Eleição 2026: o que o investidor deve observar após o 1º turno

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Às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais, o investidor enfrenta uma dificuldade que vai além de tentar antecipar o resultado da eleição: entender o que o próximo governo efetivamente fará depois da votação.O problema é que algumas das decisões mais relevantes para o mercado, especialmente na área fiscal, tendem a aparecer com menos clareza durante uma disputa apertada.Isso torna a eleição apenas o primeiro passo de uma análise mais longa. Depois dela, será preciso acompanhar a formação da equipe econômica, as propostas apresentadas, o apoio do presidente a essas medidas e a capacidade de aprová-las no Congresso.“Mesmo quem apostou num resultado, fez isso com dúvidas”, afirma Paulo Gama, head de análise política da XP, ao podcast Outliers InfoMoney.Por que os candidatos evitam falar em ajuste fiscalEm uma eleição disputada, há pouco incentivo político para detalhar medidas que possam ser percebidas como impopulares.É nesse contexto que Gama explica a dificuldade de extrair das campanhas uma agenda fiscal suficientemente detalhada para projetar o que acontecerá depois da eleição.Ele compara a situação brasileira à eleição argentina de 2023.“A gente não está num ambiente como foi o da Argentina, em que tamanha era a crise que houve a possibilidade de uma candidatura ser explícita sobre as medidas que precisavam ser tomadas, ainda que duras, e ainda assim conservar um capital político e eleitoral grande”, afirmou, aos apresentadores Clara Sodré, analista de fundos da XP, e Fabiano Cintra, head de análise de fundos da XP.Para o investidor, o resultado é uma lacuna importante: a ausência de propostas detalhadas durante a campanha não permite concluir, por si só, qual será a política fiscal do governo eleito.Na análise apresentada por Gama, um dos pontos centrais será entender como o próximo governo pretende enfrentar o crescimento das despesas obrigatórias e seus efeitos sobre a trajetória da relação dívida-PIB.A leitura, portanto, terá de continuar depois das urnas.Veja mais: Eleições importam, mas o grande trade para a Bolsa será o fiscal; veja os cenáriosE também: Quais setores e ações da Bolsa costumam se dar melhor em outubro de eleições? Da proposta à lei, o caminho é mais longo do que pareceMesmo uma proposta econômica claramente apresentada pelo governo ainda está longe de produzir efeitos concretos.Entre a formulação de uma medida e sua implementação existe uma sequência de decisões políticas, legislativas e administrativas.“Entre você ter a formulação de uma agenda dentro de uma equipe econômica, essa agenda ser validada dentro do próprio Executivo, se transformar num projeto de lei, passar por toda a tramitação no Congresso, até que seja aprovada — com todas as mudanças efetivadas pelos parlamentares —, passar por processo de veto ou sanção do presidente e depois a regulamentação da lei já colocada em prática, você vê que tem uma distância gigantesca entre um ponto e outro”, diz Gama.Por isso, o investidor não deveria avaliar uma política apenas pelo anúncio inicial.Quem formula a proposta, quem a apoia dentro do governo e como ela chega ao Congresso são sinais que ajudam a estimar sua capacidade de avançar.Um deles é a escolha do relator.Na avaliação de Gama, um parlamentar governista pode enfrentar mais dificuldade para construir apoio entre os pares. Um deputado de centro tende a produzir um texto de composição, enquanto um parlamentar da oposição pode buscar alterações mais profundas na proposta.O comportamento do próprio Executivo também importa.“Se você começa a perceber que dentro do Executivo a proposta saiu torta, com uma ala defendendo e outra fazendo corpo mole, isso é um indicativo de que há menos chance de avançar”, afirma.Até uma votação aprovada exige nova leitura. A posição do governo pode indicar a possibilidade de veto, enquanto o placar ajuda a avaliar se haveria votos suficientes para derrubá-lo.Veja mais: “Resolver equilíbrio fiscal com aumento de impostos é mentira”, diz Gustavo FrancoE também: Brasil não é paciente terminal, mas está em estado grave, diz ex-BC Armínio Fraga Três sinais para acompanhar depois da eleiçãoPassada a votação, Gama aponta três etapas especialmente relevantes para avaliar a agenda econômica do próximo governo: formulação, apoio presidencial e governabilidade.A primeira pergunta é sobre o conteúdo.As políticas apresentadas pelo governo caminham na direção do esforço fiscal que o mercado considera necessário?Mas uma proposta da equipe econômica não basta.