cenário, a recomendação é que os futuros alunos analisem com cuidado as condições oferecidas pelas instituições antes de fechar a matrícula. Vale checar os requisitos técnicos exigidos para rodar as aplicações no celular, a estrutura oferecida nos polos físicos e se a faculdade cumpre as regras de qualidade exigidas pelo Ministério da Educação.O post Avanço ou ilusão? EAD leva aulas práticas para o celular apareceu primeiro em Olhar Digital.