A conquista de uma credibilidade fiscal genuína no Brasil virá do enfrentamento direto da rigidez orçamentária. Nenhum ajuste se mostra crível ou duradouro se limitar-se a re-calibrar parâmetros de projeção sem combater a expansão mecânica das despesas obrigatórias.Impulsionados por vinculações constitucionais e pela dinâmica demográfica, esses gastos crescem em verdadeiro piloto automático, consumindo a quase totalidade da receita corrente e reduzindo a margem de manobra do Estado para investimentos públicos e políticas discricionárias. Sem atacar a engrenagem que expande as despesas de forma inercial, qualquer tentativa de reequilíbrio fiscal permanece vulnerável e superficial.A consequência desse desequilíbrio transborda diretamente para o lado real da economia e para a condução da política monetária. O arrefecimento do consumo das famílias e o encolhimento da renda disponível evidenciam os limites de um modelo altamente dependente de alavancagem financeira e crédito.Vemos essa restrição, por exemplo, com a sucessão de grandes redes do varejo recorrendo à proteção jurídica da recuperação judicial. O setor atravessa um estrangulamento sistêmico causado pelo choque prolongado de juros. Empresas que estruturaram sua expansão baseadas em escala acelerada e endividamento barato passaram a enfrentar um encarecimento drástico do refinanciamento de dívidas e a despesa financeira corroendo suas margens operacionais. Ora, se o custo do crédito dispara e a capacidade de pagamento do consumidor se esgota, a sobrevivência corporativa passa a depender de margens reais e corte drástico de custos, levando essas empresas a buscarem o apoio judicial para reestruturar seus passivos.Nesse contexto, a condução da política monetária opera sob constante tensão. A necessidade de conter pressões inflacionárias, em um ambiente de desconfiança fiscal, exige a manutenção do custo do dinheiro em patamares restritivos. Contudo, enquanto a autoridade monetária busca calibrar a taxa básica para desacelerar a demanda e re-ancorar as expectativas, a falta de disciplina nas contas públicas impede que a flexibilização se traduza em alívio duradouro para o setor produtivo.A assimetria entre a política monetária doméstica e o cenário internacional adiciona outro risco para esse quadro. Quando as principais economias e os grandes bancos centrais enfrentam repiques inflacionários ou adiam a queda de suas taxas, o diferencial de juros passa a exigir prêmios de risco mais elevados do Brasil. A consequência direta é a permanência do país no topo das estatísticas de juros reais, ostentando taxas descontadas da inflação superiores às de nações com severo desarranjo institucional, ou sob regimes de inflação descontrolada (O Brasil lidera o mundo em juro real com 8,45% a.a, superando países como Rússia com 6,79%, Colômbia com 6,33%, Turquia com 6,25% e México com 3,08%).Trata-se de uma anomalia custosa sustentada pela incerteza fiscal e pela falta de ancoragem nas expectativas de longo prazo. Sob o impacto desse garrote financeiro, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) desponta como o ponto mais crítico da economia brasileira atual. Com o custo de oportunidade do capital travado em níveis proibitivos, o setor privado é levado a priorizar a preservação de liquidez em ativos de renda fixa em detrimento de projetos produtivos na indústria, na infraestrutura e na inovação.Sem investimento estrutural na capacidade instalada, o crescimento potencial da economia do país desmorona. Qualquer tentativa pontual de reacender a demanda via estímulos fiscais acaba gerando apenas inflação, exigindo, em resposta, novos ciclos de aperto monetário.