Quando se fala de carros espetaculares, as referências a marcas alemãs e italianas são obrigatórias e poucos se lembrariam de incluir uma chinesa na lista. Mas a Denza, a marca premium do grupo chinês BYD, quer mudar isso.E se é verdade que a criatividade que faltou às marcas chinesas para desenhar automóveis parece ter passado para as nomenclaturas – a última letra do alfabeto há muito que surge acoplada a um superesportivo da Nissan – o certo é que o sistema de propulsão elétrica deste Denza de 1.604 cv está deixando perplexa a concorrência internacional.E, visualmente, o Z seduz, sendo um bom exemplo do enorme talento de Wolfgang Egger, o diretor de estilo da montadora chinesa, que no passado encantou o mundo com vários modelos da alemã Audi e da italiana Alfa Romeo (como o sensacional superesportivo 8C). Continua após a publicidadeZ acelera de 0 a 100 km/h em 2,25 segundos, de acordo com a DenzaDivulgação/Quatro RodasSão muito poucos os potenciais compradores deste rarefeito segmento de mercado que já ouviram falar da Denza. Sumariamente explicada, é a marca alter ego do Grupo BYD que ambiciona ser para os chineses o que a Lexus é para a Toyota, a Infiniti para a Nissan ou a Genesis para a Hyundai. Continua após a publicidadeEstéticas diferenciadas, construção e equipamentos luxuosos, performances fora de série e preços condizentes.O que precisa ser diferente em oficinas de carros elétricos e híbridos Continua após a publicidadeMas o esguio e baixo Z da Denza – que pode ser adquirido como cupê, conversível ou numa versão R ainda mais esportiva – investe contra a concorrência com sua promissora simbiose de potência/performances, design elegante e um preço que deverá partir de 160.000 euros (R$ 935.000, na Europa), muito abaixo do que pedem as marcas ocidentais pelos seus topos de gama.Volante multifuncional reúne os comandos dos principais sistemas que o motorista de um esportivo precisa ter à mãoDivulgação/Quatro Rodas Continua após a publicidadeSe olharmos para o mais potente dos Porsche, o Taycan – para ficar no domínio dos hiperesportivos elétricos –, vemos que o Turbo GT Weissach exige cerca de 80.000 euros (R$ 467.000) mais do que o Denza Z… e oferece 500 cv a menos.Ainda que seja superior em outros campos, como prestígio, qualidade geral e competência dinâmica – valores que, depois de certos patamares, pesam mais que potência e dinheiro. Continua após a publicidadeO Festival de Goodwood, evento que reúne o topo da pirâmide dos aficionados, no sul da Inglaterra, onde a Denza apresentou o Z, foi um bom laboratório para contextualizar a relevância desse lançamento.O nome Z já tem histórico entre os esportivos, por conta do Nissan Z. Espaço traseiro é mera formalidade. Porta-malas leva 250 lDivulgacão/Quatro RodasInfelizmente não foi uma oportunidade para conhecer o carro em um teste completo, mas apenas adquirir uma primeira impressão em três voltas em uma pista com extensão de 3.860 metros (o circuito de Interlagos mede 4.309 m).Irrigação do cérebro Capacete colocado, cinto apertado, um engenheiro como acompanhante e lá vamos nós. Os bancos são confortáveis, as telas demasiado normais (poderiam estar num BYD Dolphin…), há couro por todo lado e a qualidade de montagem é convincente, mesmo que um ou outro plástico seguramente não seria utilizado num 911 ou num McLaren.O interior é pensado apenas para dois e os dois lugares traseiros serão mais úteis para colocar bagagem adicional do que para transportar alguém.A entrega de potência é forte, como se poderia esperar, mesmo com menos de metade do acelerador pressionado, ainda que o mapeamento do pedal tenha sido feito de forma relativamente conservadora, segundo a fábrica, para evitar desmaios por insuficiência de irrigação sanguínea do cérebro.É certo que as limitações dessa primeira experiência eram muitas, mas a verdade é que entre essa entrega de potência progressiva e a impossibilidade de ativar o modo Boost terminei com uma sensação de anticlímax.–Divulgacão/Quatro Rodas Não senti aquela aceleração balística e superlinear de outros elétricos com mais de 1.000 cv que já dirigi. Fica por verificar, num teste posterior mais completo, se realmente o que o Z promete no papel passa para a estrada.E o que tem no papel é muito: dois motores no eixo traseiro (cada um gerando 340 kW/460 cv) e outro na dianteira (500 kW/680 cv), para uma potência total de 1.180 kW/1.604 cv, além de um colossal torque de 126,5 kgfm.Nesta versão de entrada, a Denza acena com a possibilidade de concluir o sprint de 0 a 100 km/h em 2,25 segundos. E atingir a velocidade máxima de 300 km/h, da qual não pudemos nos aproximar, pelas limitações do circuito (com retas bem curtas).Essa máxima está, no entanto, limitada eletronicamente para a bateria (de apenas 76 