De São Paulo para o Mundo: 71% dos empreendedores brasileiros já miram além das fronteiras

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StartupiDe São Paulo para o Mundo: 71% dos empreendedores brasileiros já miram além das fronteirasUma pesquisa inédita da Endeavor, divulgada em abril de 2026, quantifica uma transformação silenciosa que está redesenhando o mapa da inovação brasileira: 71% dos empreendedores brasileiros já iniciaram ou estão se preparando para expandir internacionalmente. Entre as startups e scale-ups fundadas entre 2020 e 2024, quase a metade planeja essa expansão a curto ou médio prazo. O dado é mais do que uma estatística — é um sinal de que o ecossistema brasileiro deixou de ser um mercado doméstico para se tornar uma plataforma de lançamento global. E isso muda tudo para quem investe, empreende e consome tecnologia no país.Para entender o peso dessa mudança, é preciso olhar para trás. Há uma década, quando a Ebanx — hoje um dos unicórnios mais conhecidos do Brasil — decidiu processar pagamentos internacionais, a startup era uma exceção quase solitária. VTEX, Wellhub (antiga Gympass) e Hotmart completavam um punhado de empresas brasileiras que ousavam competir fora de casa. O tamanho do mercado nacional, que permite construir bases sólidas localmente, deixava a expansão internacional em segundo plano. A nova geração, porém, parece não querer mais esperar e já nascem com o mundo como horizonte.A pesquisa da Endeavor, que ouviu 101 scale-ups brasileiras e realizou 20 entrevistas com empreendedores e investidores, revela um contraste marcante com o passado. 60% dos 25 unicórnios brasileiros mantinham uma tese predominantemente nacional quando alcançaram a avaliação de US$1 bilhão. No restante da América Latina, essa proporção é de apenas 16%. Em outras palavras: o Brasil historicamente criava gigantes domésticas. Agora, está criando empresas globais.Os fatores que impulsionam essa nova onda são internos e externos. Para 75% dos empreendedores, o potencial de mercado é o principal motor. Para 42%, a demanda dos próprios clientes os leva para fora. A saturação do mercado nacional aparece como motivação para apenas 17% — ou seja, a expansão não é uma fuga, é uma conquista. Fatores externos como o tipo de câmbio, a liquidez do mercado privado, acordos comerciais e o novo ciclo de inovação impulsionado pela inteligência artificial completam o cenário.Quando decidem saltar, os brasileiros têm destinos claros. Estados Unidos é o primeiro destino para 63% das startups que já se expandiram, com a Califórnia — berço do Silicon Valley — atraindo a maioria. América Latina (60%) e Europa (49%), com Portugal e Espanha como pontos de entrada, completam o roteiro. O processo, porém, raramente começa com a abertura de um escritório: 51% dos empreendedores indicaram que o movimento foi feito de forma não ortodoxa, enquanto 43% optaram por iniciar com vendas internacionais. Fusões, aquisições e alianças também integram o playbook.A boa execução dessa internacionalização depende de uma variável crítica: a presença do liderança. 44% dos empreendedores entrevistados informaram que se mudaram ou planejam se mudar para o novo mercado. Outros 46% decidiram contratar executivos locais de alto nível. “Tem que estar entre as três prioridades principais e se tornar um ‘projeto pessoal’. Pensar que vai delegar um projeto assim é uma ilusão“, afirma João Del Valle, cofundador e CEO da Ebanx, que hoje também atua como mentor de startups. “Muitas vezes o empreendedor está aqui muito focado no Brasil e a internacionalização lhe parece um monstro de sete cabeças, mas não é. É uma questão de mentalidade“.A trajetória da Ebanx ilustra o caminho. A empresa nasceu com a missão de ajudar clientes internacionais — como marketplaces dos Estados Unidos, China e Europa — a vender no Brasil. A partir da experiência no mercado nacional, expandiu para outros países a partir de 2015 e hoje processa