Cinco da tarde marca o relógio no Dia do Trabalhador, um de maio. Em Hamburgo, o sol parece esquecer, por umas horas, a reputação cinzenta da cidade. Há pernas descobertas, sandálias, camisolas de manga curta. Famílias estendem-se nos degraus junto ao rio, jovens partilham garrafas de cerveja sobre os bancos e turistas caminham sem pressa, telemóvel em punho, à procura da fotografia perfeita. O Elba devolve o brilho da luz e, ao ritmo da corrente, sucedem-se embarcações turísticas que cruzam o porto. Ao longe, dezenas de guindastes recortam o horizonte e lembram que Hamburgo continua a viver de frente para a água. Foi aqui que cresceu um dos maiores portos da Europa, herdeiro da tradição da antiga Liga Hanseática e porta de entrada da Alemanha para o Mar do Norte e para o mundo. Vista do Porto de Hamburgo desde Landungsbrücken. Créditos: Leonor Wicke.Ainda assim, basta afastar-se alguns metros da marginal para mudar de país. A pouco mais de vinte passos do corredor de betão, o restaurante Tasquinha Galego, instalado no interior de um antigo moinho, começa a ganhar ritmo. Um casal alemão consulta a ementa afixada junto à porta. Dois ciclistas perguntam se ainda há mesa para quatro. A resposta chega antes mesmo de terminarem a pergunta. «Sem reserva vai ser difícil. Têm de esperar um bocadinho.» Fernando da Silva, o dono, continua a andar. Cumprimenta um cliente habitual, encaminha outro para uma mesa junto ao fundo e, pelo percurso, confirma um pedido de vinho branco. O telefone toca. Alguém pretende reservar para mais logo. As portas acabaram de abrir, mas já há poucas mesas. Não há tempo para parar. Lá dentro, Hamburgo desvanece-se por instantes. Nas paredes, azulejos em tons de azul e castanho desenham aves, árvores e paisagens rurais, enquanto um galo de Barcelos é iluminado pela luz taciturna. Das colunas escapa um fado em volume baixo interrompido apenas pelo tilintar dos copos e pelo roçar dos talheres na loiça. Ao fundo da sala, uma mesa celebra qualquer coisa. Um ramo de flores chega antes do vaso que uma empregada pousa delicadamente no centro. Afinal, um restaurante também assinala casa. Noutra mesa, um cesto de pão ainda morno desaparece das mãos da funcionária ao mesmo tempo que outra cruza a sala a segurar pratos fumegantes. Polvo à moda portuguesa. Camarão com picante. Moelas. O alho acaba de estalar no azeite. Os coentros libertam o perfume que antecede a primeira garfada fazendo esquecer que, do lado de fora, continuam a ouvir-se os ferries que percorrem o Elba. Dentro daquele restaurante, é Portugal quem ocupa a mesa.Fernando nasceu em Celorico de Basto, «a terra mais bonita do país», garante, sorrindo com o orgulho de quem nunca deixou verdadeiramente o lugar onde cresceu. Os dois filhos já conhecem aquelas serras e aquelas ruas. Faz questão de os levar lá sempre que pode. Mas ali, antes de ser restaurante, o espaço foi um bar que o pai adquiriu. Enquanto fala, quase não interrompe o trabalho. Um cliente chama-o para pedir a conta. Outro pergunta qual o peixe fresco do dia. Fernando responde sem hesitar, volta-se para a cozinha, confirma um pedido e regressa à conversa como se nunca tivesse saído dela. Chegou à Alemanha ainda criança. Passaram 48 anos desde então. O alemão sai-lhe naturalmente, sem sotaque percetível. Muda de língua de mesa para mesa com a facilidade de quem aprendeu a viver entre duas pátrias. «Os clientes que tenho não variam muito. São da casa. A maioria são estrangeiros. Portugueses há poucos.» Faz uma pausa breve, enquanto pousa duas cartas da ementa numa mesa acabada de chegar. «O Fábio Vieira, jogador de futebol, por exemplo, vem cá muitas vezes.» E o que costuma pedir? Fernando ri-se. «Francesinha.» A cozinha acelera e anuncia mais um pedido pronto. Saem bochechas de porco preto para uma mesa junto