Agricultora transforma plantas do Cerrado em autonomia e renda

Wait 5 sec.

Antes de aprender sobre gestão, precificação ou mercado, Josefa Francisca Ataide aprendeu com a mãe, as tias e outras mulheres mais velhas da família que alimento, natureza e saúde faziam parte de um mesmo cuidado. As plantas que cresciam ao redor de casa eram a medicina disponível e o conhecimento sobre como utilizá-las atravessava gerações.Na vida adulta, aquilo que fazia parte de sua identidade começou a ganhar também conhecimento técnico sobre beneficiamento, toxicidade e preparação das plantas. Foi da união desses dois mundos que nasceu o Chá da Terra, empreendimento de agricultura familiar no Distrito Federal. “A essência de tudo isso é da minha família”, resume a agricultora e raizeira.Transformar esse saber em negócio, porém, exigiu que dona Josefa primeiro reconhecesse valor no próprio trabalho. Durante anos, enquanto o marido, Antônio, assumia as despesas da família, ela cuidava do quintal, cultivava alimentos e plantas medicinais e contribuía para a alimentação e a saúde da casa — um trabalho que, segundo ela, muitas vezes permanecia invisível.Com o Chá da Terra, vieram renda, reconhecimento e, principalmente, autonomia. Hoje, o casal participa da produção e conta também com o apoio da filha. Do plantio ao beneficiamento, a família produz chás, xaropes, pomadas, sabonetes e outros produtos naturais. “Esse trabalho traz autonomia, identidade e valorização”, conta.Empreender na área rural trouxe desafios de infraestrutura, acesso, divulgação e comercialização, enquanto boa parte do que entrava precisava ser reinvestida para manter a produção. Nesse caminho, Josefa encontrou no Sebrae ferramentas para organizar aquilo que já sabia fazer.Equipe do Chá da Terra durante o processo de embalagem dos produtos | Foto: DivulgaçãoAprendeu sobre gestão financeira, precificação, identidade visual, embalagens e acesso a mercados, além de participar de capacitações, feiras e outros espaços de empreendedorismo. “Eu costumo dizer que ter um empreendimento eu aprendi com o Sebrae. Ele me fez entender que o que eu sabia fazer tinha valor”, afirma. “Eu não conseguia ver isso como um negócio.”Mas crescer nunca significou retirar da natureza mais do que ela pode oferecer. Para Josefa, o Cerrado é parte de sua própria existência e mantê-lo vivo é condição para que o negócio também permaneça. No Chá da Terra, a família prioriza o cultivo das espécies utilizadas na produção e coleta sementes de plantas como barbatimão, alecrim-do-campo, pacari e assa-peixe para reproduzi-las no próprio quintal, reduzindo a retirada da vegetação nativa. Mudas também são destinadas à recuperação de áreas degradadas.O Cerrado em pé gera renda, gera saúde, gera conhecimento. Se a gente entender isso, passa a proteger e a usufruir com muita responsabilidade.Josefa Francisca Ataide, empreendedoraO conhecimento que chegou até ela pelas mulheres da família continua circulando. Em oficinas, cursos e ações comunitárias, Josefa ensina mais do que o preparo de um chá ou de uma pomada: fala sobre cultivo, uso responsável das plantas e valorização dos saberes tradicionais.Coleta das pétalas estimula encontros comunitários da região | Foto: DivulgaçãoNesses encontros, vê pessoas recuperarem conhecimentos aprendidos com mães, avós, tias e vizinhas e, em alguns casos, descobrirem que essa herança também pode se transformar em fonte de renda. “Partilhar o conhecimento é uma maneira de manter vivo esse saber e também dizer para essas mulheres que essa relação com a agricultura pode transformar a vida da gente”, afirma.Em 2026, essa trajetória levou dona Josefa ao terceiro lugar da etapa estadual do DF do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, na categoria Produtora Rural. Para ela, o reconhecimento pertence também às agricultoras, raizeiras e guardiãs de saberes que nem sempre têm seu trabalho reconhecido. Por trás de cada produto há conhecimentos, famílias, territórios e modos de vida que podem ser fortalecidos pela escolha do consumidor.“Esse prêmio mostra que o conhecimento tradicional tem valor, que a agricultura familiar também é lugar de inovação e de empreendedorismo”, diz Josefa. “Tudo isso pode se transformar em autonomia e renda sem a gente precisar abandonar as nossas raízes.”Foto: InoveCompre do PequenoOs pequenos negócios brasileiros são a grande força da economia brasileira. Com mais de 24,19 milhões de CNPJs – o que representa mais de 96% das empresas ativas -, o setor é responsável por 26,5% do Produto Interno Bruto (PIB). São mais de 13,5 milhões de microempreendedores individuais (MEI), 8,8 milhões de microempresas (ME) e 1,8 milhão de empresas de pequeno porte (EPP) atuando em todo o território nacional.A força desse segmento é celebrada de forma especial em 5 de outubro, no Dia Nacional da Micro e Pequena Empresa. Em comemoração à data, o Sebrae promove a campanha Compre do Pequeno, para valorizar o papel que esses empreendedores desempenham nas vidas das pessoas e de suas localidades.Somente em 2026, o Brasil já registrou a abertura de mais de 4 milhões de novos pequenos negócios. A contribuição para a economia também se dá pela geração de empregos: em média, 80% dos empregos gerados estão no setor. Ao decidir comprar em um pequeno negócio, o consumidor contribui para a circulação de dinheiro dentro da própria comunidade, a geração de mais vagas de trabalho e o desenvolvimento da economia local.