As eleições presidenciais podem provocar uma forte reprecificação da Bolsa brasileira já no primeiro pregão após a votação, Contudo, passada a reação inicial às urnas, o fiscal é o segundo “trade” que tende a assumir o protagonismo. Para análises de grandes bancos, o mais importante para sustentar uma valorização da Bolsa por meses ou anos será saber se o próximo governo conseguirá convencer os investidores de que pode estabilizar as contas públicas, reduzir o prêmio de risco e abrir espaço para juros reais estruturalmente menores.Isso não significa que o nome a se sair vencedor da eleição – Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL) seja irrelevante mesa de trading do Goldman Sachs, por exemplo, trabalha com três possibilidades para o primeiro turno, que vão de risco de correção dos ativos a um forte rali a depender da distância observada entre os candidatos. Mas a explicação econômica por trás desses movimentos está, novamente, no fiscal: o mercado tenta antecipar qual resultado teria maior probabilidade de produzir um ajuste das contas públicas.Leia tambémBolsa: opções em dólar indicam “movimento explosivo” após o 1º turnoVolume de opções de compra do principal ETF de Ibovespa no mercado internacional disparou e pode influenciar o mercado já na segunda-feira, a depender do resultado das urnas; entenda o potencialIsso porque, mesmo diante de uma reação forte imediatamente depois das urnas, o mercado rapidamente abandona o resultado eleitoral isolado e passa a cobrar equipe econômica, propostas e implementação das políticas anunciadas.Dependendo das premissas, os exercícios das casas chegam a colocar a Bolsa brasileira entre queda superior a 40% e valorização acima de 70%. Não se trata de previsões para o índice, mas de testes de sensibilidade que ajudam a dimensionar o quanto juros reais, credibilidade fiscal e reformas podem alterar o valuation das ações.Por que o fiscal importa tanto?A discussão começa pelo tamanho do problema da dívida pública no Brasil. O próximo governo assumirá um país cuja dívida bruta passou de R$ 2,7 trilhões no fim de 2013 para R$ 11 trilhões em agosto de 2026. Na proporção do PIB, avançou de 51,5% para 82,9% nesse período.Há ainda uma dificuldade adicional para fazer o ajuste: cerca de R$ 9 de cada R$ 10 gastos pelo governo federal, excluídos os juros, já têm destinação determinada, enquanto mudanças importantes nas despesas dependem do Congresso.O fiscal chega à Bolsa por diferentes caminhos.Quando cresce a desconfiança sobre a sustentabilidade da dívida, os investidores exigem juros maiores para financiar o governo. Isso eleva as taxas longas da economia e também a taxa usada para trazer a valor presente os lucros futuros das empresas. Juros reais elevados significam, portanto, valuations menores para as ações.O movimento inverso cria potencialmente um círculo virtuoso uma vez que maior confiança fiscal reduz prêmio de risco, permite juros menores e diminui o custo de capital de empresas. Para companhias mais alavancadas ou dependentes de crédito, pode também significar recuperação dos próprios resultados.É por isso que a Kinea argumenta que perguntar simplesmente se a Bolsa está barata pode levar a uma conclusão incompleta. O Ibovespa negociava perto de oito vezes os lucros projetados na análise da gestora, abaixo da média histórica de aproximadamente dez vezes, mas os títulos públicos ofereciam mais de 7% ao ano acima da inflação.Leia tambémAs 7 ações mais recomendadas antes do 1º turno das eleiçõesSabesp sobe nas indicações e passa a dividir a liderança com outras peso-pesadas nas carteiras de bancos e corretoras para atravessar o pleito independentemente do resultadoA questão decisiva, portanto, é se o país poderá deixar de precisar oferecer juros reais tão elevados para financiar sua dívida. Se isso acontecer, a Bolsa pode ganhar simultaneamente por expansão dos múltiplos, redução das despesas financeiras das empresas, melhora do crédito e aceleração dos lucros.Itaú BBA: do juro real de 8,5% para 5%O Itaú BBA fez um exercício de sensibilidade levando em conta o cenário para a Bolsa e o regime fiscal. Em vez de atrelar diretamente um nível da Bolsa a um resultado eleitoral, os estrategistas trabalham com quatro regimes fiscais: “tendência atual”, “arcabouço atual”, “reformas 2” e “reformas 1”.Entre os extremos, a taxa real utilizada nas simulações vai de 8,5% no cenário mais adverso a 5% no mais positivo, ante cerca de 7,5% no momento da análise.A consequência para as ações é expressiva. O múltiplo P/L (preço sobre lucro) pode variar de 7,3 vezes no pior cenário a 11,5 vezes no melhor. Nas contas do Itaú BBA, a assimetria entre os extremos é da ordem de dois para um.Leia tambémPor que a dívida pública é importante e deve pautar o governo do próximo presidenteCom os juros, governo gasta mais do que arrecada e quase todo o Orçamento já tem destino – mas nenhum dos favoritos detalhou como pretende mudar isso caso seja eleitoEssa é uma diferença importante em relação aos trades diretamente eleitorais: o exercício não depende de associar automaticamente determinado resultado das urnas a determinado cenário fiscal. O que determina o valuation é a trajetória econômica efetivamente entregue.Historicamente, segundo o banco, o P/L projetado do Ibovespa já variou de aproximadamente 6,5 vezes em 2022 a cerca de 14 vezes em 2019 e no período pré-pandemia de 2020. Portanto, mesmo o cenário mais positivo da simulação, de 