à parede do lado direito. Peixinhos da horta seguem para a esquerda. Um empregado quase choca com um cliente ao contornar uma cadeira puxada para trás por alguém impaciente. Ninguém parece estranhar aquela coreografia repetida dezenas de vezes por noite e há conforto nesta espécie de entropia boémia. À porta, a fila cresce discretamente. Há quem espere de copo de vinho na mão. Outros observam a sala à procura de uma mesa prestes a vagar. Fernando olha em redor durante alguns segundos. «A comunidade portuguesa está diferente. Está mais dispersa.» Encolhe ligeiramente os ombros. «Hoje cada um pensa mais no seu negócio do que noutra coisa.» Não há amargura nas palavras. Apenas constatação. «Os negócios mudam. E as pessoas também.» Carta de vinhos portugueses. Créditos: Leonor Wicke. No Consulado português, a burocracia divide espaço com Saramago, Carlos Paredes e histórias de amor No Consulado-Geral de Portugal continuam a celebrar-se casamentos, mas desapareceram quase todos os restantes espaços de convívio da comunidade. «Acho que ter uma sede e um local que sirva de ponto de confluência é muito importante para que as pessoas se conheçam», lamenta João Batista, cônsul-geral, apontando a crescente fragmentação dos portugueses em Hamburgo. Numa das paredes do andar onde se fala português, José Saramago espreita com argúcia quem entra e sai do edifício. Mais adiante, cartazes dedicados a Carlos Paredes recordam um ciclo de iniciativas que assinalou os 50 anos do 25 de Abril. Nesse final de tarde, o consulado abriria portas para a Noite dos Consulados, uma iniciativa que convida os hamburguenses a descobrir a cultura portuguesa. Entre o movimento dos funcionários e o entra e sai de utentes, percebe-se que este continua a ser um dos poucos lugares onde a comunidade se vai cruzando. Ainda assim, pouco. O cônsul-geral de Hamburgo, João Batista, no seu gabinete. Créditos: Leonor Wicke.Atualmente vivem 10.636 cidadãos portugueses em Hamburgo, mais do dobro dos registados em 1970, o que faz dos portugueses a décima comunidade estrangeira mais numerosa da cidade. João Batista calcula que o total real seja significativamente superior, possivelmente perto dos onze mil, devido aos naturalizados alemães cujos filhos nascidos lá perderam a nacionalidade portuguesa registada. Na verdade, há comunidades que nunca cabem por inteiro nos números. De facto, a Alemanha continua a ser chamariz para emigrantes do nosso país. Em 2025, entraram no território germânico 8.653 cidadãos portugueses, segundo o Destatis, gabinete federal de estatística da Alemanha. Trabalhadores da fábrica Phoenix em 1970, Archiv AMH. Reprodução do livro Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichten.Durante anos, o porto e as indústrias metalúrgicas da margem sul do Elba – situadas em Harburg – atraíram trabalhadores que procuravam salários melhores e habitação acessível. Muitos chegaram com a ideia de regressar. Acabaram por ficar. A vida, como tantas vezes acontece na emigração, encontrou forma de criar raízes onde antes existia apenas um contrato de trabalho. Harburg cresceu como um dos primeiros destinos desta vaga migratória. Mas foi do outro lado do rio, em Landungsbrücken que os portugueses desenharam uma geografia afetiva. O Portugiesenviertel, ou Bairro Português, hoje um dos postais mais conhecidos de Hamburgo, nasceu dessa presença. «Atualmente, o bairro é um local turístico», reconhece João Batista. Ainda assim, há algo que resiste. A densidade é notória, com o catálogo de restaurantes portugueses por metro quadrado no bairro a ser um dos mais altos que se encontram fora de Portugal. Batista não tem números precisos sobre o peso económico da comunidade portuguesa em Hamburgo, mas afirma, sem reservas, que «é capaz de ter aumentado» face ao passado. A restauração e