“Uma coisa é a equipe econômica formular algo na direção certa. A segunda coisa é o chefe do Executivo abraçar essa agenda e fazer com que ela se transforme em uma agenda de governo, de fato”, diz Gama.Esse é o segundo teste: o presidente está disposto a gastar capital político para fazer a proposta avançar?O terceiro é o Congresso.Mesmo com uma equipe econômica comprometida e apoio do presidente, será necessário construir maioria suficiente para aprovar as medidas.A sequência ajuda a transformar um anúncio abstrato em sinais observáveis: o que foi proposto, se o presidente assumiu a proposta e se existe apoio político para aprová-la.Veja mais: Brasil tem fragilidade estrutural e falta de foco em tecnologia, diz Marcos LisboaE também: Stuhlberger: Seja Lula ou Flávio, novo presidente fará pouco para cortar o déficit Continuidade ou mudança de governo exigem leituras diferentesO momento em que os primeiros sinais aparecem também pode variar conforme o resultado eleitoral.Em um governo de continuidade, Gama espera que as respostas possam surgir mais rapidamente, porque a administração já conhece os números e ocupa a máquina pública.Em uma alternância de poder, o primeiro sinal relevante tende a ser a composição da equipe econômica.“A composição de time inicial vai ser um sinal bastante relevante, para depois se discutir quais propostas moviam público e a capacidade de implementação delas”, afirma.Isso torna os primeiros nomes escolhidos pelo vencedor parte da leitura econômica do pós-eleição — mas não o ponto final dela.A equipe pode indicar uma direção. A execução dependerá dos passos seguintes.O investidor estrangeiro olha o Brasil de outra perspectivaO investidor internacional tende a analisar o Brasil de forma comparativa.Em vez de acompanhar exclusivamente a política doméstica, geralmente observa o país ao lado de outros mercados latino-americanos ou emergentes.Isso pode produzir diferenças em relação à percepção do investidor local.“O estrangeiro acostumado a olhar outros países enxerga um eventual quarto mandato do Lula como mais do mesmo, já baseado no que tem de experiência dos três mandatos anteriores”, afirma Gama. “Enquanto o local parece um pouco mais cético sobre a capacidade de implementação de algum tipo de ajuste.”Trata-se da leitura relatada pelo analista, não de uma avaliação objetiva sobre qual dos dois grupos interpreta melhor o cenário.Gama também diz perceber menor peso de questões geopolíticas na análise dos estrangeiros do que na eleição anterior.“As discussões domésticas parecem mais relevantes para o estrangeiro do que questões geopolíticas da participação do Brasil”, afirma.Como acompanhar o noticiário eleitoral sem reagir a cada mancheteO excesso de informação cria outro risco: tratar toda notícia política como uma mudança estrutural de cenário.“A expressão comum em Brasília é dizer que no Brasil em 20 dias tudo muda, mas em 20 anos nada muda”, diz Gama.A abordagem utilizada pela análise política da XP é partir de hipóteses mais estruturais e confrontá-las continuamente com os fatos novos.“A gente tenta criar teses e formular hipóteses estruturais que percorram o cenário todo, testando essas teses com as informações de mais curto prazo para ver se elas continuam ou não.”A distinção é importante porque declarações públicas também podem ter objetivos políticos.“Um cuidado grande é perceber que nem toda declaração é uma declaração desinteressada — as coisas podem ter intenções justamente de mudar o humor”, alerta.Gama cita como exemplo a candidatura de Flávio. Depois que um portal publicou que ele havia recebido o endosso necessário, a equipe buscou confirmar a informação de maneira independente antes de incorporá-la ao cenário.“Faz parte do nosso trabalho: se a informação faz sentido, a gente consegue ter segurança dela pelas conversas independentes que a gente faz — e a partir daí incorporar ao cenário e ajustar a rota.”A lógica é simples: uma notícia nova não precisa necessariamente produzir uma tese nova.Primeiro, ela precisa ser confirmada e confrontada com o cenário já construído.O maior risco é confundir preferência política com diagnósticoPara Gama, há ainda um risco específico para o investidor pessoa física durante uma eleição: analisar o cenário de acordo com aquilo que gostaria que acontecesse.“O risco é você confundir o que você quer com o que você acha que vai acontecer”, afirma. “Esse viés acaba te cegando.”A questão não é abandonar preferências políticas, mas separá-las da análise usada para tomar decisões financeiras.Gama sugere buscar um interlocutor externo — assessor, gestor ou analista — que possa confrontar a leitura quando a emoção passa a interferir no diagnóstico.“Ter alguém externo que te chame a atenção e te traga à realidade talvez seja o melhor dos caminhos para evitar que você seja conduzido pela sua emoção em vez de pela sua razão.”Para o investidor, portanto, a eleição não termina quando o resultado aparece na urna.É a partir daí que começam os sinais capazes de mostrar se uma agenda econômica pode realmente sair da formulação, ganhar apoio político, atravessar o Congresso e chegar à prática.The post Eleição 2026: o que o investidor deve observar após o 1º turno appeared first on InfoMoney.