11,5 vezes, não leva o mercado de volta aos maiores valuations recentes.XP: de 165 mil a 248 mil pontosA XP traduz a sensibilidade diretamente em pontos para o Ibovespa. Seu cenário-base aponta valor justo de aproximadamente 201 mil pontos. No cenário otimista, juros reais de 6%, lucros e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) 10% superiores ao caso-base e expansão de múltiplos levam o índice a 248,4 mil pontos.No pessimista, com juros reais em 8,5%, lucros e Ebitda 10% menores e múltiplos retornando às mínimas, a conta cai para 165,6 mil pontos. Ou seja, a distância entre os extremos é de mais de 82 mil pontos no próprio exercício da casa.A XP também coloca a dívida no centro do problema: afirma que os juros longos são o principal obstáculo para um rali mais forte e os relaciona diretamente às trajetórias fiscal e da dívida.E quais ações entram em cada cenário?A XP destaca duas cestas de ações a depender do cenário. O primeiro é sobre ações que poderiam se beneficiar de políticas mais favoráveis aos negócios, redução dos prêmios de risco e juros mais baixos após uma sinalização fiscal mais crível. Estão nela Petrobras (PETR4), B3 (B3SA3), Sabesp (SBSP3), Banco do Brasil (BBAS3) e Localiza (RENT3).Na direção oposta está a cesta de Deterioração Fiscal, construída para buscar proteção em um ambiente no qual o real enfraquece e os juros longos sobem. A seleção inclui Aura (AURA33), Petrobras (PETR4), Gerdau (GGBR4), WEG (WEGE3) e Suzano (SUZB3). Predominam exportadoras, empresas ligadas ao câmbio e negócios de qualidade e baixa alavancagem.JPMorgan: a Bolsa precisa mudar de “regime”O JPMorgan, por sua vez, divide os últimos dez anos do Brasil em quatro regimes macroeconômicos e políticos: crise, deterioração, melhora e ajuste estrutural. Os múltiplos médios de P/L observados nesses períodos foram, respectivamente, de 7 vezes, 8,3 vezes, 10,9 vezes e 13,3 vezes.Na referência utilizada pelo banco, o MSCI Brazil estava a 8,9 vezes o lucro projetado, portanto mais próximo de “deterioração” do que de “melhora”.A migração para o regime de melhora corresponderia a potencial de valorização de 22%; em um ajuste estrutural, a reprecificação poderia chegar a cerca de 50%. Na direção contrária, deterioração e crise representariam potenciais de queda de 7% e 21%.Para os estrategistas do banco americano, uma simples mudança de governo não seria suficiente para produzir automaticamente essa expansão de múltiplos. O mercado precisaria observar depois das eleições a definição da equipe econômica, objetivos fiscais de curto e longo prazo, suporte no Congresso e capacidade política para executar a agenda.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa tem dia volátil na última sessão antes das eleiçõesBolsas dos EUA avançam após dados do payroll abaixo do esperadoAssim, aponta, o verdadeiro gatilho para uma segunda perna de valorização da Bolsa poderia vir depois da eleição, com os juros caminhando para níveis mais neutros.BBI: nos extremos, de -44% a +76%Já o Bradesco BBI, no melhor cenário, com reformas, calcula 76% de valorização para o MSCI Brazil. A simulação combina expansão do P/L para aproximadamente 11 vezes e queda próxima a três pontos percentuais nos juros reais das NTN-Bs.No extremo oposto, um cenário sem reformas produziria queda potencial de 44%. Entre ambos aparecem hipóteses intermediárias, incluindo valorização de 25% em um cenário de consolidação fiscal.O exercício também ajuda a identificar onde a Bolsa pode reagir mais. Nos cenários positivos, a redução dos juros reais aparece como principal motor de valorização. Isso beneficia especialmente ações de duração longa e empresas sensíveis às taxas. Já no pior cenário, o real absorveria parcela relevante da deterioração, aumentando a atratividade relativa de empresas que funcionam como proteção cambial.Goldman: eleição pode abrir a porta, mas o mercado cobrará entregaA leitura do Goldman Sachs talvez seja a que melhor sintetize as duas etapas do trade, sendo que primeiro vem a eleição e depois as sinalizações fiscais. Os estrategistas destacam que os juros brasileiros carregam prêmios elevados e poderiam apresentar forte fechamento caso o ambiente pós-eleitoral aumente a confiança em uma maior disciplina fiscal. O banco vê justamente na curva de juros a melhor assimetria entre os ativos brasileiros.Leia tambémÀ prova das urnas? Quanto a eleição pode mudar a Petrobras (e as suas ações)Para analistas, eleições podem causar volatilidade, mas tese para as ações deve seguir intactaNa Bolsa, ações domésticas sensíveis aos juros apresentam sensibilidade às taxas entre duas e três vezes maior que a do índice cheio. Por isso, podem estar entre as principais beneficiárias se uma melhora fiscal for suficientemente forte para reduzir as taxas.O histórico reforça a distância, com o Goldman Sachs lembrando que, em 2006 e 2018, as ações brasileiras chegaram a avançar entre 10% e 20% nos seis meses posteriores à eleição, enquanto depois de 2022 houve correção próxima de 15%. Para a casa, a diferença esteve justamente nas políticas implementadas depois das urnas.Com isso, o “trade eleitoral” pode dar a direção dos primeiros pregões, mas a duração do movimento dependerá da capacidade de o próximo ciclo político convencer o mercado de que a dívida pode entrar em uma trajetória sustentável.The post Eleições importam, mas o grande trade para a Bolsa será o fiscal; veja os cenários appeared first on InfoMoney.