cafetaria consolidaram-se. Expandem-se agora para setores de serviços como a limpeza de edifícios e condomínios, maquinaria, distribuição de bebidas e alimentos por grosso. A preservação do português em Hamburgo enfrenta pressões naturais do contexto migrante. O movimento associativo que anos atrás funcionava como ponte social e ponto de referência diminuiu com a idade dos fundadores. «As associações foram, de facto, um ponto de encontro e de contacto em que as pessoas dialogavam na sua língua», explicou o cônsul. Mas as novas gerações, sem empenho parental em casa, tendem a abandonar o português. O Consulado promove cursos na nossa língua através da rede do Instituto Camões. Hamburgo é uma rara exceção. O cônsul salientou existir «um curso de português integrado no currículo oficial das escolas». Fora isso, o ensino é extracurricular, ministrado por professores em vários centros. Argumenta que «o português não é só sentimento, é também valor económico.» Num porto como o de Hamburgo, com conexões fortes à América do Sul, o português falado – e derivativamente o espanhol, inteligível aos falantes da língua – abre horizontes comerciais. «Gostaria, acima de tudo, que a nossa comunidade continuasse a olhar para o português como um ativo, não só em termos sentimentais.» – João Batista, cônsul-geral português em Hamburgo A comunidade portuguesa de Hamburgo continua a renovar-se, mas fá-lo de forma diferente. Para ilustrar, João Batista prefere um episódio às estatísticas. Recorda um casamento celebrado no consulado entre dois enfermeiros portugueses que tinham emigrado para Hamburgo. «Estavam aqui onze ou doze enfermeiros, todos entre os 23 e os 30 anos, a trabalhar. Há uma evolução.» Há uma geração diferente a bater à porta do consulado. Créditos: Leonor Wicke.Ainda assim, nem tudo acompanha essa integração. Nas eleições presidenciais portuguesas de 2025, a participação dos emigrantes voltou a ficar aquém do desejável, ainda que ligeiramente acima da registada em atos eleitorais anteriores. Para o cônsul, a explicação divide-se entre um progressivo afastamento da vida política portuguesa e dificuldades logísticas, como o sistema postal alemão, que obriga muitos eleitores a levantar a correspondência nos correios quando a morada não está corretamente identificada. João Batista acredita que a comunidade portuguesa entrou numa nova fase da sua história. Partiu da imigração laboral do século passado para uma população mista de negócios consolidados, serviços e inovação. O que o cônsul chama «cosmopolita», com portugueses de Portugal lado a lado com oriundos dos PALOP, do Brasil, da Ásia, oferece, segundo ele, «potencial explorado ainda parcialmente». É por isso que pondera ser esse o destino de todas aqueles que amadurecem longe de casa: deixarem de viver apenas da memória para encontrarem, sem perder a língua, novas formas de pertencer. E despede-se, apressado, pois há uma noiva no corredor à espera para casar. O acordo de recrutamento de mão de obra de ‘64 que mudou tudo A história da emigração portuguesa não se começou a escrever na década de 60, mas estes foram os anos que firmaram a pegada lusa na cidade de Hamburgo. Wulf Köpke, etnólogo e antropólogo, e Jorge Pinto, historiador, imortalizaram esta trajetória como ninguém. São os autores do livro Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichten. Editada pelo Stadtmuseum Harburg em 2024, a obra compila precisamente estes mais de 60 anos de história, em específico sobre o acordo que viria a mudar para sempre a relação Hamburgo – Portugal. Köpke afirma que os «os movimentos migratórios têm facetas iguais em todo o mundo, mas que a imigração portuguesa daquela cidade édiferente», distingue-se. E foi precisamente isso que os levou a escrever o livro, por ser uma história particular, com