Entenda por que o legado de Getúlio Vargas rompe a divisão tradicional entre direita e esquerda

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O debate sobre se getúlio vargas era de direita ou esquerda costuma esbarrar na tentativa de aplicar conceitos políticos contemporâneos a um líder que governou sob a lógica do pragmatismo. Comandando o Brasil por quase duas décadas, em dois períodos distintos, ele estruturou as bases do Estado moderno brasileiro ao mesmo tempo em que concentrava poderes absolutos. Compreender o varguismo exige observar como a máquina pública foi usada para neutralizar opositores e atrair o apoio das massas, misturando controle social rigoroso com a concessão de direitos inéditos aos trabalhadores urbanos.A construção de um líder além dos rótulos políticosA ascensão de Vargas ao poder na Revolução de 1930 marcou o colapso da República Velha, um sistema dominado pelas oligarquias rurais de São Paulo e Minas Gerais. Ao assumir o governo, ele não representava um movimento ideológico puro, mas sim uma aliança heterogênea de tenentes, classes médias urbanas e dissidentes regionais. O principal objetivo naquele momento era modernizar a estrutura do país, transferindo o eixo de poder do campo para a indústria e fortalecendo a autoridade do governo federal.Durante o Estado Novo, instaurado a partir do golpe de 1937, o alinhamento do presidente assumiu contornos abertamente ditatoriais e conservadores nos costumes. Inspirado em modelos corporativistas europeus, o governo suprimiu liberdades individuais, fechou o Congresso Nacional e extinguiu os partidos políticos. O nacionalismo foi a ferramenta escolhida para unificar uma nação fragmentada, criando um senso de identidade cívica que colocava o Estado acima de qualquer disputa de classes ou ideologia partidária.Ainda assim, ao retornar ao poder de forma democrática em 1951, ele adotou um discurso amplamente focado na soberania nacional e na proteção dos mais pobres. Essa capacidade de adaptação permitiu que sua imagem fosse desvinculada do autoritarismo inicial e associada, nas décadas seguintes, à defesa do patrimônio público e aos interesses populares, dificultando uma classificação política simples.O funcionamento do pragmatismo varguista na máquina públicaNa prática, o governo operava por meio de uma forte intervenção na economia, algo que hoje é frequentemente associado ao espectro progressista, mas que na época servia a um projeto de segurança e autonomia nacional. A criação de gigantes estatais, como a Petrobras, a Vale do Rio Doce e a Companhia Siderúrgica Nacional, tinha o propósito de garantir a infraestrutura básica para que o setor privado pudesse se industrializar sem depender de capital estrangeiro.No campo social, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) de 1943 exemplifica a complexidade desse modelo. Ao mesmo tempo em que garantiu direitos históricos como férias, salário mínimo e jornada regulamentada, a legislação atrelou os sindicatos ao Ministério do Trabalho. A intenção era clara: evitar greves e conflitos sociais que pudessem ameaçar a produção econômica. O Estado tornava-se o grande árbitro das relações trabalhistas, esvaziando o poder de mobilização independente dos trabalhadores.Esse mecanismo de cooptação social, conhecido como populismo, permitia que o presidente fosse visto como o "Pai dos Pobres", mantendo a classe operária sob estrita vigilância. As benesses sociais não eram conquistas arrancadas por movimentos revolucionários, mas sim concessões calculadas de um governo que precisava de estabilidade para forçar a industrialização do país a qualquer custo.O xadrez ideológico entre comunistas, integralistas e a imprensaPara manter o controle do Estado, Vargas manipulou as peças do tabuleiro político com frieza, mudando de aliados conforme a conveniência do momento. Durante a década de 1930, ele observou a polarização global se refletir no Brasil com a ascensão da Ação Integralista Brasileira, de inspiração fascista, e da Aliança Nacional Libertadora, liderada por comunistas. O governo usou o medo da ameaça vermelha como justificativa principal para endurecer o regime.Após reprimir duramente a Intentona Comunista de 1935, prendendo e torturando opositores de esquerda como Luís Carlos Prestes e Olga Benário, Vargas parecia inclinado à direita. No entanto, quando os integralistas tentaram um levante em 1938 para exigir participação no poder, o presidente agiu com a mesma truculência. O movimento de extrema-direita foi esmagado, demonstrando que não havia espaço para opositores, independentemente do espectro ideológico.A imprensa também foi uma peça fundamental nesse xadrez de controle social. Por meio do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o governo censurava jornais e rádios que ousassem criticar a administração, enquanto produzia cartilhas e noticiários oficiais exaltando a figura do líder. A máquina de propaganda estatal garantiu que a narrativa oficial prevalecesse, apagando as contradições do regime e silenciando vozes dissidentes tanto liberais quanto socialistas.Dúvidas frequentes sobre a ideologia de Getúlio VargasQuais eram as semelhanças de Vargas com o fascismo europeu?Durante o Estado Novo, a Constituição de 1937, apelidada de "Polaca", concentrou o poder Executivo e suprimiu os direitos civis. O governo utilizou forte propaganda estatal, censura prévia, perseguição policial a opositores e a valorização extrema do nacionalismo, características que dialogavam abertamente com os regimes de Mussolini na Itália e Salazar em Portugal.Por que líderes de esquerda defendem aspectos do varguismo hoje?A simpatia contemporânea de setores progressistas está ancorada no segundo mandato de Vargas (1951-1954). Nesse período democrático, ele adotou postura de enfrentamento ao capital estrangeiro, criou o monopólio estatal do petróleo e tentou aumentar o salário mínimo em 100%, medidas que consolidaram sua imagem como defensor da classe trabalhadora e da soberania econômica.Como o governo lidava com o empresariado e a elite financeira?Apesar da retórica popular, a política econômica varguista beneficiava diretamente a burguesia industrial brasileira. O fechamento do mercado a produtos estrangeiros e os pesados investimentos estatais em infraestrutura garantiram lucros recordes para os industriais nacionais, o que atraiu o apoio estratégico de uma parcela significativa das elites empresariais.Ao se desvincular das caixinhas tradicionais da política, o modelo criado a partir de 1930 moldou definitivamente a relação entre o Estado e a sociedade no Brasil. A herança desse período — que combina a proteção legal do trabalhador com um Estado centralizador e forte — continua a pautar as decisões econômicas e institucionais do país, provando que o pragmatismo muitas vezes sobrevive às ideologias puras na construção do poder.