Astrônomos do Observatório Europeu do Sul (ESO) estão disparando lasers gigantes no deserto do Atacama, no Chile, para criar estrelas artificiais na atmosfera terrestre. A técnica ajuda a compensar as distorções provocadas pelos gases do planeta e melhora a qualidade das observações do cosmos.O sistema é usado no Telescópio Muito Grande (VLT) para criar um ponto de referência luminoso a cerca de 90 km de altitude. Com ele, os astrônomos conseguem orientar espelhos que corrigem rapidamente os efeitos da atmosfera sobre a luz captada pelos telescópios, explica a BBC.Cada laser do VLT tem 22 Watts de potência, cerca de 4 mil vezes a máxima de uma caneta laser. – Imagem: Divulgação/A Berdeu/ EsoComo a atmosfera borra a visão dos telescópiosObservar o espaço a partir do solo tem um obstáculo que os telescópios espaciais não enfrentam da mesma maneira: a atmosfera. A luz das estrelas e galáxias atravessa os gases que envolvem a Terra antes de chegar aos detectores e sofre distorções que podem deixar as imagens borradas.Para compensar esse efeito, os cientistas utilizam a chamada óptica adaptativa. A luz chega ao espelho principal e depois é direcionada para um espelho menor, capaz de mudar rapidamente de forma para corrigir as alterações provocadas pela atmosfera.No VLT, materiais piezoelétricos permitem que esse espelho se deforme em alta velocidade. Ele também fica suspenso em um campo magnético.A estrela artificial a 90 km de altitudeO sistema precisa de uma estrela brilhante como referência. Quando não há uma estrela natural adequada na região observada, os lasers criam uma.Os feixes atingem uma camada rica em sódio a cerca de 90 km de altitude. A energia excita os átomos do elemento, que passam a emitir fótons, partículas que transportam a luz. Essa emissão é captada pelos telescópios e funciona como uma estrela artificial para orientar as correções.A tecnologia também evoluiu. Os equipamentos anteriores exigiam corantes líquidos tóxicos e dias de trabalho para alcançar estabilidade. Hoje, os lasers podem ser acionados com um botão e permanecem fixos durante toda a noite.Alguns números ajudam a dimensionar o sistema:Cada laser fornece 22 Watts de potência;O feixe tem 30 centímetros de diâmetro;A potência é cerca de 4 mil vezes maior que a máxima de uma caneta laser;Um dos telescópios pode disparar quatro lasers simultaneamente.No Atacama, feixes de laser ajudam os astrônomos a compensar os efeitos da atmosfera durante as observações. – Imagem: Divulgação/F Kamphues/ EsoQuatro telescópios trabalhando juntosAntu, Kueyen, Melipal e Yepun também podem disparar seus lasers ao mesmo tempo. Trabalhando em conjunto, os quatro telescópios formam um sistema virtual com um campo de visão maior.Leia mais:Brasil ajuda a construir telescópio gigante no Chile que poderá revolucionar a observação do UniversoDivulgação científica: como trazer o Universo para mais perto de quem nunca olhou por um telescópioTelescópio Roman pode dobrar tempo de missão e ficar 22 anos no espaçoO VLT já contribuiu para observações que resultaram em descobertas importantes, como a primeira imagem de um exoplaneta e o acompanhamento de estrelas que se movem ao redor do buraco negro no centro da Via Láctea.A operação exige ainda cuidados com o tráfego aéreo. Caso uma aeronave entre no espaço aéreo próximo ao observatório, um mecanismo de segurança desliga automaticamente os feixes.A nossa atmosfera nos protege, o que é fantástico. Mas, para os astrônomos, é horrível, pois a atmosfera basicamente prejudica a nitidez da luz proveniente das estrelas e galáxias.Amelia Bayo, cientista de projetos do ESO, à BBC.No Atacama, os enormes feixes que cortam o céu têm uma função específica: criar uma referência luminosa para que os telescópios consigam lidar com os efeitos da atmosfera e observar o Universo com mais nitidez.O post Lasers gigantes criam estrelas artificiais no céu do Atacama apareceu primeiro em Olhar Digital.