um impacto que classificam como «tremendo». Gráfico 1 – Uma breve história da imigração na Alemanha Os primeiros portugueses chegaram nos anos 50, atraídos pelo porto e pela indústria de uma Alemanha que se reconstruía. Mas foi a partir de 1964 que esta vaga de emigração acelerou, após a criação de um acordo de recrutamento de mão de obra assinado entre Portugal e a República Federal da Alemanha (RFA), a 17 de março. Este tratado oficializou e organizou a grande movimentação para solo alemão, integrando os portugueses no programa de trabalhadores convidados, conhecidos como Gastarbeiter. Neste acordo, Salazar viu uma oportunidade para melhorar a liquidez das famílias destes trabalhadores e engordar os bancos de Portugal, que receberiam dinheiro do estrangeiro, combatendo ainda a emigração clandestina. A estratégia dos trabalhadores convidados já tinha começado a ser implementada em meados da década de 1950, época em que a procura de mão de obra na Alemanha Ocidental aumentou. Por conseguinte, até 1973, o Governo Federal celebrou acordos de recrutamento com Itália, Espanha, Grécia, Turquia, Marrocos, Portugal, Tunísia, Jugoslávia e Coreia do Sul. Esta mão de obra era barata para as empresas e resolvia a escassez, num país fustigado pela Segunda Guerra Mundial. Emigrantes portugueses a chegar à estação principal de Harburgo. Reprodução do livro Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichten. Gráfico 2: Evolução de residentes estrangeiros em Hamburgo entre 1960 e 1997. Com os acordos, os trabalhadores estrangeiros passaram de 333.000 para 1,5 milhões entre 1960 e 1969. Foi uma das engrenagens do Wirtschaftswunder, o milagre económico alemão, e também o início de uma nova página da emigração portuguesa. Hamburgo depressa se afirmou como um dos principais destinos. Em janeiro de 1967, estavam registados na cidade mais de 3.000 cidadãos portugueses. Em 1956 eram apenas 43. E desde então a comunidade tem vindo a crescer, fazendo de Hamburgo o destino preferido dos emigrantes portugueses à frente de Berlim e Munique. Há petiscos e cervejas que sabem sempre a casa Num canto do Galego, um homem marroquino diz algumas coisas em voz alta. Fala das guerras que assolam o mundo, critica Marrocos, critica também a Alemanha. Entre uma frase e outra pede um café e uma aguardente. Ali há medronho. E há tempo para ouvir todas as histórias. Quem ajuda Fernando a manter o ritmo é Filipe da Costa. Oriundo do litoral vicentino, emigrou para Hamburgo há treze anos. Tem pouco tempo para parar. Num minuto responde em alemão a um casal acabado de chegar. No seguinte explica a composição do bacalhau a um cliente espanhol. Logo depois regressa ao português para confirmar um pedido vindo da cozinha. «Falo um pouquinho de português, ich spreche ein bisschen Deutsch e un poco de español.» Sorri. O jeito continua profundamente próximo. O movimento não abranda. A porta abre-se e fecha-se sucessivamente, um empregado rompe a sala com uma travessa com vários petiscos, ao balcão, a máquina de café trabalha sem descanso. O fado continua a tocar discretamente, quase escondido pelo ruído dos copos e das conversas que se cruzam entre português e alemão. Sentado de cerveja na mão está João Pedro Garcia. Vai observando, sem grande pressa, a azáfama do restaurante. Chegou a Hamburgo aos 29 anos. Hoje tem 41 e foi nesta cidade portuária que nasceu o primeiro e único filho. Apesar disso, a vida não está fácil. Formado em arquitetura 3D, encontra-se desempregado e admite que «empregos qualificados não são assim tantos os que estão disponíveis». A imagem de uma Alemanha onde o trabalho nunca falta, diz, nem sempre corresponde à realidade. João Pedro Garcia na Tasquinha Galego. Créditos: Leonor WickeJoão recorda os primeiros tempos na cidade. O que mais lhe custou não foi o