Belo Horizonte – Duas fugas registradas em unidades prisionais de Minas Gerais em um intervalo de apenas três dias deixaram nove detentos foragidos e colocaram em evidência a situação do sistema prisional do estado.Enquanto a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MG) investiga como os presos conseguiram escapar, representantes da Polícia Penal afirmam que os casos refletem problemas estruturais antigos, como déficit de servidores, falta de manutenção nas unidades e equipamentos ultrapassados.Ceresp Gameleira onde ocorreu a fuga dos detentos em Belo HorizonteA primeira fuga ocorreu na madrugada de segunda-feira (27/7), no Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp) Gameleira, em Belo Horizonte. Sete detentos conseguiram escapar após abrirem um buraco em uma cela e transpor o muro da unidade.Até o momento, quatro dos fugitivos foram recapturados. Permanecem foragidos Luiz Fernando Freitas Pereira, de 20 anos, conhecido como “Bolotinha”; Saymon Patric Gomes Silva, de 23 anos, o “LB”; e Bruno Gustavo Gomes da Paixão, de 33 anos.4 imagensFechar modal.1 de 4Visita ao Presídio Dutra Ladeira em janeiro de 2026ALMG / Divulgação2 de 4Relatório anual do Conedh revela denúncias de tortura de maus-tratos em presídios mineirosALMG / Divulgação3 de 4Policiais e especialista denunciam presídios de MG à beira do colapsoSindppen-MG / Divulgação4 de 4Situações degradantes foram encontradas em presídios mineiros ALMG / DivulgaçãoFugas no Sul de MinasTrês dias depois, na quinta-feira (30/7), uma nova fuga foi registrada no Presídio de Passos, no Sul de Minas. Durante uma conferência de rotina, policiais penais constataram que o cadeado de uma cela havia sido rompido e seis presos haviam escapado.Os fugitivos foram identificados como Diogo Henrique da Cruz Fabiano, Júlio Arnaldo Toledo, Leonardo Willians Silva Pereira, Marcos Túlio Cruz Fabiano, Matheus Loiola Divino e Wagner Santos de Lima. Nenhum deles havia sido recapturado até a última atualização divulgada pela Sejusp-MG.“Não é um fato isolado”, diz policial penalPara o policial penal e vice-presidente do Sindicato dos Policiais Penais de Minas Gerais (Sindppen-MG), Wladimir Dantas, as duas fugas não podem ser tratadas como episódios isolados.Segundo ele, o sistema prisional mineiro enfrenta um processo de sucateamento que compromete diretamente a segurança das unidades.“Os cadeados são antigos e obsoletos. O maquinário é ruim e as unidades, principalmente o Ceresp Gameleira, sofrem com falta de manutenção. Quem passa a mão na parede vê que o reboco esfarela. É uma estrutura muito antiga, com infiltrações e instalações deterioradas.”, afirma.Dantas explica que o Ceresp Gameleira, administrado pela Polícia Penal desde 2004, nunca recebeu as intervenções estruturais necessárias.“Há pedidos de manutenção há muito tempo, mas tudo depende de licitação e esses processos acabam travando. No Estado, tudo é muito moroso. Enquanto isso, as unidades vão envelhecendo.”A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública discorda da afirmação do policial. Em relação ao Ceresp Gameleira, onde ocorreu uma das fugas de detentos na última semana, a Sejusp informou que a reforma da área carcerária do presídio em 2024, resultou em uma ampliação de 93,69% da capacidade de vagas da unidade prisional.Após quase dois anos de obras, o local passou das 412 vagas iniciais para 798, ou seja, um acréscimo de 386 vagas.Déficit de servidoresOutro problema apontado pelo dirigente sindical é o efetivo insuficiente para atender à demanda do sistema prisional.Segundo ele, Minas Gerais possui pouco mais de 16 mil policiais penais para atender 168 unidades prisionais, número considerado muito abaixo do necessário.“O ideal seria termos entre 25 mil e 30 mil servidores. Hoje trabalhamos com um efetivo insuficiente para uma das maiores populações carcerárias do país.”De acordo com Dantas, quando a Polícia Penal assumiu a gestão das unidades, em 2004, Minas Gerais tinha cerca de 20 mil presos. Atualmente, o estado já ultrapassou a marca de 80 mil pessoas privadas de liberdade e, segundo ele, chegou a superar os 120 mil em determinados períodos, em razão dos altos índices de reincidência criminal.