Maioria nas urnas, minoria nas decisões

Wait 5 sec.

No próximo domingo, 83,8 milhões de brasileiras poderão votar. Somos 52,81% do eleitorado, portanto, a maioria. Ainda assim, a maioria das decisões é tomada por homens. Ocupamos cerca de 18% das cadeiras da Câmara dos Deputados e menos de 20% das do Senado.Nossos interesses são majoritariamente discutidos e decididos em espaços ocupados por homens. Leitoras e leitores, já não passou da hora de mudarmos essa relação de poder?Vou descrever uma cena que muitas conhecem bem. Uma mulher sai cedo de casa, deixa a filha na creche e corre para o ponto de ônibus. Faz calor, mas as poucas árvores da rua não chegam até ali e ela espera sob o sol. Trabalha do outro lado da cidade. No meio da manhã, recebe uma ligação da mãe idosa: precisa marcar uma consulta e não consegue resolver sozinha. Entre uma tarefa e outra, a filha procura atendimento, confere os horários e calcula quando poderá acompanhá-la. Às cinco, precisa sair sem atraso. A creche fecha às seis e não há outra pessoa para buscar a menina. Começa a chover. A avenida alaga e o ônibus muda de caminho. Ela olha o relógio. Quando finalmente chega à creche, ainda precisa voltar para casa com a filha, no escuro e debaixo de chuva. Carrega a menina e a mochilinha no colo e muda de calçada.Nenhuma dessas questões depende de um único governante.Creche, calçada, arborização e ônibus estão mais perto da prefeitura. Trens, hospitais, segurança, saneamento e grandes obras envolvem também os governos estadual e federal. Deputados e senadores não plantam árvores nem administram postos de saúde, mas votam leis e orçamentos, fiscalizam governos e participam da destinação de recursos públicos.Quando elegemos alguém, escolhemos também quem discutirá o que é prioridade, para quem e onde o dinheiro será empregado.Mais vagas em creches? Atendimento para quem envelhece? Moradia perto do transporte? Mais metrô e trens? Árvores nos bairros mais quentes? Obras contra enchentes? Segurança para quem volta sozinha para casa?O que acontece quando mais mulheres chegam aos lugares onde essas prioridades são discutidas?Há dados sobre isso. Um estudo da Câmara dos Deputados e da Universidade de Brasília mostrou que, embora fossem menos de 20% dos parlamentares, as mulheres responderam por quase 30% das propostas analisadas sobre questões de gênero, com maior presença de temas ligados à violência doméstica, igualdade e direitos políticos femininos.Nos municípios, diferentes estudos associaram a presença de prefeitas à contratação de mais profissionais de saúde e educação, à melhoria do atendimento pré-natal, à obtenção de mais recursos federais para investimentos e à redução da violência contra mulheres.Mulheres não formam um bloco político. Partido, região, trajetória, raça e classe também influenciam suas escolhas, e ser mulher não determina as prioridades de uma governante ou parlamentar.Mas essas experiências precisam chegar aos lugares onde as prioridades são definidas.No domingo, seremos novamente maioria diante das urnas, mas não entre aqueles que, com sorrisos largos e memória curta, pedem nossos votos.Somos quase 53% do eleitorado, pouco mais de um terço das candidaturas e menos de um quinto das cadeiras atuais da Câmara e do Senado.