idioma nem o inverno rigoroso, mas a distância das pessoas. Sentia falta da facilidade com que, em Portugal, uma conversa começa num café e termina horas depois. Foi por isso que decidiu organizar festas de forró, um género musical brasileiro, que rapidamente começou a atrair dezenas de pessoas. A surpresa veio quando percebeu quem mais aparecia. «Eram sobretudo alemães. Eles recebem-nos bem e sabem integrar os portugueses.» A companheira trabalha como professora e João garante estar «aberto a tudo» no que toca ao futuro profissional. Ainda assim, deixa um aviso para quem continua a olhar para a Alemanha como uma terra onde tudo funciona sem falhas. «Há profissões onde o trabalho e as condições são precárias.» Restaurante e mural do 25 de abril no coração do Bairro Português. Créditos: Leonor Wicke.Só quando se sai do Galego é que Portugal se revela por inteiro. Bastam poucos passos para chegar ao coração do Portugiesenviertel, o bairro mais português de Hamburgo, dizem, e de toda a Alemanha. Não faltam palavras familiares nas. São cerca de quarenta restaurantes, pastelarias e cafés com nomes que dispensam tradução: A Varina, Porto, Mar Salgado, O Farol, Praça de Coimbra, Olá Lisboa, Casa Madeira, entre outros. As cartas estão escritas em alemão, inglês e português. Das esplanadas chegam pedidos em várias línguas, mas os pratos que saem da cozinha têm sempre o mesmo sotaque. Há quem pare para fotografar as fachadas, quem entre apenas para beber um café e quem espere alguns minutos por uma mesa, aproveitando para espreitar as iguarias que se revelam lá dentro. O sonho do emigrante em Hamburgo foi forjado com trabalho e sacrifício O perfil dos portugueses em Hamburgo muda com os anos, mas se há algo que fica claro é que emigrar nunca foi um processo simples. Na década de 60, quando o fluxo Portugal – Hamburgo se intensificou, os homens iam trabalhar em ofícios duros e sujos, que outros trabalhadores não queriam. As mulheres tinham a fama de ser boas cozinheiras, limpas e honestas. No geral, os portugueses eram bem-vindos e vistos pelos alemães como honestos e trabalhadores. Imagens raras de trabalhadores portugueses em frente às suas barracas. Reprodução do livro Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichten.O reagrupamento familiar só era possível de forma limitada e, para entrar, tinham de se submeter a um controlo de saúde minucioso, classificado como ‘degradante’ no livro publicado pelos investigadores. E muitos cidadãos continuaram a recorrer à passagem ilegal das fronteiras, chegando à Alemanha com os chamados ‘passaportes de coelho’. Muitas condições de habitação eram precárias, com casas de banho partilhadas ou até sem água corrente, descritas inclusive como ‘barracas’. Eram vidas compactas, prensadas pelo trabalho. O que mais surpreendeu Köpke e Pinto foram todas as mudanças de vida que estes emigrantes viveram. Os problemas superados, famílias separadas, vidas feitas de trabalho e peripécias. «Há poucos que têm uma história linear». Para os autores, todas são histórias de força e trilhar caminhos, espírito que Jorge Pinto, filho de emigrantes, já não reconhece nesta nova leva. «Antigamente havia mais persistência e resiliência», diz. Sentiu isso mesmo na pele. Jorge vive na Alemanha há 52 anos, seguindo as passadas do pai que foi o primeiro a abandonar Portugal, para depois levar a família. Enquanto historiador ou através dos pais, acabou por ter acesso a fotografias desta comunidade, do dia a dia e de festas. «As gerações que vieram com o meu pai tiveram dificuldades, mas conseguiram criar uma ilha de portugueses em Hamburgo», conta. Ambos descrevem o sacrifício como um sentimento inerente à emigração, mas, para Wulf, esta é uma palavra que pesa por vários motivos. Especialmente porque «não se ouve um imigrante português