“Somos a segunda maior malha carcerária do Brasil, mas o crescimento da estrutura não acompanhou o aumento da população prisional.”Falta de efetivo e estrutura precária: as causas por trás das fugas em MGA Sejusp-MG administra atualmente 166 unidades prisionais e tem sob sua custódia cerca de 72 mil presos. O número atual de vagas é de aproximadamente 42.500 vagas. Os dados são de maio de 2026.Por meio de nota oficial, a Secretaria ressaltou o reforço do efetivo nas unidades prisionais: cerca de 3,4 mil policiais penais tomaram posse em 2024.Destacou que tem concurso público em andamento, com 1.178 vagas para reforçar o efetivo da Polícia Penal em todo estado. Este é o segundo edital da gestão atual, que já resultou na contratação de quase 5 mil policiais penais.Equipamentos antigos e servidores sobrecarregadosAlém da infraestrutura precária, o vice-presidente do Sindppen afirma que os policiais penais trabalham com equipamentos defasados.“Temos coletes balísticos vencidos, armamentos antigos e equipamentos de proteção que precisam ser substituídos. Tudo isso impacta diretamente a segurança dos servidores e das unidades.” Leia também Mirelle PinheiroMapa do crime: 40 facções têm integrantes em presídios federais Minas GeraisSaiba quais são os presídios com o maior número de mortes em MG Minas GeraisMG endurece regras de visitação nos presídios de alta periculosidade Mirelle PinheiroPoliciais penais anunciam greve e prometem parar presídios federais Impactos na saúde dos servidoresSegundo ele, a sobrecarga também tem provocado adoecimento entre os profissionais.“Mais de 85% dos servidores enfrentam algum tipo de problema de saúde, muitos relacionados ao desgaste psicológico, síndrome de Burnout. Há um índice elevado de afastamentos médicos e isso sobrecarrega quem continua trabalhando.”Dantas também defende a valorização da categoria e afirma que as perdas salariais acumuladas ao longo dos anos agravam o cenário.“Neste ano houve um reajuste de 5%, mas as perdas inflacionárias acumuladas ultrapassam 40%.”Investigações continuamA Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública informou que instaurou procedimentos administrativos para apurar as circunstâncias das fugas em BH e em Passos. As investigações estão sendo conduzidas pelo Departamento Penitenciário de Minas Gerais (Depen-MG).Presídios sucateados e falta de policiais: o cenário por trás das fugas em MG; Rafael Greco, secretário de Segurança de MGAs forças de segurança também mantêm as buscas pelos nove detentos que continuam foragidos. Informações que possam auxiliar na localização dos presos podem ser repassadas, de forma anônima, por meio do Disque Denúncia 181.As duas ocorrências, registradas na mesma semana, reacenderam o debate sobre as condições do sistema prisional mineiro e os investimentos necessários para garantir segurança tanto aos servidores quanto à população.Secretaria justifica reformas e criação de vagasO Governo de Minas começou a entregar cerca de 2.700 vagas em presídios e penitenciárias de todo o Estado. Em nota a Sejusp informou que há obras de novas unidades sendo erguidas, construções que estavam paralisadas há anos e que estão sendo finalizadas, além da entrega de ampliações de unidades importantes.Em novembro de 2025, foi inaugurado o novo Presídio de Frutal, no Triângulo Mineiro, unidade com 388 vagas. Já o Presídio de Itaúna, com 306 vagas, está em fase de finalização. Lavras e Poços de Caldas completam as entregas em 2026, com 600 vagas cada uma.No último ano, foi inaugurado também o anexo do Presídio de Alfenas, no Sul de Minas, com 306 vagas.Mais de R$ 16 milhões foram investidos nas obras realizadas por meio de uma parceria entre Sejusp-MG e a Secretaria de Estado de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias (Seinfra). Em março de 2025, foi entregue o novo Presídio de Iturama, com 388 vagas.Em julho de 2024, o novo Presídio de Ubá, com 388 vagas, também foi entregue, assim como a área de segurança e carceragem do Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp) de Juiz de Fora. Esse último teve a capacidade ampliada em 57%, com 191 novas vagas.O Ceresp Ipatinga foi reinaugurado depois de longa reforma, resultando em 282 novas vagas. Além disso, foi concluída a obra no Pavilhão III do Presídio Antônio Dutra Ladeira, em Ribeirão das Neves; a reforma amplia a capacidade do pavilhão para 170 vagas — 85 delas criadas com as mudanças realizadas.