pagamentos em 20 mercados, incluindo regiões emergentes da África e da Ásia. Em 2025, 65% da receita bruta da empresa veio do exterior — e 20% de fora da América Latina. Foram mais de 1,3 bilhão de transações processadas para clientes como Uber, Spotify, AliExpress, Shein e Canva. “Nossa ideia partiu desde o princípio da missão de ajudar clientes internacionais a se expandirem no Brasil e tínhamos que sair ao exterior para conseguir esses clientes“, explica Del Valle.Por que isso importa para negócios?A internacionalização em massa do ecossistema brasileiro tem implicações diretas em múltiplas frentes. Para investidores, amplia o universo de oportunidades: empresas que competem globalmente tendem a ter valuations mais altos e caminhos de saída (exits) mais diversificados. Para empreendedores, significa que a barreira de entrada em mercados internacionais está caindo — o playbook está sendo escrito em tempo real por quem já passou pelo processo. Para o Brasil, representa a consolidação de um modelo econômico baseado em inovação e exportação de tecnologia, em vez de commodities.O cenário é favorável. O ecossistema brasileiro de startups ultrapassou 20 mil empresas ativas em 2025, segundo o Observatório Sebrae Startups, com crescimento de 26,7% em relação a 2024. A expectativa do mercado é que o Brasil encerre 2026 com mais de 25 mil startups ativas. A distribuição regional também se amplia: enquanto o Sudeste concentra 35,8% das empresas, o Nordeste responde por 24,7% e o Sul por 20,7%. Cidades como Florianópolis, Recife e Belo Horizonte se tornaram centros importantes de inovação, reduzindo a dependência do eixo Rio-São Paulo.A maturidade do ecossistema também se traduz em disciplina de capital. Após o ciclo de hype de 2020-2022, o mercado de venture capital no Brasil se tornou mais seletivo. Dados do mercado indicam que o país registrou 367 rodadas de venture capital somando cerca de R$ 14,5 bilhões em 2025. O foco migrou de “crescer a qualquer custo” para eficiência operacional, governança e sustentabilidade do crescimento. Nesse contexto, a internacionalização deixa de ser um luxo de unicórnios para se tornar uma estratégia de sobrevivência e escala.“O segundo semestre mostra um ecossistema mais sólido. O capital continua disponível, mas está sendo direcionado para startups que demonstram capacidade de execução, geração de receita e potencial de crescimento sustentável. Isso fortalece o mercado como um todo“, avalia Marilucia Silva Pertile, CEO e cofundadora da Start Growth. A combinação de capital mais seletivo, tecnologia em escala — mais da metade das startups brasileiras já utiliza IA em produtos ou operações — e ambição global cria um terreno fértil para a próxima geração de empresas de alto crescimento.O movimento, porém, não está isento de desafios. A ABStartups aponta que, apesar da maioria das startups brasileiras ter mais de cinco anos de funcionamento (38,5%), apenas 15,4% está em período de expansão. A maioria (28,8%) ainda se encontra em fase de tração, com perspectivas cautelosas diante de um apetite de risco menor do mercado. Além disso, cerca de 60% dos empreendimentos não sobrevivem além do quinto ano de operação. A internacionalização, portanto, é uma aposta de quem já consolidou o modelo de negócio doméstico — e sabe que o teto do Brasil, por maior que seja, não é o limite do mundo.Para Del Valle, o conselho é direto: desmitificar a internacionalização. “Para uma empresa de tecnologia, pode designar um time, de maneira intencional, para explorar e cometer alguns erros. Primeiro, é uma questão de mentalidade: o empreendedor tem que estar disposto a fazê-lo“. Com 71% dos empreendedores brasileiros já nessa direção, a pergunta que resta não é mais ‘se’ o Brasil vai produzir startups globais. É ‘quantas’ — e ‘quão rápido’.O post De São Paulo para o Mundo: 71% dos empreendedores brasileiros já miram além das fronteiras aparece primeiro em Startupi e foi escrito por Startupi