a queixar.» «Eu admiro muito estas pessoas, especialmente as mulheres, que passaram muitos sacrifícios. Uma entrevistada contou-me que deixou os seus dois bebés para trás porque o senhorio não os aceitava no apartamento para onde ia. Foram histórias que conheceram tragédia, trabalho árduo e condições precárias, no caminho em busca do sonho.» Trabalhadoras da Phoenix em Harburgo. Reprodução do livro Von Portugiesen in Hamburg – 60 Jahre, 60 Geschichten.O investigador denota ainda, com profunda admiração, «uma certa musicalidade» impressa em algumas entrevistas, «com um português tão lindo» que quase não encontra as palavras certas para o descrever. «Mulheres analfabetas, mas com um português tão refinado», explica. Aquela maneira de contar as histórias é, para Wulf, impossível de traduzir, até para ele, que aprendeu português sem professor nem obrigação, apenas porque Portugal lhe foi entrando na vida. O que transpirava nestes relatos era a firmeza de um povo que muitos olhavam com simplicidade.Esta intenção viveu na criação do livro e, apesar da hercúlea missão de recolha de testemunhos e síntese, encontraram uma maneira menos académica de interpretar a história. Criaram um livro de mesa, com mais de mil fotografias, «para ver, não para ler.» E há uma ideia que mesmo assim persiste e que partilham: a discussão sobre a migração é insuficiente, precisa de mais pormenores. Explicam que existe «uma fobia de ‘guetos’», mas a população e a imigração funcionam assim mesmo. Apesar da integração, há sempre rasgos que se mantêm e ilhas que se criam. «Não existe esta discussão em todos os países europeus, com esta narrativa. Muitos falam dos imigrantes como ‘coitadinhos’ e nós quisemos mostrar a sua força e evolução. As contribuições destes imigrantes são pouco conhecidas e valorizadas, quer na Alemanha quer em Portugal.» – Wulf Köpke, etnólogo e antropólogo Esplanada na Ditmar-Koel-Straße. Créditos: Leonor Wicke.«Um galão e um pastel de nata, bitte!» A poucos metros da Tasquinha Galega, basta atravessar a Ditmar-Koel-Straße, rua principal do Bairro Português, para entrar noutro pedaço de Portugal. No Café Cristal, os cachecóis e as bandeiras do Benfica cobrem as paredes, ao lado de fotografias antigas e pequenas recordações trazidas de Portugal. Nossa Senhora de Fátima dá as horas no fundo de um relógio redondo. Ao balcão, uma máquina de café trabalha sem descanso. Há quem peça um galão, quem procure apenas uma bica e quem aproveite para levar meia dúzia de pastéis de nata para casa.Ilda Henriques explica que a filha é a proprietária do espaço, mas como trabalha num «grande banco alemão» é a mãe quem segura o leme da pastelaria. Enquanto fala, atende um cliente na língua do país que a acolheu, responde a outro em português e volta ao balcão para pousar dois cafés e os restos de um bolo de arroz malcomido. Os gestos denunciam décadas de experiência. Nasceu na Trafaria e cresceu em Vila Franca de Xira. Foi em Hamburgo que decidiu «fazer-se à vida». Vive na Alemanha há quarenta anos, mas basta falar de Portugal para a voz abrandar. As saudades, admite, «são tantas» que por vezes os olhos ficam húmidos. Na vitrine alinham-se pastéis de nata, bolos de arroz, queques dourados e outras especialidades portuguesas. O cheiro da fornada acabada de sair faz o convite antes das palavras. Lá dentro, a luz entra serena. Não se sabe se é mérito de Ilda ou da manhã soalheira de maio, mas durante alguns instantes Hamburgo faz lembrar Lisboa. Ilda Henriques à frente do seu café. Créditos: Leonor Wicke.