O Partido Republicano aparentemente chegou ao estágio de “pânico” em relação às eleições de meio de mandato de 2026.Reportagens de diversos veículos de imprensa nos últimos dias retrataram um cenário em que os republicanos se veem subitamente confrontados com maus presságios e convencidos de que o desastre é iminente.Operadores de campanha, que há muito se mostravam apreensivos quanto às chances de manter o controle da Câmara, agora também demonstram grande preocupação com o Senado. Trump não consegue mobilizar a sua própria base, diz especialista EUA acionam Pentágono para impedir "ameaças estrangeiras" nas eleições Análise: Estratégia de Trump para Midterms rejeita o que eleitores querem Às vezes, esse pânico é infundado. Basta lembrar as eleições de 2022, quando muitos democratas temiam uma “onda vermelha” — pouco antes de desafiarem as previsões históricas e praticamente empatarem a disputa.Então, qual deve ser o nível de pânico dos republicanos? Certamente é justificável um grau considerável de preocupação neste momento, mas eles ainda contam com vários fatores que jogam a seu favor.Abordei parte disso na sexta-feira (25), ao analisar como muitos dos indicadores de clima político em uma nova pesquisa da CNN estavam abaixo do que no período que antecedeu as piores eleições de meio de mandato do Partido Republicano no século XXI — as de 2006 e 2018.No entanto, ainda falta mais de um mês, e alguns indicadores ainda não corroboram a ideia de uma grande onda democrata.Vamos analisar a situação.Por que o Partido Republicano deveria entrar em pânicoOs índices de aprovação de Donald Trump parecem piores do que os de qualquer presidente moderno às vésperas de eleições de meio de mandato — com os eleitores aparentemente mais inclinados a votar contra ele do que estiveram contra George W. Bush em 2006.Além disso, tanto a questão da guerra com o Irã quanto a inflação parecem ser grandes pontos negativos que estão ofuscando outras pautas.A vantagem dos Democratas na chamada “votação genérica” não é tão expressiva quanto foi em 2006, mas caminha para dois dígitos — o que, historicamente, sugere que estamos a caminho de uma derrota esmagadora.E é aí que reside o ponto particularmente preocupante para os Republicanos no momento: a tendência.A situação não é favorável ao partido há algum tempo, mas parece estar piorando. E há poucos motivos para acreditar que isso vá mudar.Para começar, parece que já passamos do ponto em que seria possível uma resolução para o conflito com o Irã capaz de derrubar os preços da gasolina a tempo de causar um impacto significativo na percepção dos eleitores.Mesmo que houvesse sinais de que os EUA poderiam fechar um acordo com Teerã, o processo levaria tempo para ser concretizado (lembra como o memorando de entendimento demorou a ruir?).E, ainda que Trump encerrasse o conflito sem um acordo, há poucos indícios de que o Irã abriria mão do controle sobre o Estreito de Ormuz; afinal, isso confere ao país um enorme poder de barganha.Além disso, Trump parece não ter interesse ou capacidade de alterar suas táticas de modo a beneficiar o Partido Republicano.Ele continua concentrado em questões como o salão de baile da Casa Branca, a guerra comercial com o Canadá, o Kennedy Center e várias outras provocações, muito depois de ter ficado claro que essas coisas não são, de forma alguma, o que os eleitores desejam — e que eles o veem como alguém que negligencia o que realmente lhes importa: a economia.A essa altura, tudo isso já parece estar consolidado.Por fim, os eleitores indecisos restantes parecem ser um público que os Democratas têm boas chances de conquistar.Uma pesquisa recente do jornal New York Times e do Siena College mostrou que, entre os prováveis eleitores indecisos, a desaprovação em relação a Trump era de 55% contra 19%, sendo que 4 em cada 10 manifestavam forte desaprovação.Levantamentos da CNN também sugerem que os eleitores que ainda não decidiram entre Democratas e Republicanos tendem a ser jovens e pessoas de cor — grupos demográficos que, normalmente, inclinam-se para o Partido Democrata.Por que o pânico pode esperarHá, no entanto, pelo menos um fator que joga a favor do Partido Republicano: os gastos.Dados da AdImpact divulgados na segunda-feira (28) mostraram que os republicanos já gastaram mais em praticamente todas as principais disputas pelo Senado e reservaram mais tempo de propaganda em todas as nove corridas mais acirradas.A vantagem financeira do partido consolidou-se, de fato, na segunda metade de setembro.Para quem deseja traçar um cenário otimista para os republicanos, o argumento é que isso poderia reduzir o apoio aos democratas que concorrem em alguns desses estados republicanos competitivos — candidatos que talvez não estejam em sintonia ideológica com o eleitorado local, como James Talarico, no Texas.Além disso, alguns desses concorrentes apresentam índices de popularidade surpreendentemente bons, os quais poderiam ser difíceis de manter caso enfrentem uma enxurrada de propagandas adversárias.Somado a isso, os republicanos se beneficiam de vantagens estruturais significativas que poderiam ajudar a conter uma “onda azul”: a atual configuração dos mapas eleitorais da Câmara e do Senado.No Senado, esses estados republicanos são a chave para a maioria democrata.Eles precisam de pelo menos dois estados onde Trump tenha vencido com uma vantagem de dois dígitos em 2024.Mesmo em 2018 — um ano de eleições de meio de mandato particularmente ruim para o Partido Republicano —, os republicanos na verdade conquistaram duas cadeiras no Senado, pois o mapa eleitoral lhes era favorável.Na Câmara, a manobra republicana de redistritamento no meio da década inclinou uma clara maioria dos distritos a favor do partido — a tal ponto que o distrito mediano da Câmara é cerca de 3,5 pontos mais republicano do que o país como um todo, segundo o Centro de Política da Universidade da Virgínia.Levando tudo isso em conta — e considerando a possibilidade de uma leve oscilação de volta para os republicanos e/ou de pequenas imprecisões nas pesquisas —, é plausível que uma vitória democrata seja, no mínimo, menos avassaladora do que a maioria dos analistas projeta atualmente.Basta observar algumas dessas disputas para o Senado.Os democratas geralmente lideram no Maine, em Michigan e em New Hampshire.No entanto, pesquisas do “Times”-Sienna mostraram a senadora republicana do Maine, Susan Collins, com 3 pontos de vantagem e os republicanos a uma diferença de 5 pontos em New Hampshire; além disso, o democrata de Michigan Abdul El-Sayed tem aparecido à frente com uma margem de poucos pontos percentuais, inclusive em uma pesquisa da CNN.Fala-se cada vez mais na possibilidade de os Republicanos perderem, na Câmara, distritos onde Trump venceu por dois dígitos de vantagem e, no Senado, possivelmente vários estados onde ele também obteve essa margem expressiva.No entanto, os indícios mais recentes mostram que eles ainda estão na disputa em alguns estados decisivos e até mesmo em estados tradicionalmente democratas na disputa pelo Senado.E qualquer um desses estados, caso passasse para o lado republicano, complicaria drasticamente as contas dos Democratas para garantir a maioria.Por enquanto, vale a pena acompanhar de perto as pesquisas nesses três estados.Se a vantagem começar a escapar das mãos dos Republicanos em todos eles, aí sim poderá ser o momento de entrar em pânico.Entenda como funcionam as eleições primárias presidenciais dos EUA