kWh, para não elevar o peso além das 2,2 toneladas) não se gastar tão depressa quanto a sua carga pode ser reposta, ainda que em carregadores super-rápidos.Sistema de som hi-end e destravamento elétrico da portaDivulgação/Quatro RodasOs freios cerâmicos (que usam seis pistões à frente e quatro atrás) atingem a temperatura e ganham a capacidade de frenagem e resistência à fadiga que deles se espera.Um pouco mais de apoio lateral nos bancos seria bem-vindo e também uma direção mais comunicativa, até porque é nos seus concorrentes que encontramos algumas das direções mais precisas da indústria, de autoria de Porsche, McLaren e Lamborghini.O engenheiro de testes no banco do passageiro insiste em manter todos os controles eletrônicos de chassi ativados, pelo que entradas em curva com velocidade excessiva resultam em interrupção da entrega de potência, o que prejudica um pouco a eficácia do comportamento e a agilidade.Sigo obedecendo as instruções de quem conhece a pista como a palma da mão e fazendo o meu melhor: tocando a tangente da curva para uma trajetória correta e contornando à esquerda e à direita para não perder o ritmo. Percebe-se que são mais as rodas traseiras que empurram do que as dianteiras que puxam e isso é bom.Como acontece com frequência nessas primeiras experiências dinâmicas com carros chineses, há funções que ainda não estão ativas. É o caso do botão vermelho “Boost”, à direita da face do volante;do botão “Track Mode”, à esquerda – trata-se de um software com dados específicos sobre a dinâmica do carro para extrair o máximo do tempo passado em circuito e também uma afinação dinâmica com função de aceleração em linha reta com controle de partida e uma configuração de deriva que ajusta a distribuição de potência entre a frente e a traseira para permitir derrapagens laterais mais facilmente controláveis.No caso do botão Boost, os engenheiros da Denza explicam que ele serve para amplificar o torque do acelerador em 30% durante 20 segundos e, enquanto estiver ativado, a instrumentação e a tela tátil mudam sua apresentação para refletir o desempenho adicional.Igualmente sem ação estavam as borboletas atrás do volante, que servem para emular o funcionamento de um sistema de câmbio. Pena não estarem funcionando, porque seguramente ajudariam a tornar mais envolvente a experiência na pista.Aerodinâmica bem projetada resulta em um coeficiente de 0,25 (cd)Divulgação/Quatro RodasO Z estreia também o sistema de amortecimento inteligente DiSus-M com essa plataforma e3, que já estava anteriormente montada no Z9 GT. Esse sistema ativo utiliza um fluido nos seus amortecedores (magnetorreológicos) que pode alterar a sua viscosidade em milésimos de segundo quando exposto a um campo magnético.Isso, por sua vez, permite que o sistema de controle do Z faça ajustes ultrarrápidos no amortecimento nas fases de extensão e de compressão.Versão racingO nível de conforto de rolagem é convincente para um superesportivo e promete compatibilidade com asfaltos menos perfeitos do que esse da pista de Goodwood.Velocidade máxima divulgada, de 300 km/h, é digna de um superesportivoDivulgação/Quatro RodasA suspensão independente nas quatro rodas tem estrutura duplo A à frente e eixo multibraços na traseira, e molas pneumáticas.O Z tem um chassis monobloco de alumínio (produzido com um processo de fundição chamado gigacasting, mesmo processo adotado pela Porsche, no 911; e pela Tesla, no Y), em vez de uma estrutura monocoque tubular, como é mais comum em superesportivos.Quem quer mais desempenho é possível optar pela versão de topo do carro, Racing, que tem nas pistas de velocidade o seu habitat natural (com os pneus certos, eleva a velocidade máxima a 350 km/h e baixa a barreira dos 2 segundos de 0 a 100 km/h, segundo a fábrica).A asa traseira de grande dimensão faz com que alongue o comprimento, e outra alteração importante é a utilização de molas helicoidais, em vez das pneumáticas, até porque a velocidade de ponta de 350 km/h aconselha a um pouco menos de conforto em troca de estabilidade acrescida.VeredictoO Z tem tudo para agradar. Mas a marca precisa de tempo para construir sua reputação.Ficha técnicaPreço: 160.000 euros (R$ 935.000)Motor: 3 elétricos, 1 diant., 680 cv e 44,9 kgfm; 2 tras., 462 cv e 41,8 kgfm. Total 1.604 cv e 126,5 kgfmBateria: lítio, ferro-fosfato, 76 kWh, 800 VCâmbio: automático, 1 m., 4×4Direção: elétricaSuspensão: duplo A (diant.), multibraços (tras.)Freios: disco cerâmico ventiladoPneus: 255/40 R20 (diant.), 265/40 R21 (tras.)Dimensões: compr. 478 cm; larg. 197,5 cm; alt. 133 cm; entre-eixos 278 cm; peso 2.230 kg; porta-malas, 250 lDesempenho*: 0 a 100 km/h, 2,25 s; velocidade máxima 300 km/h, recarga: AC/DC – 11 kW/até 1.500 kW, 0 a 100% (AC), 9h, (DC), 9 min*Dados de fábrica Publicidade