«Antigamente havia mais proximidade entre os portugueses», disse ao recordar uma comunidade mais unida, onde todos se conheciam e as portas permaneciam abertas para quem acabava de chegar. Apesar de reconhecer que a situação financeira melhorou desde que emigrou, não esconde o sentimento que a acompanha há décadas. «Se pudesse voltar atrás, não vinha.» No caso de Ilda parece não se tratar de arrependimento, mas nostalgia. É a saudade de quem construiu uma vida longe de casa, mas nunca deixou verdadeiramente de pertencer ao lugar onde nasceu. Ilda acredita que «culturalmente os alemães são diferentes, mais frios» e sente que a pandemia agravou muitas dificuldades. «Os preços aumentaram e de que maneira», observa. Tem três irmãs na Alemanha e, depois da morte recente da mãe, ficou responsável pelo irmão com trissomia 21. Fala dele com naturalidade e carinho, encarando a responsabilidade como parte da vida. Entre um café servido e um pastel embrulhado para levar, conta aquilo que nunca deixou para trás: «Quis ir casar a minha filha a Portugal.» Lá fora o rio corre tranquilo, indiferente ao movimento incessante que lhe dá vida. Junto à margem, embarcações turísticas cruzam-se com ferries que ligam as duas margens da cidade. Do outro lado das águas, a floresta de aço escancara a verdadeira dimensão do porto de Hamburgo. Contentores empilhados, navios vindos de todos os continentes e quilómetros de cais. É lá que trabalha Manuel Marques há mais de vinte e cinco anos. Não pertence ao mundo da restauração, onde tantos portugueses encontraram o primeiro emprego ou negócio quando chegaram à cidade. É Secretário-Geral do Sindicato na PG Maritime Solutions GmbH, empresa especializada na segurança de cargas em contentores e navios, sediada no porto de Hamburgo. Manuel fala de uma vida construída longe de Portugal sem romantizar o percurso. «A Alemanha nunca me deu nada sem ter de suar.» Chegou sem contactos ou garantias. «Vim para cá sem referências. Comecei a trabalhar no transporte de mobiliário de jardim. Subi a pulso.» Enquanto acompanha o vaivém dos barcos, a conversa desliza naturalmente para a comunidade portuguesa. Descreve-a sem eufemismos. «Tem duas faces. Alguns estão bem e há quem tenha um iogurte na prateleira de cima e só um ovo na de baixo.» O custo de vida agravou-se nos últimos anos e, na sua perspetiva, também os laços entre emigrantes se foram desfazendo. «Os portugueses desagregaram-se com o tempo.» Manuel Marques no porto de Hamburgo. Créditos: Leonor Wicke.Na plataforma portuária onde trabalha são 108 funcionários. Apenas quatro deles têm nacionalidade portuguesa e o mais novo tem 52 anos. Ainda assim, trata-se de uma profissão capaz de oferecer salários entre os 80 mil e os 200 mil euros por ano, com perspetivas de integração rápida nos quadros da empresa. É nesse contexto que Manuel justifica a importância do seu trabalho sindical. «A vitória dos sindicatos não é individual. É de todos. Serve para dar conforto aos trabalhadores.» Apesar de um percurso feito de conquistas, não esquece os momentos de dúvida. «Nos primeiros tempos na Alemanha pensei muitas vezes se regressaria a Portugal. Encontrei coragem e fiquei. Hoje, sinto-me mais daqui.» Nessa senda, tomou uma decisão pouco comum entre os emigrantes portugueses. A filha nasceu na Alemanha e nunca aprendeu a nossa língua ou tradições que por cá se cultivam. «Cresceu e sempre viveu aqui. Talvez por isso não tenha feito questão de abordar a cultura portuguesa.» Para os futuros emigrantes deixa um alerta: «é preciso ter foco, especializar-se em algo e respeitar a cultura alemã». O resto, diz sem o dizer, acaba por acontecer sozinho. A reportagem prossegue numa segunda parte, com publicação marcada para cinco de agosto. Esta reportagem teve o apoio das ‘Bolsas de Jornalismo Portugal Alemanha’, uma iniciativa da Associação de São Bartolomeu dos Alemães em Lisboa, coordenada pelo Goethe-Institut Portugal. O conteúdo O país que mora em Hamburgo: o Bairro Português vive, mas a comunidade já não se senta na mesma mesa aparece primeiro em Revista Líder.